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Fátima provoca catarse com fala da mãe de Ághata, mas isso é função da TV?

Mauricio Stycer

24/09/2019 17h22

Fátima Bernardes ouve o depoimento de Vanessa e Adegilson, pais da menina Ághata

Esta terça-feira (24) foi dia de chorar no "Encontro com Fátima Bernardes". Com exclusividade, o programa trouxe os pais da menina Ághata, assassinada com um tiro de fuzil no Rio, e exibiu um depoimento emocionado e emocionante dos dois.

Por 27 minutos, ao vivo, Vanessa e Adegilson extravasaram a dor pela morte da filha. A mãe falou mais longamente que o pai. De olhos fechados, segurando uma boneca, ela narrou a tragédia no presente, como se estivesse vivendo a situação naquele momento: "Ela levou um tiro! Ela levou um tiro!" Um pouco mais calma, acrescentou: "Eu preciso falar, eu tenho que ter forças para falar, por ela".

O pai, inicialmente, apenas observou que não poderia dizer nada. Chorando, balbuciou: "Não tenho nem o que falar, não tenho forças". Ao final, um pouco mais calmo, fez um raro comentário de tonalidade política: "Governador, muda essa política, muda essa política de atirar. Muda. O que aconteceu com minha filha pode acontecer com a família de outras pessoas também".

Antes de começar o programa, Fátima deve ter intuído o que iria acontecer. Pois abriu o "Encontro" justificando a presença do casal. "A gente não quer que a morte de inocentes se transforme apenas em números, em estatísticas, que estas pessoas não tenham rosto, não tenham fala, não tenham as suas histórias de alguma forma preservadas."

Mais para o final, a apresentadora procurou justificar a catarse que ajudou a provocar. Dirigindo-se ao psiquiatra Jairo Bauer, ela disse: "Jairo, é muito difícil ver um depoimento como esse, né? Porque é uma torrente tão grande de emoção e a gente não deve, também, tentar frear isso, né?"

Ela ainda acrescentou: "De alguma maneira, eles, como pais, não devem se culpar. Ela ficava pedindo força, mas tem momentos em que essa força não vem mesmo. A situação é muito limite, é de muito desespero mesmo. E tem que se respeitar esse momento".

Bauer respondeu: "Não dá pra gente não passar por esta dor. É muito forte mesmo. E vocês têm que colocar pra fora mesmo. É falar, é trazer essa emoção pra fora mesmo. É magoa, é raiva, é tristeza e a gente tem que falar disso mesmo. Acho muito importante que vocês estejam aqui hoje, no meio de toda essa dificuldade, pra gente ver o quão difícil é isso. O quão difícil está a vida nas comunidades, o quão difícil é essa realidade".

Acho que Fátima deixou no ar justamente uma questão importante: por que ela não deveria tentar frear a emoção do casal? Trata-se de um programa de auditório ou um consultório de terapia? A televisão é o lugar para isso?

Não tenho dúvidas de que os pais de Ághata transmitiram sentimentos profundos e verdadeiros no programa, atraindo ainda mais solidariedade para eles. Mas também há quem preferisse ouvir Fátima debater com sobriedade o que aconteceu e tenha se incomodado com o excesso de drama exibido.

Os quase 30 minutos me pareceram um exagero. Vanessa falou, inicialmente, por oito minutos sem ser interrompida por Fátima. Concordo que bons apresentadores sabem ouvir, mas Fátima poderia ter dado outro ritmo à cena. Ao deixar os pais de Ághata derramarem tanta emoção no ar, imagino que a comandante do "Encontro" também levou em conta os ganhos em audiência que teria.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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