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Terminar Os Dez Mandamentos sem mostrar o fim da história é caso de Procon

Mauricio Stycer

23/11/2015 22h19

DezMandamentosultimocapituloEssa nem João Kleber, mestre na arte de criar suspenses na TV, seria capaz de imaginar. Depois de nove meses no ar, "Os Dez Mandamentos" terminou sem mostrar Moisés entregando o decálogo ao povo hebreu.

A última cena da novela mostrou o libertador descendo do Monte Sinai com as duas tábuas de pedra gravadas por Deus. Para sua surpresa e decepção, Moisés vê os hebreus fazendo um ritual em torno de um bezerro de ouro – uma heresia. Furioso, atira as tábuas no chão, destruindo-as, e igualmente derruba a oferenda dourada. Diante do povo perplexo, o líder pergunta quem está com Deus e aparece a palavra CONTINUA…

O que ocorre em seguida está descrito no Velho Testamento. Moisés sobe o Monte Sinai pela segunda vez, recebe novamente o decálogo, desce e o entrega aos hebreus. Posteriormente, por conta de um outro problema, será punido por Deus, que o proíbe de entrar com seu povo na Terra Prometida. Caberá a Josué a tarefa de conduzir os hebreus.

O longo capítulo final ocorreu no mesmo ritmo dos anteriores – quase nenhuma ação, muita conversa e cantos hebraicos. Deus falou com todos os hebreus sobre as regras que deveriam obedecer, mas eles pediram a Moisés que conversasse pessoalmente com Ele. Foi então que o libertador subiu ao Monte Sinai e recebeu as tábuas da lei.

A decisão de guardar o final da história para uma "segunda temporada" não é apenas risível, mas desrespeitosa com o público que acompanhou a trama por 176 capítulos. Verdadeiro caso de Procon. Uma novela com este nome, "Os Dez Mandamentos", afinal, deveria terminar com o momento glorioso desta história bíblica.

Somente há duas semanas a Record anunciou que vai colocar no ar uma nova fornada de capítulos (cerca de 60), com estreia prevista para março de 2016. O objetivo seria o de "preparar" o espectador para a nova novela, "Terra Prometida", que estreará após esta "segunda temporada".

Não faço ideia de quem inventou essa, nem por quê. Tenho certeza, porém, que o público não merecia ver a sua novela acabar sem mostrar o final

Caso inédito, ápice da novela ocorreu duas semanas antes do fim

Quem estuda e analisa dados de audiência se surpreendeu não apenas com o sucesso da novela bíblica da Record, mas também com a curva decrescente que ela desenhou depois do dia 10 de novembro.

Novelas, por tradição, crescem na reta final e alcançam os seus maiores números nos últimos capítulos. Com "Os Dez Mandamentos", pela primeira vez, o recorde foi batido faltando dez capítulos para terminar (veja o gráfico acima). Naquele episódio, ocorreu a esperada cena da abertura do Mar Vermelho.

A análise dos dados de audiência da novela desde a sua estreia, em 23 de março, mostra um crescimento sólido e consistente – com uma queda abrupta na última semana.

A média semanal da primeira semana foi de 12 pontos. E assim se manteve, oscilando entre 12 e 13 pontos de média por nove semanas, até o final de maio.

Na semana de 25 a 29 de maio, pela primeira vez, "Os Dez Mandamentos" alcançou média de 14 pontos. No meio de junho, chegou a 15 pontos. No final de julho alcançou 16 pontos, mantendo esta média até 28 de agosto.

Na semana seguinte, junto com a primeira praga enviada por Deus ao Egito, a novela deu o seu grande salto – a média semanal chegou a 19 pontos. No final de setembro, alcançou 20 pontos. No meio de outubro registrou 21 e na última semana do mês marcou 22 pontos.

Com as pragas se aproximando do fim, a audiência continuou a subir: 24 pontos de média nas duas primeiras semanas de novembro – sendo que no dia 10, com a cena da abertura do Mar, a novela alcançou 28 pontos. Já na última semana, entre 16 de 20 de novembro, "Os Dez Mandamentos" caiu para uma média de 20 pontos, ainda ótima, mas surpreendente dentro da tradição das novelas.

Segundo dados prévios do Ibope, o último capítulo registrou média de 22,5 pontos em São Paulo, deixando a Record na vice-liderança, atrás da Globo, com 23,8. Estes dados podem sofrer alteração na manhã de terça-feira (24), quando forem divulgados os dados consolidados. Cada ponto em São Paulo equivale a 67 mil residências.

No Rio, a novela empatou com a Globo, ambas com 26 pontos.Em Belo Horizonte, foi líder, com 22 pontos, contra 19 da Globo.

Atualizado às 3h: Alertado por leitores que conhecem o Velho Testamento muito mais do que eu, corrigi uma informação sobre a punição que Moisés sofre de Deus.

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Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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