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Blog do Nilson Xavier

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“Rock Story” teria sido "redondinha" se tivesse menos capítulos

Nilson Xavier

05/06/2017 20h23

Rafael Vitti, Alinne Moraes e Vladimir Brichta (Foto: divulgação/TV Globo)

Originalidade

"Rock Story" – a novela das sete que terminou nessa segunda, 05/06 – não inovou nada, tampouco reinventou a roda. Pelo contrário, como toda e qualquer novela, apropriou-se amplamente dos esgarçados clichês do folhetim. Só que a forma original com a qual eles foram trabalhados fizeram soar como novidade nesses tempos de recursos fáceis para conquistar audiência.

Tramas musicais, o SBT já faz há anos. "Cheias de Charme" (2012) é a prima mais próxima de "Rock Story" na Globo. A originalidade nessa abordagem esteve no protagonista Gui Santiago (Vladimir Brichta), roqueiro decadente, briguento, ansioso e errado. A novela começou quebrando o maniqueísmo dos mocinhos virtuosos. Ao longo da trama, Gui cresceu com sua banda e cresceu internamente, o que o fez controlar o seu lado negro, inerente a todo ser humano.

Ao mesmo tempo em que mostrou a ascensão e a dificuldade de uma banda iniciante no cenário da música (como "Cheias de Charme" e toda novela musical), "Rock Story" propôs as dificuldades de um músico decadente que acaba optando por outros caminhos para continuar vivendo de música (no caso, lançou e agenciou uma banda nova, a 4.4).

Ana Beatriz Nogueira com Rafael Vitti e Marina Moschen (Foto: divulgação/TV Globo)

Dinamismo – foi a maior qualidade de "Rock Story". A autora, Maria Helena Nascimento, não poupou trama. As situações se resolviam rapidamente para darem lugar a outras, e assim sucessivamente. Mesmo com a notória perda de fôlego na reta final (a novela teria terminado redondinha se tivesse menos capítulos), "Rock Story" não cansou e nem sofreu da indesejável barriga que geralmente acomete toda novela.

Os recursos dramáticos usados pela autora oscilaram entre os originais (e até ousados) e os clichês batidos. Dois exemplos positivos. Os jovens casaizinhos românticos, alicerces de toda novela, demoraram para aparecer. O primeiro shipping (torcida por casal) só aconteceu lá pela na metade da trama: Zac e Yasmin (Nicolas Prattes e Marina Moschen). Outro: a gêmea má, que geralmente carrega a história nas costas, era menos importante, tanto que não gerou empatia com o público e (desde a sinopse) morreu bem antes do final.

Dois exemplos negativos. Diana (Alinne Moraes) era uma das personagens mais ricas da novela, até o momento em que abandonou Léo Régis (Rafael Vitti) no altar. Após isso, entrou em um processo de múltiplas personalidades para justificar o roteiro. Ficou boa, ficou má, surtou, inventou gravidez, uniu-se ao vilão para, no final, de uma hora para outra, emanar uma lucidez que nunca havia apresentado. Percorreu um caminho torto de acordo com a necessidade da trama – diferente de Léo Régis, que passou por algumas fases evoluindo de forma coerente.

Também a personagem Nanda (Kizi Vaz), que enlouqueceu subitamente apenas para render uma historinha dentro da novela. Ainda que muito boa: Eva (Alexandra Richter) separou-se de Gordo (Herson Capri) por uma armação de Nanda e não conseguia explicar-se porque estava presa a uma situação profissional com a ela. Entrecho ótimo, mas que sacrificou a personagem Nanda, banida da novela quando essa trama terminou.

São cartas na manga que todo roteirista faz uso para engordar a novela. Por isso mencionei acima que "Rock Story" teria sido redondinha se tivesse menos capítulos.

(Foto: Felipe Monteiro/TV Globo)

Personagens cativantes e divertidos

Outro grande trunfo foi o elenco bem escalado e a condução competente de Dennis Carvalho, Maria de Médicis e equipe. E uma galeria de tipos cativantes, divertidos e adoráveis: Gui (Vladimir Brichta), Júlia (Nathalia Dill), Diana (Alinne Moraes), Lázaro (João Vicente de Castro), Marisa (Julia Rabello), Léo Régis (Rafael Vitti), Dona Néia (Ana Beatriz Nogueira), Ramon (Gabriel Louchard).

Também os casais Zac e Yasmin (Nicolas Prattes e Marina Moschen), Gordo e Eva (Herson Capri e Alexandra Richter), Haroldo e Gilda (Paulo Betti e Suzy Rêgo) e Nelson e Edith (Thelmo Fernandes e Viviane Araújo). E os bandidos atrapalhados Romildo e William (Paulo Verlings e Leandro Daniel) – que cresceram tanto ao longo da trama que mereciam continuar fora da novela, em um spin-off – como um seriado só com eles, por exemplo.

Detalhe: o final do último capítulo – o elenco cantando com Milton Nascimento – foi um dos momentos mais bonitos de nossa teledramaturgia!

Leia também:
"Contamos uma excelente história com personalidade e charme", diz a diretora Maria de Médicis;
"Não dá mais para enrolar em novela", diz diretor Dennis Carvalho;
Autora revê os muitos acertos e o golpe baixo que cometeu em "Rock Story".
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Sobre o autor

Nilson Xavier é catarinense e mora em São Paulo. Desde pequeno, um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: em 2000 lançou o site Teledramaturgia (http://www.teledramaturgia.com.br/), cujo sucesso o levou a publicar o Almanaque da Telenovela Brasileira, em 2007.

Sobre o blog

Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.

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