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A Fazenda 9

Chico Barney

Será que Marcos Harter é mesmo a única atração de "A Fazenda"?

Reprodução/R7
Marcos reclama de Flávia Imagem: Reprodução/R7
Chico Barney

Chico Barney

Entusiasta e divulgador da cultura muito popular. Escreve sobre os intrigantes fenômenos da TV e da internet desde 2002.

Especial para o UOL

23/11/2017 08h06

Engana-se quem pensa que tenho qualquer coisa pessoal contra Marcos Harter. Não

é possível sequer reunir motivos para tal --o nobre doutor é apenas uma coisa que passa excessivamente na minha televisão. Assim como não tenho nada contra os anúncios de Black Friday, por exemplo.
 
Atento a este fato para lembrar que houve uma época em que o entretenimento brasileiro era arruinado por um calendário tão confuso quanto o do nosso combalido futebol. Não tinha essa moda de temporada. Os programas simplesmente ficavam no ar até o dia em que não era mais possível aguentar a solidão provocada pelo esvaziamento de público.
 
Foi graças ao "BBB", lá em 2002, que a divisão das atrações em pacotes sazonais passou a ser integrada de maneira mais estruturada à rotina dos programadores. Mas o início bem sucedido acabou por precipitar o engate com a segunda temporada. Tivemos "BBB1" e "BBB2" no mesmo ano, nem o Bial aguentava mais.
 
Logo estabeleceu-se que o "BBB" teria apenas edições anuais. Mesmo que Bial eventualmente não tenha aguentado mais, todo verão o programa continua lá. A Fazenda cometeu o mesmo excesso em seu primeiro ano. mas também não tardou em corrigir o rumo das coisas.
 
Falo disso querendo falar de outra coisa, ou pelo menos visando retornar ao assunto inicial: - Marcos Harter se empolgou da mesma maneira que a Globo e a Record. O cidadão tentou emplacar como protagonista de duas temporadas em um único ano. Mas ao contrário das emissoras, o plano está dando certo. Goste-se ou não, é fato que as narrativas dos dois principais realities do Brasil em 2017 passam pelos destemperos de sua mente. 
 
E aí que fui convidado para visitar a sede da Fazenda, cortesia da fascinante equipe de comunicação da RecordTV. Chegando lá, Rodrigo Carelli e sua turma me ciceronearam em uma empolgante tour pelos bastidores do reality show. Fiquei deveras lisonjeado quando soube que fui o responsável por um toque de recolher que confinou os peões dentro de casa. Sempre quis deixar aquela gente de castigo.
 
A estrutura da produção é algo que os antigos poderiam comparar à grandiosidade do filme Ben-Hur, de 1959. Não chegam a ser 2,5 mil cavalos, tampouco 10 mil figurantes, mas são números bastante impressionantes. Imagine que tratam-se de cerca de 300 funcionários trabalhando em turnos de portaria - 3 times revezando 24h por dia. É algo como um Grande Colisor de Hádrons funcionando o dia inteiro apenas para nos divertir por alguns minutos antes de partirmos rumo ao berço.
 
Fiz esse novo desvio de rota para contextualizar o seguinte: - estive no parque temático de "A Fazenda", que é a própria "A Fazenda". Uma experiência e tanto para um não-jornalista, um humilde e irresponsável aventureiro como eu. Tem quem goste do que escrevo, mas sou bom mesmo em assistir TV. O resto, faço por hobby. 
 
Digo isso para explicar que me comportei como se estivesse naquelas caravanas que vão até as cataratas fotografar a água caindo. Mas me chamou atenção o fato de que a Fazenda tem elenco forte, mas apenas uma atração: Marcos Harter. Tirei uma selfie com ele através do espelho espião e fiz questão de fotografar a tenebrosa camiseta do “nariz perfeito”. Os outros participantes não têm memorabília tão bem definida, o que talvez explique a repercussão do médico perante a sociedade civil. 
 
 
Personagens da cultura popular precisam ser facilmente identificados. Não é só a grosseria para cima das adversárias ou os bordões desagradáveis que repete ad infinitum. Marcos é como um personagem da Disney, tem seus itens de colecionador. Pense no martelo do Thor, nas luvas do Mickey ou, preferencialmente, no capacete do Darth Vader. 
 
Para amenizar meu sentimento de culpa, pensei que provavelmente uma loja de bugigangas sobre a Avenida Brasil teria todos os itens relacionados à Carminha esgotados, e talvez ninguém se preocupasse o suficiente para levar lembrancinhas da Nina para casa. Mas agora me sinto culpado por usar referência de uma novela que acabou há 5 anos para justificar minha falta de caráter.
 
Onde eu quero chegar, no final das contas, é que a vida real é só um mero detalhe em um reality show. São pessoas não muito factíveis enfrentando situações meramente ilustrativas e tratando de questões que são inspiradas livremente em fatos reais. Como provavelmente diria Nelson Rodrigues, caso perdesse tempo com bobagens, a pior forma de solidão é a torcida de um fã de reality show.

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