Novela dos anos 70 já trazia empregadas domésticas como protagonistas
A novela Cheias de Charme põe os dramas de três domésticas em pauta: Maria da Penha (Taís Araújo), Maria do Rosário (Leandra Leal) e Maria Aparecida (Isabelle Drummond). A trama – bem conduzida por Filipe Miguez e Izabel de Oliveira – é uma fábula moderna sobre três mulheres simples e batalhadoras que sonham com uma vida melhor, premissa criada para uma rápida identificação do público – o que, parece, tem surtido efeito, já que a audiência da atração vai bem.
Em novelas, raramente as empregadas tiveram dramas próprios que conduzissem uma história. Servir à mesa ou bajular patrões sempre foi delegado a personagens secundários – ainda que alguns tivessem obtido algum destaque dentro dos núcleos de seus patrões, como a empregada Marilda, vivida recentemente por Kátia Moraes na novela Fina Estampa.
O novelista Manoel Carlos será sempre lembrado por suas Helenas e pelas empregadas de suas novelas, cheias de diálogos, que tinham intimidade com seus patrões e se envolviam em seus dramas, dando pitaco ou oferecendo o ombro amigo. Vale ressaltar também que as atrizes Ilva Niño e Chica Xavier foram as que mais viveram empregadas domésticas na televisão, desde a década de 1970.
Domésticas já foram protagonistas anteriormente. A novela Sem Lenço Sem Documento – trama das sete horas que Mário Prata escreveu para a Globo entre 1977 e 1978, dirigida por Régis Cardoso e Denis Carvalho – tinha um forte núcleo de quatro irmãs pernambucanas que migraram para o Rio de Janeiro onde passaram a trabalhar como domésticas. As irmãs eram diferentes entre si, cada uma com sua trama.
Graça (Isabel Ribeiro), a única casada, dividia o serviço na casa da patroa com seus dramas familiares. Cotinha (Ilva Niño), a mais velha, morava na casa dos patrões, onde trabalhava há anos e era considerada um membro da família. Cotinha era apaixonada pela voz de um locutor de rádio. Dorzinha (Arlete Salles) era a sonhadora, lia fotonovelas e imaginava-se protagonizando uma. E Rosário (Ana Maria Braga – não a apresentadora, mas a atriz, irmã de Sônia Braga e mãe de Alice Braga), a mais jovem, estava chegando ao Rio quando a novela começou, para fechar seu destino com o das irmãs.
A abertura apresentava uma fotonovela em que os créditos do elenco vinham dentro dos balões de diálogo (muito parecida com a abertura da novela Uga Uga). Pejorativamente – e referenciando a personagem de Arlete Salles – acreditava-se na época que as revistas de fotonovelas eram a leitura preferida das empregadas domésticas. Sem Lenço Sem Documento tinha outras histórias também, com destaque para os núcleos de Marco (Ney Latorraca) e Bilé (Ivan Setta) e das irmãs modelos Carla (Bruna Lombardi estreando como atriz) e Berta (Ana Helena).
Sem Lenço Sem Documento reverteu o padrão folhetinesco de então, desmerecendo uma história romântica com herói-mocinha-vilão para centrar-se nos dramas de gente comum. Mas pagou caro: a novela não fez sucesso na época.
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