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Adrilles: Heróis, vilões e a virada de Ronan no "BBB16"

Reprodução/TV Globo
Apresentado como potencial herói do "BBB16", Ronan desponta como vilão Imagem: Reprodução/TV Globo

Adrilles Jorge

Especial para o UOL

26/01/2016 07h00

O brasileiro precisa de heróis. Ama enaltecer as virtudes e o mérito de alguém, projetando-se em alguma figura mítica que o encha de admiração, orgulho e desejo utópico. A direção do "BBB" bem sabe disto. O brasileiro precisa de vilões também. Alguém em quem a população pode expiar seus ódios incontidos pelas decepções da vida. A direção do "BBB" também bem sabe disto: o brasileiro também ama odiar.

Mas quando o estereótipo de herói se quebra e o amor vira ódio e o mocinho vira vilão? Acontece. Ronan, deste "BBB16", foi apresentado como a personificação viva do espírito de superação. Pobre, excluído, menino de rua, trabalhador incansável, um lutador que  busca vencer através da cultura e do esforço.
 
O esforço de Ronan no "BBB" é vencer no jogo, como quer vencer na vida. Mas o "como vencer" trai o estereótipo do jogador heroico esperado. O rapaz influencia as pessoas, influencia votos, olha com maus olhos os que entram depois dele no programa, é agressivamente incisivo, chegando ao ponto de insinuar querer mandar pro paredão a moça que o rejeitou pra ficar com outro. E já desponta como potencial vilão, traindo a expectativa de seu suposto heroísmo.
 
O caso não é novidade. Muda a roupagem só. Na edição passada, podemos lembrar de um ativista social com forte apelo heroico e sexual, misto de Don Juan com Robin Hood, que dizia querer ajudar e salvar o mundo e que traiu todas as alianças, amizades e amores da casa em uma busca voluptuosa pelo prêmio. Grana. Fama. Sem utopia.
 
Em um jogo de máscaras, vence quem melhor interpreta o papel de si mesmo. Ser você mesmo? Mas até que ponto alguém conhece a si mesmo, quando há uma disputa envolvendo fama e dinheiro?
 
Mas pode-se afirmar algo de vilania real na persona destes heróis caídos? Questão de expectativa. O heroísmo que molda o gosto do brasileiro comum tem a ver com seu histórico coletivo: é do tipo que mistura a perseverança, a superação social, a bondade caridosa, abnegação, o romantismo e um alto grau de coitadismo. Mas caridade, amizade e romantismo num jogo de eliminação - e de encenação subjetiva e realista -  estão sempre sob suspeita. Em um jogo de máscaras, vence quem melhor interpreta o papel de si mesmo. Papel este em que tenta projetar a expectativa popular. Ser você mesmo? Mas até que ponto alguém conhece a si mesmo, quando há uma disputa envolvendo fama e dinheiro?
 
As máscaras não caem. Elas ficam coladas ao rosto - na vida e no "BBB". E depois de certo tempo, pode ser tarde pra retirá-las. Porque a edição compra sempre a história de quem quer contar sua história de jogador. Nesse jogo de exposição, as supostas virtudes encenadas, assim como os piores defeitos e neuroses, são hiperprojetados pela edição. A edição não mente, não encena. Mas amplia ao máximo a encenação de seus personagens. Um detalhe sutil de perversidade vira vilania. As sutilezas de uma intenção perversa ou virtuosa, no entanto, não podem ser filmadas. Destaca-se quem melhor se mostra, não quem melhor sente.
 
O "BBB" ama histórias e personagens estereotipados. A história de alguém é o principal elemento na sua seleção no programa. E o "BBB" também ama quando seus personagens quebram os estereótipos. Afinal, importa menos a história de alguém que o que este alguém se torna através da história que viveu.
 
*Adrilles Jorge é jornalista, escritor e ex-participante do "BBB15"
 

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