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Blog do Mauricio Stycer

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Globo se recusa a exibir publicidade da Prefeitura do Rio que a critica

Mauricio Stycer

11/06/2019 16h06

Publicidade do Rio ironiza o papel da Globo na comercialização dos desfiles de Carnaval

Em campanha publicitária que começou a ser veiculada em emissoras de TV no Rio, a prefeitura da cidade questiona a lógica dos gastos de carnaval. "O enredo é fácil de entender, a conta é que é difícil de engolir". A campanha está sendo criticada pela oposição a Marcelo Crivella (PRB). E se transformou em um novo capítulo da briga do prefeito com a Globo.

O comercial (veja abaixo) diz que o desfile das escolas de samba custa para os cofres do município R$ 70 milhões. Também fala que a Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) "ganha milhões" com a comercialização de ingressos e espaços. E afirma que a Globo "vende o patrocínio, comercializando várias cotas milionárias".

A publicidade ironiza: "E nessa história de milhões pra lá e nunca pra cá, quem paga a conta do carnaval é a Prefeitura." E encerra dizendo que "o carnaval do Rio precisa viver do patrocínio privado, não dos recursos da Prefeitura. Porque ela tem 100 mil aposentados, 100 mil funcionários para pagar e 650 mil crianças na escola para cuidar".

A Globo foi incluída no plano de mídia da campanha, junto com Record, SBT, Band e RedeTV!, mas se recusou a exibir a publicidade. "A TV Globo não vai veicular o filme citado da forma como foi recebido. A emissora não está recusando a veiculação de uma campanha da Prefeitura do Rio sobre o carnaval, mas a veiculação de um comercial que faz incorreta imputação à Globo", diz a emissora em nota enviada ao blog.

"Ao contrário do que afirma o filme em questão (veja abaixo), a Globo não vende patrocínio do carnaval, que é um evento das escolas de samba. A Globo vende cotas de suas transmissões, cujos direitos compra por valores significativos. O filme em questão faz parecer que a Globo se beneficia dos valores repassados pela prefeitura às escolas de samba, o que não é verdade".

E a emissora acrescenta: "A Globo zela, junto a todo e qualquer anunciante e agência, pelo livre acesso do público à informação comercial ética, honesta, verdadeira e precisa, e, como esclareceu à agência, veiculará o filme caso a Prefeitura do Rio decida adequá-lo a esses princípios."

Daniel Pereira, secretário de Comunicação da Prefeitura, diz que o objetivo da campanha é esclarecer que o interesse do prefeito Marcelo Crivella em reduzir os gastos públicos com o carnaval "não tem motivação religiosa". Segundo o secretário, "trata-se de política de investimento do município".

Vários aspectos da campanha são questionados pela oposição a Crivella na Câmara de Vereadores. O vereador Tarcísio Motta (PSOL) afirma ser "uma mentira enorme" a informação de que a Prefeitura gasta R$ 70 milhões com o desfile das escolas de samba. "R$ 70 milhões é o custo total do Carnaval em toda a cidade do Rio de Janeiro".

Motta argumenta, ainda, que estão embutidos nestes R$ 70 milhões gastos com manutenção da cidade (Guarda Municipal, CET, Comlurb, etc). Também se questiona quanto deste total, efetivamente, sai dos cofres da Prefeitura. Em 2019, por exemplo, cerca da metade do valor foi obtido por meio de patrocínios da Dream Factory (agência do grupo Artplan) e da Light.

A Prefeitura deu este ano R$ 500 mil a cada escola do grupo especial, um total de R$ 3,5 milhões. No último ano da gestão de Eduardo Paes à frente da cidade, cada escola recebeu R$ 2 milhões. Ao assumir, Crivella reduziu o valor, inicialmente, para R$ 1 milhão por escola, afirmando que era o mesmo que o ex-prefeito deu nos anos anteriores. O corte mais drástico este ano foi atribuído ao cancelamento de um patrocínio da Uber.

Pereira não revela o gasto com esta campanha específica. Segundo ele, a Prefeitura tem verba de R$ 56 milhões para investir em publicidade em 2019, mas deve gastar efetivamente, diz, cerca de R$ 30 milhões. Segundo o jornalista Ruben Berta, a agência Propeg, responsável pela campanha sobre o Carnaval, já recebeu este ano R$ 3,6 milhões da Prefeitura.

Reportagem de Luiz Ernesto Magalhães publicada em "O Globo" em março mostrou que os gastos efetivos com o Carnaval caíram de R$ 70 milhões para R$ 30 milhões entre 2017 e 2019. Mas, apesar disso, não houve compensação para as áreas de saúde e educação. Ao contrário, os investimentos de infra-estrutura nestas duas áreas também caíram no período.

Na nota que enviou ao blog, a Globo também afirma que considera estar fazendo a sua parte em relação ao Carnaval: "A emissora explora na sua programação um conteúdo que adquiriu, pagando um alto valor. A Globo acredita que, além de uma grande festa, que preserva as tradições da cidade e divulga a cultura popular, o carnaval é um importante gerador de receitas para o Rio de Janeiro. Por isso, historicamente, faz altos investimentos tanto na aquisição dos direitos, quanto na promoção do evento, em sua transmissão e numa ampla cobertura, que promove a cidade, aqui e no exterior, estimulando o turismo, a geração de empregos temporários e a economia local. Nessa grande festa da cultura popular brasileira, a Globo acredita que todos os envolvidos devem fazer a sua parte. A Globo tem feito a sua."

Veja o anúncio da Prefeitura do Rio:

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.