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Blog do Mauricio Stycer

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Sem história, núcleos fracos e personagens bobos, "Sol Nascente" decepciona

Mauricio Stycer

2010-10-20T16:05:01

10/10/2016 05h01

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Disposta a avaliar a recepção de "Sol Nascente", como faz com todas as suas novelas, a Globo ouviu cinco grupos de mulheres em São Paulo na última semana. De acordo com a coluna de Flavio Ricco, "ficou claro o desejo do público para que a novela se torne 'mais folhetim' e abra mais espaço para o romance e ação".

Este resultado, descrito por meu colega no UOL, evidencia um problema grave que tem me chamado a atenção na novela de Walther Negrão, Suzana Pires e Julio Fischer: "Sol Nascente" praticamente não tem história.

A novela apresenta uma colcha de situações, com poucas conexões entre elas, personagens sem maiores motivações e quase nada que estimule a curiosidade do público.

solnascentenucleojaponesQual história "Sol Nascente" quer contar? A de uma família italiana que, com medo da Máfia, foi se refugiar no litoral de São Paulo? E a de uma família de imigrantes japoneses, que vive na mesma cidade e enfrenta os conflitos entre assimilação à cultura local ou preservação de seus costumes? É isso?

Com todo respeito a Negrão, um dos mais experientes e bem-sucedidos autores de novelas, mas esses dois fiapos de história são insuficientes para manter a curiosidade pela novela. A da família italiana, em chave cômica, é a milionésima vez que se vê num folhetim da TV. A da família japonesa é menos comum, mas as questões levantadas até agora são desinteressantes e o ruído causado pela escalação de dois atores não-japoneses (Luis Melo e Giovanna Antonelli) transformou esse núcleo numa aberração.

solnascenteralfOutro problema, na minha opinião, diz respeito à péssima caracterização de personagens essenciais. Não chega a ser incomum um adulto com cabeça de adolescente, mas em "Sol Nascente" isso parece ser regra – e é um incômodo para quem assiste.

O tatuador Ralf (Henri Castelli), sua irmã Lenita (Letícia Spiller) e o mecânico Mário (Bruno Gagliasso), para ficar apenas em três tipos importantes, são de uma imaturidade constrangedora. Não teria sido melhor escalar atores mais jovens? Ou caracterizar melhor o perfil dos personagens?

solnascentelauracardosoE o vilões Cesar (Rafael Cardoso) e sua avó Sinhá (Laura Cardoso)? Estão ali com a função, essencial, de criar conflitos e atrapalhar os heróis, mas alguém consegue entender por quê? Na falta de motivação clara (os negócios da dona de cassinos clandestinos), os autores se vêem obrigados a fazer os dois vilões explicarem tudo o que fazem para o público.

solnascentenucleocaicaras2"Sol Nascente" conta, também, com um núcleo de "caiçaras", que vive da pesca, e é liderado por uma mulher, Chica (Tatiana Tibúrcio), com sensibilidade especial, capaz de intuir pensamentos e sentimentos. É um núcleo tratado, tanto pelo texto quanto pela direção, com um exotismo quase turístico – muito estranho em 2016.

Por fim, não posso deixar de observar que a caracterização de Francisco Cuoco como italiano é uma das piores que vi na televisão nos últimos anos — e olha que não faltam competidores neste quesito.

"Sol Nascente", enfim, tem sido uma decepção até agora. Parece mais uma novela destinada a preencher o horário com entretenimento elementar e audiência regular. Nenhuma ambição além disso.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.