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Blog do Mauricio Stycer

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Em “Minha Estupidez”, Fernanda Torres procura suprir a “nossa estupidez”

Mauricio Stycer

2014-11-20T16:08:01

14/11/2016 08h01

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Depois de ter mentido por alguns anos, dizendo que havia lido "Viva o Povo Brasileiro", Fernanda Torres encontrou um bom pretexto, em 2008, para enfrentar o catatau de 672 páginas: entrevistar o seu autor, o escritor João Ubaldo Ribeiro, para um novo programa, que ela própria idealizou.

A entrevista, na qual Ubaldo fala com bom humor sobre a sua sólida formação cultural, é a âncora do primeiro episódio de "Minha Estupidez". O programa se completa com a encenação, debochada, de trechos do romance que tratam do apetite do "caboco" Capiroba (Evandro Mesquita), um canibal que fugiu dos jesuítas e voltou a se alimentar com o que mais apreciava – homens e mulheres brancos.

Ainda que tenha resultado muito boa, a entrevista não foi o suficiente para Fernanda Torres conseguir viabilizar o programa. Oito anos se passaram, e João Ubaldo (1941-2014) já havia morrido, quando, finalmente, a produção da Conspiração ganhou sinal verde.

O piloto com Ubaldo vai ao ar nesta segunda-feira, às 23h, no canal pago GNT. Com direção de Mini Kerti, foram realizados mais quatro episódios – com o cientista Antonio Nobre, a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, a ministra do STF Carmem Lucia e o cantor e compositor Caetano Veloso.

Assisti aos primeiros três episódios. No segundo, a alarmante conversa com Nobre, sobre desmatamento e aquecimento do planeta, é acompanhada pela encenação de trecho de "O Inimigo do Povo", do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906). E durante o terceiro, a entrevista com Cunha sobre a difícil situação dos índios brasileiros, é apresentado o mito da origem do homem branco segundo o povo Timbira, da tribo Kanela.

Em um texto enviado para jornalistas, a atriz escreveu sobre "Minha Estupidez": "Eu me valho da minha ignorância, da curiosidade onívora e de uma certa franqueza, que me leva a admitir, em público, que não sei o que é solipsismo, nem quem são Melpomene e Thalia, além de confessar que passei três anos mentindo que havia lido 'Viva o Povo Brasileiro'."

minhaestupidezfernandaevandroA primeira cena de "Minha Estupidez" mostra Fernanda Torres diante de uma pequena estante que herdou do avô. Ela diz: "Esse programa nasceu desta estante aqui, de perceber que, por mais que eu tenha lido e amado os livros que eu li, eles se reduzem a isso aqui. Ou seja, nada perto do que existe pra se ler, se conhecer. Essa estante, de certa maneira, mede o tamanho da minha estupidez."

Ela está sendo, obviamente, modesta. "Minha Estupidez", na verdade, tem o desejo de suprir a "nossa estupidez" com conteúdo de bom nível. Nem sempre o resultado é de fácil consumo e, em alguns momentos, chega a ser maçante. Mas é uma proposta que merece atenção por esta ambição, quase incomum na TV brasileira, de oferecer um tipo entretenimento mais encorpado, sem apelação ou vulgaridade.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.