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Comunidade LGBT celebra posicionamentos de Gil do Vigor no 'BBB 21'

Gilberto no "BBB 21" - Reprodução/Globo
Gilberto no 'BBB 21' Imagem: Reprodução/Globo

Marcela Ribeiro e Mari Monts

Do UOL, no Rio e em São Paulo

26/03/2021 04h00

Gil tem sido um representante importante da comunidade LGBTQIA+ no "BBB 21". Doutorando em Economia, ele já amava o reality show e tem se permitido viver intensamente essa experiência. Não é à toa que ele protagonizou um dos beijos históricos do "BBB", com Lucas Penteado, em uma das festas do programa.

Os brothers foram julgados não só fora da casa como dentro do programa. Incomodado, Lucas desistiu do "BBB".

No último paredão, Gilberto, como líder, indicou Rodolffo, após o cantor fazer um comentário preconceituoso por conta do vestido que Fiuk usaria na festa.

Além de debater assuntos importantes na sociedade, Gilberto fala com sinceridade de sua vivência pessoal, da dificuldade de falar sobre sua sexualidade com a mãe e amigos e o preconceito sofrido na igreja.

O humorista e influencer Arthur Sousa, comentarista de "BBB" desde 2018, diz que quando viu Gil ser anunciado como participante ficou muito feliz, "principalmente por toda a representatividade".

Ele destaca a importância de Gil falar abertamente sobre a dificuldade de se assumir homossexual.

É uma causa, uma luta que ainda não acabou, a gente ainda tem uma longa caminhada. Temos que quebrar paradigmas.

"Fico feliz que ele tenha esse posicionamento, ele levanta bandeira e se mostra orgulhoso, totalmente diferente do que muitas religiões pregam como errado, como pecado. Pecado mesmo é julgar, a gente tem que ser feliz".

Cláudio Nascimento, Coordenador do Grupo Arco-Íris e Diretor da da Aliança Nacional LGBTI, destaca que Gil deixa em evidência a comunidade LGBT e levanta o diálogo para assuntos essenciais.

Com relação ao Gil vivenciar sua sexualidade, ter uma postura livre, dançando, brincando, com os trejeitos que ele faz, é importante para mostrar a existência da comunidade homossexual e também para dialogar sobre a diversidade sexual. Ele está cumprindo um papel importante de dar visibilidade a toda a comunidade.

Já Keila Simpson Sousa, presidente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), avalia que trazer os debates LGBTQIA+ para a televisão aberta, no programa de maior audiência da Globo, é um grande avanço.

Foi e é muita luta, de pessoas que vieram antes para que hoje a gente chegasse nesse lugar de tolerância. Mas não devemos esquecer que ainda vivemos num país que assassina muitas pessoas LGBT.

Cada um com sua individualidade

Mas e o João? Claro, o professor também traz questões pertinentes, como suas explicações didáticas sobre bissexualidade. Em uma conversa com Juliette, ele desmistificou algumas questões.

Muita gente encara a bissexualidade como confusão ou indecisão, e como se fosse 'você gosta 50% de homem, 50% de mulher', mas não é assim que funcionam as coisas.

Mas tem gente que compara Gil e João por terem estilos diferentes, um é mais extravagante enquanto o outro não. Mas isso não faz de um mais gay que o outro, viu? Keila explica essa questão:

As identidades dos gays são diversas, assim como as dos héteros. O Gil consegue performar a Britney e o João é mais tranquilo, ambos sendo gays. As pessoas não possuem regras. Cada pessoa deve ser respeitada dentro de suas individualidades. Não existe um padrão para ser gay, não existe um padrão para ser heterossexual. As pessoas são livres.

BBB 21: João Luiz dá aula sobre bissexualidade para Juliette - Reprodução/Globoplay - Reprodução/Globoplay
BBB 21: João Luiz dá aula sobre bissexualidade para Juliette
Imagem: Reprodução/Globoplay

Sarah e Gil

Arthur e Cláudio concordam que Gil está sendo influenciado por Sarah no jogo e precisa se afastar para viver sua individualidade.

