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Em escalada retórica agressiva, Crivella deturpa reportagem da Globo

Mauricio Stycer

12/09/2019 15h39

Susana Naspolini exibe um caderno com erros de português; era um "exemplo hipotético", explicou a Globo

Em mais um episódio da guerra que declarou contra a Globo, o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, aproveitou uma reportagem mal-feita do telejornal "RJ 1" para acusar a emissora de "farsa". Em resposta, a Globo disse que o prefeito deturpou intencionalmente um vídeo para atacar a emissora.

E a Globo tem razão. A má intenção da prefeitura fica explícita ao se assistir com atenção a reportagem que gerou a acusação, exibida no último dia 6. Trata-se de um episódio do quadro "RJ Móvel", no qual a repórter Susana Naspolini apresenta problemas urbanos. Em uma escola municipal no bairro de Parada de Lucas, a repórter está na companhia de alguns moradores e diz:

"Já que o assunto é escola, vamos pensar todo mundo junto aqui. Por exemplo. Aqui (abre um caderno). O aluno faz essa redação e entrega pra professora. Estão vendo aqui? 'Caza' com zê, 'felis' com esse, 'excola' com xis. Ele entregou. Está aqui. Que nota ele ganha, professora?"

Um homem, não identificado, responde: "Três, três e meio. Corre o risco de repetir de ano". E acrescenta: "Teve a intenção de fazer, mas não fez bem feito". Susana, então, dirigindo-se à apresentadora Mariana Gross, diz: "Quando nós chegamos aqui hoje, Mariana, foi o que eles falaram do serviço da prefeitura. O que vocês falaram?". E o mesmo entrevistado diz: "Não foi bem feito".

Susana, então, discorre sobre os problemas na reforma da escola: "Primeiro, falaram que iam fazer a calçada. Olha o estado da calçada. Passaram longe". Ela mostra outro trecho da calçada, refeito. E o mesmo entrevistado reclama: "Tá crescendo capim e tá escorregando. Isso aqui não é o material apropriado." A reportagem pode ser vista aqui.

É verdade que quem assiste ao início da reportagem sem prestar a devida atenção pode até se confundir e achar que ela está misturando deficiências de ensino e problemas de infra-estrutura. A encenação da repórter ("exemplo hipotético", nas palavras da Globo) para expor a má qualidade da reforma da escola não foi bem-feita. Mas basta rever a matéria com calma para entender claramente do que se trata.

Por isso, é possível afirmar que houve intenção da Prefeitura em distorcer o sentido do trabalho. No vídeo que Crivella divulgou, intitulado "A Farsa da Globo" (veja aqui), argumenta-se que o objetivo da reportagem foi humilhar os alunos: "A reportagem tentou denegrir o ensino público, mas acabou ridicularizando quem mal sabe se defender".

Filmado na própria escola, com música melodramática e depoimentos de mães de alunos, o vídeo inclui a imagem de uma turma com crianças gritando: "Globo, esse caderno não é nosso!"

Na edição desta quinta-feira (11) do "RJ 1", Mariana Gross leu: "A Prefeitura do Rio divulgou um vídeo deturpando o que a Susana disse. A gente lamenta a atitude do prefeito Marcelo Crivella, que editou frases da matéria com a clara e condenável intenção de jogar as crianças contra a repórter." Um esclarecimento que tivesse sido feito no dia seguinte à exibição da reportagem poderia ter evitado o problema.

O ataque do prefeito contra a Globo ocorre menos de uma semana depois de Crivella tentar censurar uma HQ na Bienal do Livro do Rio por exibir um desenho de dois personagens se beijando. O seu gesto, pensado, mirou o eleitor conservador.

A briga de Crivella com a Globo é antiga. O prefeito já acusou a emissora de chantagem, anunciou uma sindicância para investigar a Fundação Roberto Marinho e ironizou o canal ao decidir reduzir as verbas municipais destinadas ao Carnaval.

A divulgação deste vídeo sobre a reportagem do "RJ 1" integra o pacote, mas num tom mais elevado, uma vez que claramente não ocorreu o que o prefeito diz no vídeo.

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Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.