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Blog do Nilson Xavier

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Relembre casos de atores substituídos durante as novelas, como Drica Moraes

Nilson Xavier

06/12/2014 11h38

Marjorie Estiano e Drica Moraes em

Marjorie Estiano e Drica Moraes em "Império" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Por ser uma obra aberta, que vai se desenvolvendo conforme os acontecimentos, toda novela, durante o seu percurso, está sujeita a acidentes pelo caminho. O afastamento de um ator, que vive um dos principais papeis na trama, pode ser traumático para a produção. O novelista vai precisar de muito jogo de cintura para driblar uma situação como essa. Quanto mais dependente do personagem está a novela, mais difícil para o autor, já que isso pode comprometer sua história.

A Globo oficializou, nesta sexta-feira (05/12), o afastamento de Drica Moraes de "Império", por motivos de saúde (AQUI matéria completa na coluna de Flávio Ricco). Coube a Aguinaldo Silva descascar este abacaxi. Sua solução foi das mais inusitadas: Marjorie Estiano, que viveu Cora jovem, substitui Drica. Motivo? Cora faz uma cirurgia plástica e rejuvenesce! Estranho? Não! Em nossa Teledramaturgia, isso já aconteceu. Bastante!

No início da novela "Transas e Caretas" (1984), a personagem de Eva Wilma (a atriz foi envelhecida para viver uma velha senhora), fez uma plástica e reapareceu vinte anos mais nova – no caso, a própria atriz com a idade que tinha na época. O que dizer de "Brega e Chique" (1987), em que o personagem de Jorge Dória dava um golpe envolvendo muito dinheiro e ressurgia com outra identidade, após uma plástica, no corpo de… Raul Cortez! O próprio Aguinaldo Silva já se valeu deste recurso anteriormente: em "Duas Caras" (2007-2008), Adalberto Rangel, para fugir da polícia, passa por uma cirurgia e ressurge sob nova identidade: Marcone Ferraço – ambos Dalton Vigh.

A seguir vários outros casos!

Laura Cardoso se ausentou de "Gutierritos, o Drama dos Humildes" (Tupi, 1964/1965) por problemas de saúde e foi substituída por Wanda Kosmo. Assustada com a repercussão negativa de sua personagem (uma vilã) em "A Pequena Karen" (Excelsior, 1966), a atriz Tereza Rachel pediu para ser afastada da novela, sendo substituída por Lídia Costa. A própria atriz Lídia Costa iria, novamente, entrar no meio de uma trama em substituição a outra atriz. Foi em "As Minas de Prata" (Excelsior, 1966/1967), no lugar de Glória Menezes, que fora realocada para a nova produção da emissora: "O Grande Segredo".

Durante a novela "Passo dos Ventos" (Globo, 1968), o ator Mário Lago foi preso por motivos políticos. Seu personagem era importante na trama, e não se podia aguardar pelo retorno do ator. Para dar continuidade à novela, o próprio diretor, Régis Cardoso, substituiu Mário Lago – aparecendo de costas!

E o que dizer deste caso! Durante a novela "A Gata de Vison" (Globo, 1968/1969), a autora Glória Magadan apaixonou-se pelo ator Geraldo Del Rey (trinta anos mais jovem), que vivia o vilão da trama. Tarcísio Meira era o mocinho da história e seu personagem foi perdendo importância para o vilão. Descontente com os rumos de seu personagem, Tarcísio deu um ultimato à produção: "Ou grava a minha morte essa semana, ou meu personagem pega o próximo trem e não volta!" Magadan não teve dúvida: o capítulo terminou com Tarcísio entrando num trem e, no capítulo seguinte, é o ator Milton Rodrigues quem está em seu lugar, vivendo o mesmo personagem!

"Dez Vidas" (1969) foi o último trabalho de Regina Duarte na TV Excelsior. Ela deixou a novela logo no início, descontente com os salários atrasados da emissora. Foi então substituída na novela por Leila Diniz. Regina foi para a Globo atuar em "Véu de Noiva". Nesta novela, aconteceu outra substituição: a atriz Mirian Pires entrou no lugar de Mary Daniel na interpretação da personagem Mariana.

