Topo

Bissexualidade ou novela reforça cura gay e ideal de família tradicional?

Nilson Xavier

26/08/2018 11h40

Armando Babaioff e Nanda Costa (foto: reprodução)

Novela "Segundo Sol". Personagens: Selma (Carol Fazu) + Maura (Nanda Costa) | Ionan (Armando Babaioff) + Doralice (Roberta Rodrigues)

Selma era casada, mas traía o marido com Maura, que, por sua vez, foi apresentada desde o início como lésbica. Com a morte do marido, Selma assumiu o romance com Maura. As duas foram viver juntas e resolveram ter um filho por inseminação artificial. O doador do sêmen é Ionan, colega de trabalho de Maura. Ele, por sua vez, tem um casamento atribulado com Doralice, por causa do ciúme dela.

Ionan envolve-se cada vez mais com Maura, criando emoções com o bebê que está por vir. A novela vai, aos poucos, formando um casal bonito para conquistar o público, enquanto Selma passa a ser apresentada como uma cônjuge chata e possessiva, como Doralice já era. Está claro no roteiro um direcionamento para o público torcer por Maura e Ionan. Os atores têm química.

Maura e Ionan acabaram se beijando no capítulo de sábado (25/08). Selma, que traía o marido com uma mulher, agora é traída pela esposa, com um homem.

Carol Fazu e Nanda Costa (divulgação)

O autor João Emanuel Carneiro mexe em um campo minado. Não há problema em Maura ser bissexual – não tivesse a personagem desde o início sido apresentada como lésbica. Porém, não há problema em uma lésbica se descobrir atraída (sexualmente ou romanticamente) por um homem – não tivesse a trama de Maura se enveredado por questões delicadas para gays e lésbicas, como se assumir perante a família e enfrentar o preconceito – tendo sido Maura, inclusive, expulsa de casa pelo pai homofóbico com o asqueroso discurso machista do "falta um homem para te mostrar o que é bom".

Há de se levar em consideração a verossimilhança: toda a trama descrita acima é crível e acontece na vida real. E há de se manter a liberdade criativa: por a novela ser uma obra de ficção e pelo direito do autor de expressar-se como lhe aprouver. Porém, existe a questão da responsabilidade social, que está no DNA de toda telenovela brasileira, pelo seu alcance e poder de influência e, assim, por servir de espelho para a sociedade.

Essa trama ainda está em construção. Contudo, até aqui, com a romantização de Ionan, Maura e um bebê, a novela vem reforçando o ideal de família "homem + mulher" e a ideia de "cura gay". O pior é dar razão ao pai homofóbico de Maura e endossar seu discurso machista e preconceituoso. Vou repetir minha crítica à cura gay que se desenrolava na novela anterior, "O Outro Lado do Paraíso": não é mimimi de politicamente correto. Trata-se do reforço de estigmatização e preconceito, um desserviço para o país que mais mata LGBTs no mundo.

A Favorita | Avenida Brasil (divulgação)

Reincidência de trama

Não terá sido a primeira vez que João Emanuel Carneiro promove uma "desconstrução de gênero" em novelas. Aconteceu desde a primeira. Em "Da Cor do Pecado", Abelardo (Caio Blat) era um gay trancado no armário em uma família machista, "seduzido" por Tina (Karina Bacchi). Em "Cobras e Lagartos", uma situação muito semelhante envolvendo Tomás (Leonardo Miggiorin), apresentado a princípio como metrossexual, envolvido por Sandrinha (Maria Maya).

Em "A Favorita", Orlandinho (Iran Malfitano) era apaixonado por Halley (Cauã Reymond) até a chegada de Céu (Deborah Secco), que o seduziu e o fez "mudar de lado". Aqui um escancarado caso de cura gay. Em "Avenida Brasil", deu o que falar o triângulo Roni (Daniel Rocha), apaixonado por Leandro (Thiago Martins) mas envolvido no jogo de sedução da "periguete" Suelen (Ísis Valverde). O trio acabou junto, na cama.

O entrecho da inseminação de "Segundo Sol" é a reedição de uma trama da novela anterior do autor, "A Regra do Jogo": as lésbicas Úrsula (Júlia Rabelo) e Duda (Gisele Batista) decidem pela inseminação e o doador de sêmen é Vavá (Marcello Novaes), irmão de Úrsula, que acaba se envolvendo com a cunhada, grávida dele.

Seria bom que João Emanuel Carneiro promovesse em "Segundo Sol" uma ampla e responsável discussão sobre "desconstrução de gênero". Vamos aguardar o desenrolar dessa história e torcer. Não sem antes desconsiderar o seu currículo, já que o autor abordou a temática tantas vezes mas nunca ultrapassou a esfera do entretenimento descompromissado.

Siga no Facebook – Twitter – Instagram

Sobre o autor

Nilson Xavier é catarinense e mora em São Paulo. Desde pequeno, um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: em 2000 lançou o site Teledramaturgia (http://www.teledramaturgia.com.br/), cujo sucesso o levou a publicar o Almanaque da Telenovela Brasileira, em 2007.

Sobre o blog

Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.

Blog do Nilson Xavier