PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Fefito


Por que o racismo no 'BBB' não mobilizou tanto quanto o machismo?

BBB 20: reality teve polêmicas envolvendo assédio, machismo, xenofobia e conversa sobre zoofilia  - Reprodução
BBB 20: reality teve polêmicas envolvendo assédio, machismo, xenofobia e conversa sobre zoofilia Imagem: Reprodução
Fefito

Fernando Oliveira, conhecido como Fefito, é formado em jornalismo e pós-graduado em direção editorial. Teve passagens pela IstoÉ Gente, Diário de S. Paulo, iG, R7. Atuou como apresentador do Estação Plural, da TV Brasil, Mulheres, da TV Gazeta, e Morning Show, da Jovem Pan.

Colunista do UOL

10/02/2020 16h46

Resumo da notícia

  • 'BBB 20' já gerou mais engajamento nas redes sociais que toda a edição anterior
  • Rodrigo França e Gabi Hebling, do "BBB 19", acreditam no silenciamento de corpos negros
  • Os ex-BBBs, no entanto, celebram que as mulheres tenham trazido a discussão à pauta

Assim como no ano passado, o "Big Brother Brasil 20" virou um catalisador de discussões sociais. Desta vez, feminismo e machismo entraram na pauta da atração após alguns dos homens confinados protagonizarem cenas de assédio, falarem sobre a aparência e a reputação das mulheres e bolarem uma espécie de "teste de fidelidade" como plano. Ao contrário do ano passado, em que o racismo entrou em discussão, com expressões e comportamentos sendo discutidos, desta vez os espectadores parecem engajados em promover algum tipo de justiça social dentro daquele microcosmo. Mas, afinal, porque o machismo contra mulheres - em sua maioria brancas - provocou maior reação da audiência do que as acusações de racismo? Para se ter uma ideia, a atual temporada já superou em números de tweets toda a anterior.

Para Rodrigo França, um dos concorrentes do "BBB 19", a questão é clara. "Existem corpos que são ouvidos e corpos que são silenciados, como o corpo negro. Tudo o que está sendo dito nesse momento, principalmente sobre a questão do ser mulher, Hana, Rízia e Gabi falaram na minha edição. Hana teve uma grande escuta por ser uma mulher branca, Gabi e Rízia foram minimizadas. Quando falo sobre isso, não estou discutindo sobre quem fala. Estou discutindo sobre uma sociedade que não escuta e valida. Que todas as mulheres possam falar, mas a autocrítica que tem de ser feita é porque determinadas bocas, especialmente negras, são colocadas em termos pejorativos como mimimi", afirma o produtor cultural, ator e roteirista. "Agora, por que tudo o que era dito e fundamentado no passado, de maneira muito pedagógica, era dado como raivoso, odioso ou intolerante ('no 'BBB19')? Pelo contrário, foi a edição mais tranquila e pacífica. Quando a gente fala de privilégio branco, também se encaixa nessa relação, de falar qualquer tema e ser escutado."

Rodrigo e Gabi durante o "BBB 19" - Reprodução/GlobosatPlay
Rodrigo e Gabi durante o "BBB 19"
Imagem: Reprodução/GlobosatPlay

Gabi Hebling concorda com o amigo e chegou a publicar um vídeo sobre o assunto. "Fico muito feliz que nesta edição as pessoas estão enaltecendo muitas mulheres lá dentro. Fico feliz de saber que a sociedade inteira despertou. Até eu, que não assistia 'BBB', estou assistindo. Fora, machistas! Mas também deixo uma pergunta: quando corpos pretos falam sobre isso, na maioria das vezes eles são silenciados. A nossa voz não ecoa", diz a cantora. "Existe uma seletividade de corpos, de mulheres, de mulheres brancos. Infelizmente a gente vive num país racista. O 'BBB' é um estudo antropológico e totalmente político. É ótimo que o machismo está sendo escancarado, mas que corpos são esses que estão falando? Que bom que eles estão sendo ouvidos, que bom que eles existem. O discurso da Marcela é maravilhoso, mas a minha pergunta é: por que a voz negra é tão invisibilizada?"

Para Rodrigo e Gabi, há outro fator que não pode ser ignorado. No ano passado, o reality show entrou no ar logo após as eleições, quando pautas sociais vinham sendo discutidas intensamente. "Nós entramos em um ano pós-eleição, de uma eleição muito conturbada. Entrei lá com muito medo, assim como meus amigos. Estávamos pela primeira vez no topo da pirâmide, mas estávamos lá para ser derrubados", afirma a cantora e percussionista. "O tempo histórico e político vai interferir nas motivações do público e isso vai variar de um ano para outro", diz o produtor, que não se arrepende da experiência e atualmente escreve uma série e está em cartaz com os espetáculos "Oboró", "O Encontro - Malcom X" e "O Amor Como Revolução". "Minha voz chegou em lugares aos quais não chegaria antes. Meu propósito foi furar a bolha e discutir coisas que não eram discutidas na TV aberta. Acredito que a experiência foi a melhor possível."

Ambos, no entanto, reforçam que a pauta das mulheres do "BBB 20" é muito importante. O que se propõe é uma reflexão mais profunda sobre o tema. "São dois BBBs e contextos diferentes e é ótimo ver a galera da bolha deixando ela estourar. Não queremos uma disputa de nada, pelo contrário. A gente busca uma reflexão sobre os parâmetros de uma sociedade construída pelo patriarcado, sobre o que paira no inconsciente comum. A gente busca um despertar, uma mudança", argumenta Gabi.

Rodrigo, no entanto, acredita que o programa tem sua parcela de responsabilidade nas discussões sociais. "Eu não acredito numa posição imparcial. Todas as edições vão ser tendenciosas para um lado", afirma. Já Gabi lamenta que não tenha descoberto tudo o que falavam por suas costas dentro do confinamento. "Quando saímos ouvimos coisas que não víamos lá dentro e me machucaram. Quem dera ter alguém da casa de vidro para me avisar."

Fefito