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Chico Barney


"Se Joga" é um programa ruim, mas pode piorar

Se Joga - Reprodução
Se Joga Imagem: Reprodução
Chico Barney

Chico Barney

Entusiasta e divulgador da cultura muito popular. Escreve sobre os intrigantes fenômenos da TV e da internet desde 2002.

02/10/2019 23h09

A qualidade técnica almejada por produtores e consumidores de conteúdo há algum tempo não é mais a perfeição quase inalcançável das antigas produções da Globo. Existe algo que chamo de 'estética da cabeça de porco' que aproxima o material audiovisual em voga atualmente da precariedade da vida brasileira. Um celular na mão e um ponto de vista direto e reto na cabeça, sem o filtro nem o distanciamento que a emissora sempre buscou apresentar.

Com passos de formiga, mas com vontade, a Globo está tentando entender como ajustar seus chacras ao zeitgeist. Depois de inaugurar estúdios modernos e manter uma estrutura nababesca, será possível repetir a aparente falta de verniz do que é produzido nas atrações vespertinas da concorrência? Pior ainda: quais talentos serão capazes de mimetizar a tosquice do que viraliza e toma conta das redes diariamente?

Sem muito jeito, "Se Joga" é a mais ousada iniciativa recente para encontrar um viés popular. De maneira aparentemente metódica, tenta atirar para todos os lados. Apresenta notícias chapa-branca sobre celebridades no estilo do Vídeo Show, mas também amplia o leque de assuntos com vídeos do WhatsApp, brincadeiras no palco, quadros de humor e até aulas de inglês.

A tática provavelmente é aprender com a resposta do público. Quem tiver boa repercussão permanece e amplia seu espaço, quem fracassar sai de cena. Esse pensamento darwinista é bastante funcional na internet, com youtubers e outros criadores testando formatos até encontrarem um caminho vencedor. Nas tardes da TV aberta, isso pode ser confundido com bagunça e afugentar telespectadores, matando boas ideias antes mesmo de uma prova justa.

Com apenas 3 episódios no ar até o fechamento deste texto, é necessário frisar que ainda não foi possível encontrar tantas boas ideias assim. "Se Joga" parece subestimar o público, tentando ensiná-lo uma nova língua depois do almoço ou entrevistando protagonistas de memes que, francamente, nem eram tão legais. Por não entender os sinais emitidos pela audiência, acaba confundindo boa vontade com falta de rigor na apreciação das próprias pautas.

Nessa seara, a melhor iniciativa até agora, que pode apontar para um futuro brilhante, com a Globo "sujando" as mãos com a viçosa lama do entretenimento da nova era, foi a cobertura sobre os desdobramentos da entrevista que Luana Piovani deu ao UOL recentemente. Depois de exibir um trecho que viralizou, ainda entrou ao vivo com a atriz diretamente de Portugal.

O papo foi adoravelmente esquisito, com Piovani respondendo a primeira pergunta dos apresentadores com "não sei que explicação vocês querem que eu dê", para a surpresa e fascínio de Fernanda Gentil, Érico Brás e Fabiana Karla. Se tiver coragem de assumir o filão, a Globo possui estrutura para localizar, abordar e constranger praticamente qualquer brasileiro vivo. Caso decida apostar no misticismo, poderá também alcançar qualquer brasileiro morto. Mas tergiverso.

Quanto aos humorísticos, Paulo Vieira e Marcelo Adnet são fascinantes. Apresentam bons formatos, que provavelmente funcionariam muito melhor em outros horários. A exemplo do que foi feito com o Choque de Cultura, não precisariam necessariamente existir dentro de outro produto. Espero que um eventual fracasso do programa não coloque um fim precipitado nos projetos.

No geral, "Se Joga" é um programa ruim, e pode piorar se a Globo não tiver a audácia de ouvir e colocar em prática os anseios do público atual. Ou se tiver —aí depende do gosto do freguês.

Voltamos a qualquer momento com novas informações.

Chico Barney