Topo
Blog do Mauricio Stycer

Blog do Mauricio Stycer

Com superelenco, Filhos da Pátria vê origem da esculhambação geral do país

Mauricio Stycer

19/09/2017 05h01


"Subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos". A reflexão é de Nelson Rodrigues (1912-1980) e surge na tela, como epígrafe, na abertura do primeiro episódio de "Os Filhos da Pátria". Estamos em 8 de setembro de 1822, o dia seguinte ao da Independência, e o que virá a seguir não é nada auspicioso.

Criada por Bruno Mazzeo, a série que a Globo estreia nesta terça-feira (19) descreve a transformação de um burocrata exemplar em um tipo venal, que ajuda a colocar em movimento a engrenagem corrupta da administração pública. Recorrendo ao deboche e ao escracho, o autor transforma esta história trágica num entretenimento da melhor qualidade.

Um elenco de alto nível não deixa a comédia derrapar. Alexandre Nero é Geraldo Bulhosa, o zeloso burocrata que cede aos apelos do dinheiro fácil. Matheus Nachtergaele é Pacheco, o demônio fantasiado de funcionário público, conhecedor de todos os truques para faturar um dinheiro extra às custas do Estado. E Fernanda Torres é Maria Teresa, mulher de Geraldo, tão ambiciosa quanto atabalhoada no esforço de levar uma vida de madame.

Só por estes três, incríveis, "Filhos da Pátria" já vale o esforço de parar diante do aparelho de TV. Mas há mais.

Johnny Massaro é Geraldinho, o filho desocupado, ignorante e abusado do casal Bulhosa. Em um episódio, ele entra de gaiato em uma manifestação política, sem entender nada do que está acontecendo. E diz: "O importante agora é derrubar tudo isso que está aí. E depois a gente vê o que faz com o que sobrar. Primeiramente, fora Pedro!"

A família Bulhosa se completa com Catarina (Lara Tremouroux), a filha mais nova, que se rebela diante do destino de arrumar um bom casamento. Há ainda Lucélia (Jéssica Ellen), a sábia escrava que faz os serviços da casa junto com o também escravo Domingos (Serjão Loroza).

Em meio a desfaçatez e a ignorância geral, os dois são a consciência crítica, dizendo "verdades" com muito bom humor. "Nunca pensou em fazer o seu pé de meia? Comprar a sua alforria?", Lucélia pergunta. "Eu não sou mercadoria. Como é que posso pagar por uma coisa que era pra ser nossa, de graça? Comprar alforria é dar razão ao ladrão", responde Domingos.

As teias da corrupção se espalham por todos os níveis do Império. Padre Toledo (Marcos Caruso) surge em cena sempre mais interessado em dinheiro do que na promoção da palavra de Deus. Em um determinado episódio, o dono do jornal deixa de denunciar a corrupção e passa a defender exatamente o oposto do que sempre apoiou em troca de um saco de moedas. Como diz Luís Fernando Veríssimo, em uma frase citada na série, "o Brasil é governado por uma minoria esmagadora".

A música-tema de "Filhos da Pátria" não poderia ter sido mais bem escolhida, "Quando o Morcego Doar Sangue", de Bezerra da Silva (1927-2005), aquela que diz: "Para tirar meu Brasil dessa baderna / Só quando o morcego doar sangue / E o saci cruzar as pernas".

Melhor rir do que chorar parece ser a mensagem da série, cujos 12 episódios já estão disponíveis no Globo Play.

Siga o blog no Facebook e no Twitter.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

Mais Blog do Maurício Stycer