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Mauricio Stycer

Atores de “Máscaras” divulgam carta em defesa da novela e do autor

Mauricio Stycer

02/07/2012 13h27

"Inconformados" com o tratamento dado pela mídia à novela, 28 atores do elenco de "Máscaras", incluindo os protagonistas Paloma Duarte e Fernando Pavão, assinam uma "carta de amor" em defesa do próprio trabalho e do autor, Lauro Cesar Muniz.

Lançada em abril, "Máscaras" frustrou a Record, obtendo números de audiência muito baixos. O diretor da trama foi substituído, a novela mudou de horário, sendo empurrada para o final da noite, e o seu final, previsto inicialmente para o início de 2013, foi antecipado.

Pouco mais de um mês depois da estreia, o próprio autor classificou "Máscaras" como um "equívoco" e disse não se considerar injustiçado pelas críticas ou pela baixa audiência. "Ao contrário me sinto 'justiçado' – cometi um erro grave e estou pagando por isso. É uma pena que eu tenha errado em minha última novela. 'Máscaras' vai para meu rol de equívocos como 'Os Gigantes'.  Eu gostaria de acordar desse pesadelo", disse, na ocasião..

A carta foi feita por um grupo de atores do elenco e depois proposta para ser assinada pelos demais. Em defesa de Muniz, escrevem: "'Máscaras' inova e transgride, mas isto não está sendo percebido pela maioria".  Depois de enumerar uma série de aspectos da trama que seriam de vanguarda (veja abaixo, no ponto 3), observam: "Não é justo que essa inovação, essa ousadia, não fique registrada, seja tratada tão prosaicamente, baseada tão somente no valor Ibope".

Há inúmeras referências na carta à baixa audiência da novela. "Nós não aceitamos a avaliação de nosso trabalho apenas através do índice/Ibope, o que significaria colocar o trabalho dos atores no mesmo patamar de componentes de um reality show. O Ibope é um índice de mercado, comercial, compreendemos isso, mas nosso trabalho é artístico", escrevem.

Num ambiente que privilegia a fofoca e a reclamação anônima, esta carta de parte do elenco da novela constitui um documento raro, talvez histórico. Concordando-se ou não com os temos do texto, ele mostra um grupo de atores engajados numa causa comum, pedindo um outro olhar para o trabalho no qual estão engajados. Merecem ser ouvidos.

Consultado pelo blog, Muniz observou: "Eu disse pelo telefone a uma atriz que me enviou que eu ficava muito sensibilizado mas que temia que a divulgação pudesse ser mal interpretada". E acrescentou: "Eu me sentiria muito mal de pedir que a carta não fosse divulgada. Respeito muito o direito de expressão de todos."

Veja a íntegra da carta:

CARTA DE AMOR DOS ATORES DE "MÁSCARAS"

Inconformados com o tratamento  dado ao nosso trabalho, em vários tipos de mídia, nos manifestamos e queremos alertar para algo que não está sendo percebido.

No começo os críticos  reclamavam que a novela era difícil, feia até. Acatamos, Lauro abriu mais a trama, lutamos, perdemos um diretor, ganhamos outro, uma NOVA novela está no ar. Isso, estranhamente, quase ninguém comenta.

1 – É do conhecimento de todos que uma novela que vai ao ar após às 23h30m , não tem a mesma audiência de uma outra que vai ao ar às 21h. No entanto, a veiculação sobre o índice de audiência de "Máscaras", não vem com esta informação.

2 – Nós não aceitamos a avaliação de nosso trabalho apenas através do índice/Ibope, o que significaria colocar o trabalho dos atores no mesmo patamar de componentes de um reality show. O Ibope é um índice de mercado, comercial, compreendemos isso, mas nosso trabalho é artístico.

3 – "Máscaras" inova e transgride, mas isto não está sendo percebido pela maioria. O que não estão vendo em nossa novela, é que ela quebra com os clichês das novelas convencionais: quando apresenta um galã dúbio, que tanto pode ser bom ou mau caráter, sem heroísmo romântico; vilões que se apaixonam, cujas ações são misturadas com humor e atitudes paradoxais, sem maniqueísmos; um casal que tem um filho imaginário, uma metáfora, algo inexistente em novelas; personagens com tesão explicita e realizada, fugindo aos padrões antigos de comportamento; um retrato político do capitalismo selvagem internacional, ao mostrar uma organização com interesses em propriedades de outra nação, como acontece com o petróleo do Oriente Médio, ou a loucura dos investidores da bolsa americana, em sua ambição desenfreada, levando o mundo a uma crise imensa. Não é justo que essa inovação, essa ousadia, não fique registrada, seja tratada tão prosaicamente, baseada tão sómente  no valor Ibope.

4 – Não estamos incomodados por qualquer crítica desfavorável, respeitamos o gosto de cada um. Afinal, o que seria da música "brega", se todos gostassem de Mozart? O que seria de Van Gogh que só vendeu após a morte? O que nos dói é saber que esta que será a última novela de Lauro Cesar Muniz tem sido tratada de forma tão equivocada por alguns veículos da mídia, sem o cuidado de prestar atenção ao texto deste grande dramaturgo, cuja obra plenos de amor e garra representamos. Além disto  trata-se do nosso ofício e do nosso mercado de trabalho.

5 – Temos encontrado uma reação calorosa nas ruas e, sabemos, isto não acontece com um trabalho sem audiência. A TV de hoje tem tantos canais, tanta programação, que não se pode cobrar das pessoas que acompanhem tudo e, talvez por isso, não tenham percebido o que estamos alertando agora. Mas, tendo feito já as mudanças que grande parte da mídia  tanto criticou e talvez estivessem certos em alguns aspectos, seria honroso que no mínimo comentassem de forma mais respeitosa, e opinassem inclusive sobre a "nova novela" quem vem sendo exibida, chama-se "Máscaras" e é boa pra caramba.

1.Barbara Bruno; 2.Bemvindo Sequeira; 3.Carlos Bonow; 4.Domingos Antonio; 5.Eliete Cigarini; 6.Fernando Pavão; 7.Flavia Monteiro; 8.Giusepe Oristânio; 9.Heitor Martinez; 10.Iris Bruzzi; 11.Jean Fercondini; 12.Jonas Bloch; 13.Jorge Pontual; 14.Livia Rossy; 15.Luiza Curvo; 16. Marcelo Escorel; 17.Marcio Killing; 18.Nicola Siri; 19.Nina de Pádua; 20. Paloma Duarte; 21. Pâmella Vidal; 22.Petronio Gontijo; 23.Raul Gazolla; 24. Renato Livera; 25.Robert Bomtempo; 26.Sabrina Costa; 27.Tatsu Carvalho; 28.Theo Fox.

Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.