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Adrilles: Elenco heterogêneo "entortou" a cara do "BBB"

Montagem UOL
Depois de alguns testes, "BBB" tem um elenco mais maduro, heterogêneo, um pouco mais culto e bem mais feio que o padrão histórico Imagem: Montagem UOL

Adrilles Jorge

Colaboração para o UOL

21/01/2016 17h52

Entortaram a cara do "BBB". A estética clássica para consumo fast food foi transformada num guisado de buchada de bode com caviar. Um elenco mais maduro, heterogêneo, um pouco mais culto e bem mais feio que o padrão histórico. 

Resultado de pequenas amostras ao longo do programa; testes de algumas pessoas que eventualmente tinham algo a dizer – mesmo que dissessem algo bem dito que não expresse muita coisa, como faz a maior parte dos intelectuais brasileiros. A maioria das intelectualices ditas no programa foram e continuam a ser limitadas pela cordialidade de uma hipocrisia necessária ao jogo e pela harmonia civilizadamente hipócrita do discurso televisivo que diz acolher a tudo e todos, e que bota todo mundo para se matar sem atropelos ao discurso politicamente correto da convivência harmônica das diferenças. Sem uma certa hipocrisia, todos sabem, não haveria civilização. Nem no "BBB" nem na virtualidade de uma realidade sem show. E cuidado: a inteligência às vezes pode ser perversa e fazer a apologia da burrice.
 
Mas a ideia de juntar mais gente aparentemente pensante foi positiva. Não adianta pincelar um só cérebro no meio de massas glúteas vitaminadas por whey protein. Isolado de convívio, o cérebro definha por falta de suplemento humano. Vira um ‘’frango’’ anoréxico, no jargão dos marombeiros. Foi este o caminho fatal da maioria dos escolhidos que ousaram raciocinar além das platitudes BBBísticas no confronto desleal com os corpos que falam a língua do povo. Ou melhor, do desejo do povo. Às vezes, aliás, um corpo fala muito profundamente mais sobre a estética vazia do desejo popular que o adorna que um cérebro que escamoteia sua mediocridade através de frases decorativas. O "BBB" já era entortadamente complexo antes de ser entortado de vez.
 
Nesta tentativa de inversão de polos "massa corporal versus encefálica’", há um risco: não se mede carisma por cultura ou inteligência, nem inteligência por conhecimento enciclopédico. Sobretudo, não se mede caráter por inteligência ou mediocridade intelectual. Falta de carisma é fatal para o programa. Já a falta de caráter pode ser um incremento e tanto para a audiência como para análise mais profunda sobre o comportamento humano.
 
Os inteligentes críticos da cultura pop não são exatamente representantes de uma alta cultura em nossa aldeia tupiniquim
 
Ainda assim, vejam só, o programa continua a ser visto como superficial, em geral por gente que acha que Proust é um piloto de fórmula um e que mede sua inteligência pelo reality show ou novela ou programa sensacionalista que odeia assistir. Os inteligentes críticos da cultura pop não são exatamente representantes de uma alta cultura em nossa aldeia tupiniquim.
 
A alta cultura, afinal, depende mais do olhar sobre as coisas que as coisas em si. Estabelecer de antemão que este ou aquele produto é um cocô tendo em vista sua roupagem ou vocação para o entretenimento é ser cego à sua potencialidade. O "BBB" é um show não de realidade, mas de hiperrealidade. Um programa de desnudamento de caráter a longo prazo, em que os personagens, que superinterpretam a si mesmos, vão dando dimensão superinterpretativa aos seus piores vícios também. Como um romance de Dostoiévski envolto em uma embalagem de ‘’Malhação’’.
 
*Adrilles Jorge é jornalista, escritor e ex-participante do "BBB15"
 
 

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