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Adrilles: O sucesso da desinteligência emocional articulada

Reprodução/TV Globo
O desequilíbrio de Ana Paula e a "intelectualidade emocional" de Munik se destacaram no "BBB16" Imagem: Reprodução/TV Globo

Adrilles Jorge

Colaboração para o UOL

28/03/2016 15h20

Os intelectuais deste “BBB16” não deram muito certo. Não só pelo insucesso manifesto -- foram eliminados na maioria -- mas pela atuação sofrível da sofisticação mental esperada. Um deles pecou pela discrição analítica (que não se expôs e não se deu à análise); outro fez fotossíntese ambiental na casa; outro trocou sua metafísica por comentários sobre flatulência e Heavy Metal; outro era leitor de Osho, o guru dos gurus picaretas que querem dizer tudo sem dizer nada. O que ficou é leitor de ‘’O Pequeno Príncipe’’ e adepto de clichês soníferos mais pesados que uma caixa de Rivotril.

Enfim. A intelectualidade enguiçou neste “BBB16”. Em contraposição, o grande sucesso do programa é a esperteza da desinteligência emocional articulada racionalmente, intelectualmente. Começou com Ana Paula, cujo desequilíbrio emocional carismático e consciente a levou a ser a primeira integrante expulsa e adorada - e mesmo odiada com paixão fiel.

Mas a autenticidade do desequilíbrio é fundamental para seu sucesso. Ou a interpretação convincente do desequilibrado. Não é o caso de Cacau, que expôs múltiplas faces de uma desordem emocional excessivamente calculada e artificial. A moça romântica que ama o amor, passando facilmente seu afeto de um micareteiro desafetivo para um ator pseudo-libanês. Que ama sofrer sua solidão pelo abandono que não existe, pois a moça não foi abandonada pelo micareteiro que jamais a amou, nem pelo adversário Ronan, que a trata como adulta, para seu desespero.

Cacau finge, interpreta seu afeto por si mesma e pelos outros - a ponto de acreditar no seu fingimento. Seu pecado é este. Bial disse, na última eliminação, que ‘’nosso afeto a gente inventa. E afeto inventado não é menos afeto ou menos invenção’’.

A gente é sempre obrigado a se criar, sob pena de deixar de existir em vida. Que também é uma criação

Mas afeto criado é diferente de afeto fingido. Você pode criar afeto – em si e nos outros – pra tentar cultivar afeto real em seu redor, como faz Ronan, que projeta em Munik um tipo de afeto que ela não sente por ele. Em busca de consolar sua carência, esta iniciativa pode ser fatal. A exigência de um ‘’gostar’’ do outro pode se transformar em raiva ou mesmo repulsa. De ambas as partes. Se Munik se sente incomodada por uma exigência afetiva de Ronan que não quer cumprir, Ronan vai se sentir magoado e raivoso por achar que Munik não é digna da generosidade de seu carinho por ela. E eis que a falta de comunicação afetiva fecha seu ciclo perverso.

Ronan é um tipo realmente complexo. Tem a maturidade de ser frio e objetivo no desmascaramento da tal desinteligência emocional calculada de todos na casa. Mas é incapaz de ver ou calcular a própria infantilidade emocional, tão óbvia: o garoto abandonado que se alimenta da vitimização do abandono, transformado o abandono cotidiano numa espécie de prazer masoquista.

Munik é seu avesso. Faz da imaturidade seu trunfo. Sabe inconscientemente que a única maturidade afetiva é reconhecer um eterno infantilismo humano. Brinca com suas perdas. Devora suas rejeições e as joga fora, como secreções. Faz do humor o bálsamo que, se não cura, alivia suas mágoas. É a única ‘’intelectual emocional’’ completa da casa.

Uma maturidade emocional diferente da libido desencantada e também madura de Geralda, por exemplo. Bem resolvida no abandono de certos afetos, Geralda parece querer apenas reconhecimento, projeção de si, afeto consolidado e reforçado onde ele já existe. Se possível, algum dinheiro. Isto tudo o “BBB” pode oferecer. O afeto pragmático.

Mas existe afeto pragmático? Vou além do discurso do pragmatismo afetivo de Geralda e do discurso de Pedro Bial. Todo afeto é criado, inventado. O ser humano cria um sentimento que se torna uma necessidade e se torna refém desta necessidade criada. E isto não é exatamente um mal. Porque a não criação de um afeto é como a não criação de um sentido de vida. Sem sentido, sem afeto, sem criação, a criatura recai no vazio. E mesmo a tragédia de um afeto dolorosamente criado nos faz sentir vivos. A gente é sempre obrigado a se criar, sob pena de deixar de existir em vida. Que também é uma criação. Sabe-se lá de quem e com que propósito.

*Adrilles Jorge é jornalista, escritor e ex-participante do "BBB15"

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