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Gabriela Prioli mostra que CNN não está pronta para lidar com contraditório

Gabriela Prioli, que sugeriu saída da CNN Brasil (Reprodução) - Reprodução / Internet
Gabriela Prioli, que sugeriu saída da CNN Brasil (Reprodução) Imagem: Reprodução / Internet
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Fernando Oliveira, conhecido como Fefito, é formado em jornalismo e pós-graduado em direção editorial. Teve passagens pela IstoÉ Gente, Diário de S. Paulo, iG, R7. Atuou como apresentador do Estação Plural, da TV Brasil, Mulheres, da TV Gazeta, e Morning Show, da Jovem Pan.

Colunista do UOL

29/03/2020 14h59

Resumo da notícia

  • Comentarista política anunciou nas redes sociais que sofreu "constrangimentos" e deu a entender que pediu demissão
  • Nas últimas semanas, mestra em direito teve de debater com convocador de protestos
  • Gabriela ainda se envolveu em discussão com Reinaldo Gottino, mediador do programa

A sugerida saída de Gabriela Prioli da CNN Brasilapenas duas semanas após a estreia da emissora expõe dois problemas para os quais alguns veículos noticiosos não parecem prontos para enfrentar: lidar com o contraditório e com a equanimidade de direitos das mulheres. Mestra em direito penal, a comentarista do "Grande Debate" se destacou por suas opiniões fortes tão logo surgiu na televisão. Sempre pronta para um parecer técnico, a advogada com maestria derrubou argumentos de seus oponentes no debate. Apenas dois dias após entrar no ar, Caio Copolla, então seu oponente, afastou-se. Foi substituído por Tomé Abduch, representante do movimento Nas Ruas, ou seja: um convocador de protestos.

Ao contrário de tantos comentaristas políticos e da própria Gabriela, Tomé não tem distanciamento das causas que discute. Pode ser considerado por muitos um militante ou alguém que defende diretamente os interesses de determinado grupo político. Sua presença em um debate televisivo com uma mestra em direito por si só já causou estranhamento. Nos últimos dias, os debates inflamados repercutiram nas redes sociais e não é exagero afirmar que Gabriela, até então, foi a figura da CNN com maior destaque até agora. Na última quinta-feira (26), Reinaldo Gottino, mediador do programa, sofreu acusações de "manterrupting" e "mansplaining", ou seja: quando um homem interrompe a fala de uma mulher e ainda explica o que a própria falaria em tom de aula. Para muitos, pareceu alinhar-se a Tomé e formar um time contra a comentarista, exposta por ter de debater com o apresentador. Ainda que não tenha sido a impressão, foi o que pareceu para muitos.

O que o episódio mostra é que a TV brasileira - e outras mídias, como o rádio - ainda precisa aprender a lidar com o contraditório. Por mais que linhas editoriais sejam claras para quem assiste, um veículo jornalístico não presta nenhum favor ao dar o microfone a alguém que pense diferente. Ele estimula a reflexão. Da mesma maneira, há que se achar uma maneira de promover debates levando em consideração o nível técnico dos comentaristas e também seu contexto. Mulheres - e outras minorias, como LGBTs e negros - precisam ser ouvidos sem condescendência. Não por acaso, em seu anúncio nas redes, a advogada citou "constrangimentos". Se quiser, Gabriela Prioli se recolocará rapidamente no mercado caso a CNN não a convença a mudar de ideia. E, caso ocorra, ela precisa de debatedores igualmente técnicos. Mas uma coisa é certa: o canal jornalístico perderá uma de suas figuras mais populares.

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