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80 anos de Lauro César Muniz; relembre a carreira e polêmicas do novelista

Nilson Xavier

16/01/2018 16h28

Um dos maiores dramaturgos deste país, Lauro César Muniz completou 80 anos no dia 16 de janeiro. Sua carreira, no teatro, cinema ou televisão, é pontuada de grandes sucessos, hoje reconhecidos como clássicos da dramaturgia. E também de algumas polêmicas, ora levantadas em sua obra, ora por suas ações ou falas. Inquieto, contestador, inovador, não é à toa que sua biografia se chama "Lauro César Muniz Solta o Verbo" (Hersch W. Basbaum, Imprensa Oficial do Estado de SP). Na dedicatória que me deu no livro "A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo" (André Bernardo e Cíntia Lopes, Panda Books), ele escreveu "abraço do bom rebelde".

Há cinco anos fora da TV, sem contrato com nenhuma emissora, Lauro tem engavetados projetos sobre as obras do maestro Carlos Gomes e do poeta Castro Alves. Defensor de novelas mais curtas, levantou bandeira por esse modelo. Lauro nunca deixou de interceder por inovações narrativas na televisão. Antes de "Beto Rockfeller" (1968, novela de Bráulio Pedroso que deu início à modernização da teledramaturgia brasileira) ele escreveu "Ninguém Crê em Mim", uma tentativa de mudar a estrutura da linguagem da telenovela. Ninguém creu nele naquele momento e a novela foi um fracasso.

Paulo Gracindo e Yara Côrtes em "O Casarão"

Em 1976, com "O Casarão" – um clássico da TV -, Lauro quebrou a narrativa linear ao contar uma história em três épocas diferentes ao mesmo tempo. Em 1977, com "Espelho Mágico", desvendou para o público o dia a dia do mundo artístico, quebrando a fantasia e derrubando o mito de que atores são seres perfeitos e inatingíveis. Em 1979, em "Os Gigantes", desenhou um ataque às multinacionais que incomodou os anunciantes – por este e outros motivos, acabou demitido da Globo naquela ocasião.

Com "O Salvador da Pátria", em 1989, foi acusado de fazer apologia à candidatura de Lula à presidência da República: "Em 1989, já não havia mais a censura formal, mas houve uma interferência direta de Brasília na cúpula da Globo. Era o primeiro ano de eleições diretas, Lula contra Collor, e acharam que o Sassá Mutema [Lima Duarte] fazia apologia à esquerda. Assim, acabou vindo uma pressão na emissora para que a trama fosse mudada. Cheguei a ouvir, nos bastidores, 'o autor dessa novela vai eleger o presidente do Brasil'", declarou Lauro para a Folha de São Paulo (em maio de 2002).

Lima Duarte em "O Salvador da Pátria"

Sua saída da Globo, no início da década de 2000, causou balbúrdia. Assim como sua saída da Record. Se na Globo, Lauro estava incomodado com o frio da geladeira a que foi submetido, na Record ele acabou chamuscado pela crise por qual passava a dramaturgia da emissora. Foi bem sucedido com "Poder Paralelo" (2009-2010), mas divergências entre ele e Flávio Colatrello durante a novela "Cidadão Brasileiro" (2006) causaram o desligamento do diretor geral.

"Máscaras", em 2012, afastou o público. Mudanças constantes de horário, descontentamento de alguns atores do elenco e a troca do diretor resultaram em encurtamento da novela. Parte do elenco divulgou na internet uma "carta de amor a Máscaras", em que culpava a mídia pela repercussão negativa da novela. O último capítulo foi encerrado com um depoimento de Paloma Duarte, enaltecendo o trabalho da equipe, enquanto entrava nos estúdios para gravar sua última cena. Lauro saiu da Record e não mais voltou.

Lauro César Muniz nasceu em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, em 16 de janeiro de 1938. Sua carreira começou no teatro quando, em 1959, venceu dois concursos de teatro amador com o texto "Este Ovo é um Galo". Ganhou projeção nacional com a comédia "O Santo Milagroso", encenada em 1963 e levada ao cinema três anos depois. Sua estreia como telenovelista ocorreu em 1966, na TV Excelsior, com "Ninguém Crê em Mim". O impulso em sua carreira na TV aconteceu na Record em 1970, quando fez a adaptação de "As Pupilas do Senhor Reitor" e ao escrever "Os Deuses Estão Mortos" (1971).

Zanoni Ferrite e Tarcísio Meira em "Escalada"

Sua estréia na Globo foi em 1972, substituindo Bráulio Pedroso no texto de "O Bofe". No ano seguinte escrevia sua primeira novela solo na casa: a romântica "Carinhoso". Mas seu grande momento foi com a excelente "Escalada" em 1975. Entre 1976 e 1977, escreveu "O Casarão" e "Espelho Mágico". Em 1979 assistiu o contraste do sucesso de sua peça "Sinal de Vida" com a pouca aceitação da novela "Os Gigantes". Voltou a fazer sucesso em 1986 com "Roda de Fogo", e em 1989 com "O Salvador da Pátria". Seu maior êxito na década de 1990 foi a minissérie "Chiquinha Gonzaga" (1999).

Parabéns Lauro, o "bom rebelde"! Pelo talento e genialidade e pelo caráter e bravura em deixar claro abertamente suas opiniões, assumindo erros, apontando defeitos e sinalizando caminhos.

Para ler: "Lauro César Muniz Solta o Verbo" (Hersch W. Basbaum, Imprensa Oficial do Estado de SP);
"Obras Completas de Lauro César Muniz" (todos os seus textos para teatro, Giostri Editora).

Fotos: divulgação, por suas respectivas emissoras.
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nilson Xavier é catarinense e mora em São Paulo. Desde pequeno, um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: em 2000 lançou o site Teledramaturgia (http://www.teledramaturgia.com.br/), cujo sucesso o levou a publicar o Almanaque da Telenovela Brasileira, em 2007.

Sobre o blog

Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.

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