Geórgia Gomide vivia uma das protagonistas de "As Pupilas do Senhor Reitor" (Record, 1970/1971), mas deixou a novela em seu terceiro mês de exibição, sendo substituída por Maria Estela. Na mesma novela, aconteceu outra troca: Lucy Meirelles por Célia Rodrigues. Já a atriz Márcia Maria fazia uma participação em "A Viagem" (Tupi, 1975/1976) mas ficou doente sendo substituída por Kate Hansen. No capítulo em que Kate aparece pela primeira vez, o diretor Carlos Zara narrou o motivo da mudança de atriz.

A atriz Maria Ferreira, em "O Meu Pé de Laranja Lima" (Bandeirantes, 1980/1981), deixou a novela pela metade, sendo substituída por Ivanice Sena. Pela mesma época, na mesma emissora, o ator Oscar Felipe faleceu enquanto participava da novela "A Deusa Vencida". Foi substituído por Felipe Levy.

Sérgio Cardoso foi substituído por Leonardo Villar em

Sérgio Cardoso foi substituído por Leonardo Villar em "O Primeiro Amor". E Jorge Dória se transformou em Raul Cortez em "Brega e Chique" (Fotos: Internet)

Djenane Machado viveu Bebel no primeiro ano do seriado "A Grande Família" (a primeira versão, dos anos 70), mas não quis continuar no programa. Foi então substituída, de um episódio para outro, por Maria Cristina Nunes. Durante esse episódio, a única alusão à substituição foi a fala irônica de um personagem que achou Bebel "um pouco diferente".

Na minissérie "O Quinto dos Infernos" (Globo, 2002), o ator Ewerton de Castro chegou a gravar cenas que foram ao ar, mas pediu demissão da Globo por não concordar com o andamento de seu personagem. Foi substituído por Flávio Galvão. O seriado humorístico "Meu Cunhado", do SBT, foi gravado em 2003, mas só foi ao ar um ano depois. Guilhermina Guinle foi substituída a partir do vigésimo episódio pela colega Luiza Thiré, porque foi fazer a novela "Mulheres Apaixonadas", na Globo. Para justificar a troca de atrizes, a personagem Simone passa por uma cirurgia plástica que se desdobra por cerca de três episódios.

Em "O Clone" (2001-2002), Débora Falabella ficou doente e sua irmã, Cíntia, também atriz e parecida com ela, entrou em seu lugar por alguns capítulos. E, mais recentemente, no seriado humorístico "Pé na Cova" (2014), o autor, Miguel Falabella, promoveu a substituição de Karin Hills por Mary Sheila, nos dois últimos episódios, já que Karin saiu para estrelar sua nova atração, "Sexo e as Negas".

Um dos casos mais traumáticos aconteceu na novela "O Primeiro Amor", da Globo, em 1972, por conta do falecimento de Sérgio Cardoso, que vivia o protagonista da trama. Faltavam apenas 28 capítulos para a novela terminar. O ator foi substituído por Leonardo Villar. A troca foi feita com todo o elenco reunido no estúdio. Sérgio Cardoso aparecia saindo por uma porta em sua última aparição na novela. Depois, com a cena congelada no vídeo, um texto lido por Paulo José explicava o que acontecera e relembrava a trajetória do ator. Por fim, batia-se à porta e, quando a cena recomeçava, entrava Leonardo Villar, sendo recebido pelo elenco.

Outro caso de substituição por morte aconteceu na minissérie "O Sorriso do Lagarto", em 1991. Chiquinho Brandão havia gravado cerca de vinte capítulos quando morreu num acidente automobilístico. Para ocupar o seu lugar, os roteiristas providenciaram um primo do personagem, que foi vivido por Stepan Nercessian.

Fonte: meu livro "Almanaque da Telenovela Brasileira" (Panda Books)

Troca de atores é bastante comum no universo ficcional de entretenimento. Várias séries americanas já passaram por situações assim. Em novelas importadas, que costumam ter menor compromisso com a realidade, isso é até bastante corriqueiro. Independentemente das razões do afastamento, a substituição do ator pode movimentar a trama. Ou, pelo menos, gerar curiosidade no público, o que sempre ajuda na audiência – o tal "buzz" (burburinho).

Sobre o autor

Nilson Xavier é catarinense e mora em São Paulo. Desde pequeno, um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: em 2000 lançou o site Teledramaturgia (http://www.teledramaturgia.com.br/), cujo sucesso o levou a publicar o Almanaque da Telenovela Brasileira, em 2007.

Sobre o blog

Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.