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Blog do Mauricio Stycer

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“Greg News” volta falando de Bolsonaro e avisa que não vai divertir ninguém

Mauricio Stycer

30/03/2019 01h29

"Make milícia crime again" diz o boné usado por Gregório Duvivier na estreia da 3ª temporada de Greg News

Na abertura da terceira temporada de "Greg News", nesta sexta-feira (29), na HBO, o comediante Gregório Duvivier abriu mão, totalmente, da intenção de fazer o público rir. "Minha função aqui não é divertir ninguém. Isso eu deixo com a Damares (Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos). Afinal, esse governo tem uma ministra do Alívio Cômico", disse.

E, introduzindo o tema principal do programa de estreia, acrescentou: "Porque quando o governo está tentando fazer comédia, a minha função como comediante é lembrar que, por trás dessa diversão toda, ele está colaborando com uma política de extermínio".

Fazendo piada com o slogan da campanha eleitoral de Donald Trump em 2016 ("Make America great again"), o comediante usou por alguns instantes um boné com a inscrição "Make milícia crime again".

Muito do argumento defendido pelo programa girou em torno de uma fala do então deputado federal Jair Bolsonaro, na Câmara, em 2003, em defesa de grupos de extermínio. "Enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, esses grupos de extermínio, no meu entender, são muito bem-vindos. E se não tiver espaço na Bahia, pode ir para o Rio de Janeiro. Se depender de mim, terão todo o apoio, porque no Rio de Janeiro só as pessoas inocentes são dizimadas. Na Bahia, as informações que tenho — lógico que são grupos ilegais, mas meus parabéns — [são a de que] a marginalidade tem decrescido."

O humorista, então, caracterizou o que ele chamou de "ideologia miliciana": "Porque se Bolsonaro defende grupo de extermínio, é porque pra ele não tem nenhum problema uma pessoa ou um grupo cometer um crime, desde que seja em nome de uma ideologia. Que não é exatamente nem de direita, nem patriota, e muito menos liberal, mas uma ideologia miliciana, o 'milicianismo'. Foi a ideologia miliciana que ajudou a eleger Bolsonaro e está ajudando a mantê-lo no poder."

O discurso foi brevemente interrompido pelo alívio cômico: "Tá muito pesado, né? Solta a Damares", pediu o apresentador – e entrou um vídeo da ministra falando de "ditadura gay" no Brasil.

Duvivier prosseguiu, então: "O 'milicianismo' não é sobre controlar o gás e a TV a cabo na zona oeste do Rio. Isso é a milícia. O 'milicianismo' é a defesa do crime com a desculpa de combater o crime. É a defesa do extermínio e da extorsão com a desculpa do combate à violência. É a aniquilação de adversários políticos como uma desculpa para evitar uma ditadura comunista. É o que, na cabeça de muita gente, justifica o assassinato de uma vereadora que defendia uma outra ideia de segurança pública, baseada nas leis, na investigação dessas máfias e em justiça de verdade."

E, após citar os diferentes incidentes políticos da semana, incluindo as discussões de Bolsonaro com Rodrigo Maia, Duvivier acrescentou:

"Na verdade, nada disso é relevante, de fato, se temos no poder alguém que admira milícias, que emprega miliciano, que quer que grupos de extermínio venham para o seu Estado. Governabilidade é o de menos. No fundo, a gente ainda está no primeiro episódio da nossa última temporada, quando falamos do assassinato de Marielle (Franco). Ainda não sabemos quem mandou matar a vereadora, mas sabemos que quem está no Planalto defende a legalização de grupos como o que a matou".

E, em tom fúnebre, encerrou o programa: "É por isso que eu não estou aqui para te divertir. Eu tô aqui para lembrar que, por trás dessa diversão toda que o governo proporciona, ele também está colaborando com uma política de extermínio. Boa noite."

A HBO colocou o episódio no You Tube neste sábado (30):

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.