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Chico Barney


Maria da Paz foi a pior protagonista da história das novelas

A personagem foi carinhosamente apelidada como Maria da Incapaz  - Reprodução
A personagem foi carinhosamente apelidada como Maria da Incapaz Imagem: Reprodução
Chico Barney

Chico Barney

Entusiasta e divulgador da cultura muito popular. Escreve sobre os intrigantes fenômenos da TV e da internet desde 2002.

22/11/2019 13h19

Resumo da notícia

  • A Dona do Pedaço foi sucesso de público e fracasso de crítica.
  • Não bastasse todo o resto, ainda apresentou a pior protagonista de todos os tempos.
  • Maria da Paz é uma personagem inconsistente, incongruente e insondável.
  • A boa notícia é que a novela acaba hoje.

"Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; a era da sabedoria, a era da tolice; a época da crença, a época da incredulidade; a estação da Luz, a estação das Trevas; a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós; íamos todos direto para o Céu, íamos todos para o lado oposto - em suma, era um período tão semelhante ao atual, que algumas de suas autoridades mais barulhentas insistiam que fosse recebido, para o bem ou para o mal, apenas no grau superlativo de comparação."

O parágrafo acima não é meu, como o leitor já deve ter percebido pela qualidade do texto. É a abertura de "Um conto de duas cidades", do Charles Dickens. Publicado em 1859, conta uma história que ocorre entre Londres e Paris, partindo da Independência dos Estados Unidos até a Revolução Francesa.

Lembrei do trecho por conta da cisão entre público e crítica nas avaliações sobre A Dona do Pedaço.

Para a Globo, foi um estouro. Retomada da audiência, depois de consecutivos fracassos, e uma repercussão popular que há tempos não se via. Os personagens voltaram a ser assunto nas ruas, Maria da Paz e Vivi Guedes estavam na boca do povo. Além disso, um admirável êxito comercial, com novos formatos de publicidade que também viraram notícia.

Aos olhos da crítica e parte dos telespectadores, A Dona do Pedaço foi uma longa e irritante jornada. Tramas bobas, bons atores subaproveitados, soluções ridículas para situações constrangedoras. A impressão é que a novela não se sustenta perante um olhar mais dedicado, mas cumpriu bem a função de pano de fundo para quem ainda assiste a TV como companhia (acabo de citar Dickens e Dinho Ouro Preto no mesmo texto, me perdoem).

Mantendo o grau superlativo de comparação, considero Maria da Paz a pior protagonista da história das novelas. Juliana Paes é uma heroína. Boa atriz, demorou até conseguir dar vazão aos sonhos impossíveis do autor Walcyr Carrasco. Primeiro com uma insistente indefinição de tom e sotaque, depois com situações estapafúrdias que conduziram a trama por meses a fio.

A tão comentada burrice da boleira foi a força motriz da narrativa. Sem a absoluta falta de noção da personagem, não seria possível concatenar a série de bizarras realizações dos vilões. Ao mesmo tempo, tanta ignorância não combina com a forma como Maria da Paz foi apresentada no começo da novela, assim como seu eloquente sucesso como empresária.

Nesse vácuo de compreensão, ainda assim, a protagonista entrou para o imaginário popular. O tal do bolo mágico, que ela oferecia até para quem estivesse traqueostomizado e à beira da morte no hospital, virou piada nas filas de padaria e botequins. O mesmo ocorreu com outros bordões da novela, como a freira maligna que repetia ter sido criada em convento ou o policial psicótico que passou as últimas semanas prometendo partir rumo a uma floresta.

Vejo méritos na condução do autor, que há anos demonstra possuir um entendimento muito claro do que é popular. Mas sinto falta de mais de cuidado, ou pelo menos algum cuidado, na hora de propor problemas e soluções para as histórias que escreve. Em seus melhores momentos, A Dona do Pedaço foi simplória.

Voltamos a qualquer momento com novas informações.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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