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Adrilles: Onde estão o bem e o mal no "BBB16"?

Reprodução/ TV Globo
Ódios e paixões que Ana desperta refletem ódios e paixões do telespectador Imagem: Reprodução/ TV Globo

Adrilles Jorge*

Especial para o UOL

02/03/2016 13h03

Demorou bastante para que o telespectador brasileiro se livrasse do ranço maniqueísta de personagens bonzinhos e malvados. Em antigas telenovelas, heroínas semivirgens se entrelaçavam com heróis românticos e virtuosos, e/ou canalhas e cafajestes sem escrúpulo algum. Não precisa ser nenhum literato pra saber que o buraco da psique humana é bem mais embaixo. O telespectador do “BBB” parece também estar seguindo a onda. O que não o impede de ainda ser feito de trouxa, claro.

Grande parte do público do reality não se reflete mais exatamente pela projeção da bondade generosa, do reconhecimento do bem absoluto e da abnegação, que, descritos assim, só existem como história da carochinha. O público de agora antes se espelha no reconhecimento das próprias fraquezas adornadas de charme e carisma que prefere a qualquer conceito de um ''bem'' em estado gasoso.

Por isto, boa parte do público se espelha em uma virtude torta, como a saga de Ana Paula contra os moinhos de ventos que ela percebe como o mal absoluto no terreno de um jogo sem contornos claros de bem ou mal. A heróis e vilões, o espectador prefere mergulhar na onda de quem encena melhor a virtude de seus vícios prediletos. Os desaforos mais divertidos, as ofensas mais espalhafatosas, as histerias mais rocambolescas encontram eco popular nos ódios e paixões que Ana desperta e que refletem ódios, paixões e mesquinharias básicas do telespectador.

Reprodução/TV Globo
Tamiel percebeu que bom mocismo não funcionou Imagem: Reprodução/TV Globo

Antes de sua morte no jogo, Tamiel talvez tenha intuído isto. Tamiel percebeu que seu bom mocismo encasulado e vegetativo não deu certo e partiu para o jogo tardiamente. Foi ceifado antes que completasse sua emancipação de vegetal a ‘’humano imperfeito e carismático'', a predileção atual de quem assiste ao “BBB”. Bom, carisma o moço não teve. Restou a imperfeição.

O fato é que adolescentes de todas as idades se percebem na imaturidade mais que charmosa de Ana Paula. E, paradoxalmente, percebem maduramente que o restante da população deste “BBB16” esboça uma pretensa maturidade, uma pretensa mistificação de uma ‘’justiça’’ que não cola mais. ''Justiça'' esta expressa na frase ‘’jogar com o coração’’, quando se pensa com os intestinos.

Se Ana diverte até com seus erros e atropelos aberrantes, Renan entedia com seu pseudo-heroísmo que não consegue se expressar em discurso ou ação. O moço não consegue achar o desaforo adequado nem a acusação justa, nem mesmo o desejo que se cria e que se broxa dentro dele.

Se o espírito confuso de justiça de Ana é nublado por seu carisma, Adélia - e sua amesquinhada agressividade sempre enrustida e apenas manifestada pelos cantos da casa - não convence como moça vingadora da virtude.

Se Ana é muitas vezes agressiva e autoritária com Dona Geralda, esta se deixa cada vez mais desrespeitar e ser subjugada por um visível interesse calculista que se sobrepõe a qualquer senso de dignidade.

Ronan, além de suas inumeráveis citações de ''O Pequeno Príncipe',' segue a mesma rota de desaparecimento na capa de Ana Paula.

Em não havendo bem ou mal, certo ou errado, sobra o charme do carisma pessoal. Será mesmo que bem e mal não existem?

Por fim, o semi-casal Matheus e Cacau é o modelo perfeito de enganação que entedia e enauseia o público. O choro vitimizado e infantil da mocinha de contos de fadas ensurdece a paciência do telespectador e molha o terreno escorregadio do  genuinamente falso sentimento de Matheus por ela e da ostensivamente interesseira amizade do mocinho por todos na casa. Casal perfeito em sua imperfeição. Feitos um para o outro. Mas pra ninguém mais, por misericórdia.

Resta Munik, mocinha legal, simpática, bela. Dança bonitinho. E apêndice de Ana Paula. Talvez vença o jogo por errar ou existir de menos, como aconteceu a outros campeões do reality.

Com esta turminha, como condenar a preferência do telespectador pela relativa, turvamente divertida e por vezes condenável e ambígua persona de Ana Paula?

Este "BBB16" é uma ode ao relativismo moral de nossos tempos. Não havendo bem ou mal absolutos, o pessoal vai no que mais os seduz e diverte. Se ano passado o público se deixou levar por um personagem que falava com estátuas a respeito de seu bom caráter (evitando os humanos), neste ano o público vai no maremoto da contestação mesma do caráter de todos exercido por Ana, que  explode as estátuas de comportamentos certos ou errados. Mas cuidado: em não havendo bem ou mal, certo ou errado, sobra o charme do carisma pessoal. Será mesmo que bem e mal não existem? Reza a lenda que a diversão do Diabo é fazer crer que ele não existe. E que o capeta é sedutor e carismático que só vendo... E que já ganhou várias vezes o “BBB” se fazendo de santo ou carismático. 

*Adrilles Jorge é jornalista, escritor e ex-participante do "BBB15"

Duas em uma? Ana Paula é ao mesmo tempo "gêmea boa" e "gêmea má" no "BBB16"

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