"Ele é uma pessoa de coração bom, humilde. O único erro dele foi a aliança com a Sarah, que vem fazendo a cabeça dele. Lá dentro, eles ficam vulneráveis e acabam sendo influenciados, o que está acontecendo com ele e afetando o jogo. Se ele não tivesse com a Sarah, ele estaria bem melhor no jogo. Só falta isso para se juntar no pódio com Juliette", diz Arthur.

Discriminação e medo

Cláudio diz que a naturalidade com que Gil divide suas dores, relacionadas a preconceitos e medo, levanta um diálogo para milhares de telespectadores.

"É importante debater o assunto, muita gente acha que está resolvido, mas não é verdade. Muita gente é assassinada, muita gente sofre cárcere privado, jovens gays sofrem violência física, assédio na família e no trabalho. O Gil tem protagonizado conversas interessantes sobre a questão da discriminação e preconceito, inclusive nas famílias e igreja. A gente sabe que no debate religioso, especialmente cristão, há uma dificuldade de se reconhecer a diversidade sexual".

Indicação de Rodolffo

Cláudio considera "extremamente correta" a indicação de Rodolffo ao paredão, inclusive as argumentações que Gil utilizou ao fazê-lo.

"As pessoas têm que ter responsabilidade com o que falam, tudo o que elas dizem tem repercussão na sociedade. É possível colocar essa discussão na roda. O Gil colocou a cara no sol, ele se indignou com toda a situação do bullying e do preconceito contra o Fiuk. O jogo da piadinha, da ironia é também parte de um processo de discriminação e preconceito".

Arthur concorda que Gilberto foi coerente na indicação, pois o sertanejo fez um comentário que ofendeu toda a classe LGBT.

Gil se sentiu ofendido, são dores que nós gays carregamos há muito tempo. A gente fica afetado quando escuta esse tipo de comentário. Fiquei surpreso por Rodolffo não ter saído, mas é um reflexo da nossa sociedade.

"Uma mulher (Carla Diaz) saiu do paredão não por um erro dela, mas de um cara. O único erro foi ter se perdido com o Arthur. Ainda assim, ela foi mais julgada do que o Rodolffo por suas atitudes machistas e homofóbicas. É um retrato da nossa sociedade de hoje, infelizmente".

Cláudio comenta que, apesar da diferença pequena entre os votos de Carla e Rodolffo ao paredão, isso mostra o quanto a sociedade é machista e julga as mulheres em um relacionamento tóxico.

"O Rodolffo não está bem na casa, mas acha que está arrasando. O que é dele está guardado. A comunidade LGBT está de olho nisso. O que aconteceu mostra o quanto a sociedade é machista e misógina e sempre que tem um conflito entre um homem e uma mulher, acaba que ela sai como a 'errada'".

Quando o sertanejo permaneceu na casa, ele disse que "se tivesse feito 'cagada', teria sido eliminado". A fala causou uma repercussão negativa, sobretudo na comunidade LGBT. O ator e influenciador Vitor diCastro, que é gay, ficou indignado com a postura de Rodolffo:

Não é sobre BBB, é sobre o Brasil. É assim com Bolsonaro, é assim com seu vizinho, seu tio, aquele humorista escroto de sempre. Nossas reclamações, nossos gritos são diminuídos ao máximo por todo mundo que, da boca pra fora, diz que está "disposto a mudar, desde que tenham paciência pra ensinar". É mentira. Não estão dispostos não, estão mais é querendo manter tudo como sempre foi, pra que os seus privilégios continuem intactos.

Cláudio Nascimento ressalta que o Brasil ainda tem muito o que avançar quando o assunto é igualdade, pluralidade e redução do preconceito, violência e crimes contra gays, travestis e transsexuais.

"É uma situação muito difícil. Esses debates são fundamentais para que a sociedade construa ambientes sociais mais favoráveis e plurais, que respeitem a diversidade sexual e valorizem a comunidade LGBT como cidadãos merecedores de apoio e atenção do Estado e da sociedade para a manutenção dos seus direitos".