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Especial BBB19

Mauricio Stycer


É ingenuidade acreditar que o "BBB" queira discutir racismo de forma séria 

Reprodução/GloboPlay
"Então, eu sou negra", disse Paula após Elana afirmar que se considera negra Imagem: Reprodução/GloboPlay
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

É jornalista desde 1986. Repórter e crítico do UOL, autor de um blog que trata da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

Colunista do UOL

2019-02-11T05:01:00

11/02/2019 05h01

Em março de 2010, o diretor do "BBB" deu uma rara e sincera entrevista sobre o programa. Boninho falou que enxergava o reality como uma disputa pesada por um prêmio milionário. "O 'BBB' não é cultura. É um jogo cruel", disse.

A entrevista ocorreu durante o "BBB10". A edição, vencida por Marcelo Dourado, chamou a atenção por contar com três homossexuais assumidos (Dicesar, Serginho e Angélica). Por isso, a repórter Andréa Michael perguntou a Boninho: "E o que a 'química' da homossexualidade traz para o jogo?" Ele respondeu assim (o grifo é meu):

"Isso não entra no jogo, mas, sim, na composição que a gente quer montar. Quem vou colocar no jogo para surpreender quem está dentro e quem está fora? Não colocamos ninguém no 'BBB' para discutir homo ou heterofobia, minorias... Não escolhemos um personagem representando coisas. O fato de ser ou não homossexual não é para interagir no jogo. Não estou preocupado se o cara é gay ou não. Ele não vai entrar por ser gay, mas pelo que traz para a competição. Foi o que aconteceu com Jean [Wyllys, vencedor da quinta edição]. Ele não entrou por ser gay, entrou por ser inteligente. 'Big Brother' não é cultura, não é um programa que propõe debates. É um jogo cruel, em que o público decide quem sai. Ele dá o poder de o cara que está em casa ir matando pessoas, cortando cabeças. Não é um jogo de quem ganha. Para o cara de casa, é um jogo de quem você elimina. Só no último programa é que é feita a pergunta: 'Quem merece ganhar?'."

Nove anos depois, o "BBB19" traz cinco participantes negros: Rodrigo, Gabriela, Danrley, Rizia e Elana. Os dois primeiros foram apresentados como militantes da causa contra o racismo. Os outros três, em diferentes graus, têm consciência da questão de raça, mas falam menos do assunto durante o programa.

Nunca houve cinco participantes negros numa mesma edição do "BBB". É evidente que raça e racismo se tornaram temas de conversas na casa. Quem faz mais abertamente um contraponto a eles é Paula. Desbocada e debochada, não tem a menor preocupação se pode ofender alguém com seus comentários preconceituosos. Veja uma lista deles aqui.

Neste domingo, após Elana dizer que se considera negra, Paula falou: "Então, eu sou negra! Sou negra, porque minha avó é preta também!" Diante do constrangimento de Elana, Gabriela e Rodrigo, ela acrescentou: "Nossa, o pai da avó era azul!" 

Ao voltar para Tiago Leifert, o apresentador disse: "Nosso elenco tem muitos momentos de conversas como esta, mais sérias, mais profundas, que a gente normalmente não vê num reality. Mas eles também sabem se divertir. Eles sabem o momento de falar sério e de brincar."

É preciso ser muito ingênuo para acreditar que Boninho mudou a maneira de enxergar o "BBB" e agora quer discutir racismo de forma séria e profunda. O diretor não está nem um pouco preocupado com isso. Ele quer ver "tretas" entre os participantes e o público "cortando cabeças".