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Blog do Nilson Xavier

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A Globo gastou em Órfãos da Terra o apuro estético que poupou em Verão 90

Nilson Xavier

02/04/2019 19h49

Julia Dalavia, Renato Góes e Alice Wegmann (foto: Paulo Belote/TV Globo)

Impressionante a qualidade das imagens na estreia da novela "Órfãos da Terra", a nova das seis, nesta terça-feira (02/04). A direção geral é André Câmara, com direção artística de Gustavo Fernández, e trama escrita pela dupla Duca Rachid e Thelma Guedes, das também visualmente belas "Cordel Encantado" e "Joia Rara". E dizer que a Globo nem precisou sair do Brasil para representar a Síria e o Líbano.

Ainda que a trama parecesse correr nesse primeiro capítulo: família síria de classe média perde tudo e decide fugir dos horrores da guerra na Síria, partindo a pé para o Líbano, pensando em ir para São Paulo, onde tem parentes. Também incomodou o excesso de didatismo nos diálogos, explicando direitinho os laços familiares dos personagens. Novela é reiteração, logo saberemos as motivações de cada um.

Porém, a beleza de cenários – com uma realidade poucas vezes vista em novelas -, figurinos, trilha sonora, abertura e fotografia cinematográfica (ou de série?) fizeram esquecer (ou disfarçar) qualquer pequeno deslize. O elenco parece em sintonia: expressão corporal e verbal coesas, sotaques bonitos e frases no idioma – sem aquela necessidade irritante de traduzir tudo na sequência.

Herson Capri (foto: Paulo Belote/TV Globo)

É cedo ainda para destacar interpretações, mas Alice Wegmann e Herson Capri têm em mãos papéis que prometem muito: os terríveis vilões da história, o sheik Aziz Abdallah e sua filha Dalila, que já na estreia deram as cartas. Trata-se, acima de tudo, de uma história de amor, condizente com o horário. O gancho para o segundo capítulo é o amor à primeira vista – dos protagonistas Laila (Julia Dalavia) e Jamil (Renato Góes).

No mais, a temática explorada – o drama dos refugiados e expatriados – traz um gás novo para a teledramaturgia, um sabor de renovação e modernidade nas abordagens. Foi uma estreia auspiciosa – diria Tio Ali, personagem de Stênio Garcia em "O Clone" – neste momento, impossível escapar da associação.

O título deste texto é um gracejo proposital. Apuro estético tão belo e caprichado em "Órfãos da Terra" que nem parece a mesma emissora quando começa a mal acabada novela das sete, "Verão 90".

Sobre o autor

Nilson Xavier é catarinense e mora em São Paulo. Desde pequeno, um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: em 2000 lançou o site Teledramaturgia (http://www.teledramaturgia.com.br/), cujo sucesso o levou a publicar o Almanaque da Telenovela Brasileira, em 2007.

Sobre o blog

Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.

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