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Blog do Mauricio Stycer

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"Insensato Coração", uma novela deslocada no tempo

Mauricio Stycer

20/02/2011 09h00

Depois de 30 capítulos, "Insensato Coração" ainda luta para se firmar junto ao público. Os números da audiência mostram que a batalha não está sendo fácil. Fato incomum,  a novela de Gilberto Braga e Ricardo Linhares tem tido menos público, às vezes, do que "Ti-Ti-Ti", a comédia exibida às 19hs.

A substituta de "Passione" não é, de fato, uma novela fácil de classificar, o que talvez explique a resistência do público em segui-la. Primeiro, pensei que era uma homenagem a "Vale Tudo", novela hoje com status de clássico, que Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères escreveram em 1988.

As referências são muitas, a saber: o nome quase idêntico da companhia aérea (TCA, hoje CTA); a repetição de atores nos dois elencos (Natalia Timberg, Antonio Fagundes, Gloria Pires, Cassio Gabus Mendes); a trilha sonora (na primeira, "Brasil"; nesta "Que País É Este?").

Mas estas, vamos chamar, "homenagens" são detalhes comparados à similaridade de alguns perfis, em particular dois, com a mesma estrutura familiar: o filho arrivista inescrupuloso (Maria de Fátima, hoje Leonardo) e o pai de boa alma, tão ingênuo quanto determinado (Raquel, hoje Raul).

Depois, comecei a achar que o ar de "antigamente" em "Insensato Coração" decorria de algumas afetações e maneirismos. Lembro de Vitoria (Natalia Timberg) ao telefone, falando em francês, por exemplo. Ou também de sua casa, com inúmeros empregados impecavelmente uniformizados, incluindo, claro, o mordomo.

O que dizer, então, do delegado, em Florianópolis, que só é chamado por Raul (Fagundes) de "inspetor"? Ou, ainda, do personagem Milton (José de Abreu), um bom vivant decadente, que mora no Copacabana Palace às custas da filha?

Como definir as cenas melosas de "amor à primeira vista" entre Marina (Paola Oliveira) e Pedro (Eriberto Leão)? Cafonice pura, assim como a escultura que aparece, girando, diariamente, na abertura da novela.

Também é velho o ressentimento dos autores com jornalistas, sempre citados de forma negativa em diferentes passagens da novela e, quando exibidos em cena, bobalhões ou interesseiros.

Mesmo o que seria novo em "Insensato Coração", uma personagem que é ex-participante de reality show (Natalie L´Amour, vivida por Déborah Secco), serve como pretexto para Braga repetir um discurso e uma personagem (Darlene) que já fez em outra novela, "Celebridade" (2003), dedicada a este universo.

Alguns dos recursos dramatúrgicos utilizados pelos autores para prender a atenção do público também me parecem já estar com data de validade vencida. Maior exemplo, a meu ver, foi a briga que opôs os familiares dos protagonistas num dos primeiros capítulos, todos ofendendo a todos, na festa de aniversário de casamento de Raul e Wanda (Natalia do Vale). Quantas vezes já não assistimos esta cena?

O recurso quase diário a cenas de briga, discussões e barracos dão a impressão, às vezes, que a novela está sendo escrita no piloto automático.

Para piorar, os autores e o diretor, Dênis Carvalho, têm tratado com mão pesada todas as possibilidades de humor. O canastrão Andre Gurgel (Lazaro Ramos), a devoradora de homens Bibi (Maria Clara Gueiros) e todo o núcleo de Natalie, que inclui sua mãe (Rosi Campos), não conseguem arrancar uma gargalhada sequer do público.

Por fim, comecei a pensar que o problema de "Insensato Coração" seria a sua falta de atualidade. Não há, ainda, um único assunto interessante ou atraente sendo abordado pela novela. As relações familiares esgarçadas funcionam como uma nuvem sobre a novela, mas nada além disso.

Um bom tema, a perda de virgindade da jovem Leila (Bruna Linzmeyer, a única revelação da novela, até agora) foi desperdiçado por uma abordagem convencional. O eventual racismo ou a homofobia que personagens da trama podem sofrer ainda não deram o ar da graça, depois de um mês.

"Insensato Coração", enfim, faria muito sucesso na década de 80, talvez na de 90, mas parece fora do lugar na segunda década do século 21.

Em tempo: Este texto foi publicado originalmente aqui,  na sexta-feira, 18, no UOL Televisão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.