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Gabriela Pugliesi volta mais preocupada com a embalagem do que com discurso

Gabriela Pugliesi no vídeo em que anuncia retorno às redes sociais - Reprodução
Gabriela Pugliesi no vídeo em que anuncia retorno às redes sociais Imagem: Reprodução
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Fernando Oliveira, conhecido como Fefito, é formado em jornalismo e pós-graduado em direção editorial. Teve passagens pela IstoÉ Gente, Diário de S. Paulo, iG, R7. Atuou como apresentador do Estação Plural, da TV Brasil, Mulheres, da TV Gazeta, e Morning Show, da Jovem Pan.

Colunista do UOL

21/07/2020 15h29

Resumo da notícia

  • Influenciadora volta às redes sociais nesta semana após meses afastadas
  • Pugliesi atribuiu a "planos de Deus" ter furado a quarentena e ter dito "foda-se a vida"
  • Editado, vídeo tem vários clichês de internet, mas faltou pedido de desculpas direto e reto

Após três meses afastada, Gabriela Pugliesi voltou às redes sociais cumprindo todo o protocolo: mostrando arrependimento, por meio de vídeo, prometendo uma fase mais responsável. Difícil, no entanto, em um mundo cada vez mais baseado em aparências, não prestar atenção ao discurso vazio embalado em um pretenso pedido de desculpas.

A estratégia parece óbvia para muita gente: roupa sóbria, praticamente sem maquiagem, pose descontraída. Surpreende que a mensagem "amor livre" estivesse na camiseta, uma vez, que, para muitos, ela remete diretamente a novos modelos de relacionamento - normalmente não monogâmicos - assunto distinto do intuito do vídeo.

O que a mensagem de Pugliesi mostra é que a influenciadora, aparentemente tão preocupada com seu discurso, entrou para o time das celebridades que não sabem pedir desculpas. "Se eu te ofendi, nunca foi minha intenção ofender alguém", afirmou. Ao colocar na condicional, a influenciadora fitness não só deixa em aberto a possibilidade de não ter ofendido ninguém como coloca a responsabilidade em quem foi ofendido. A lição é bem simples: "Desculpas por ter te ofendido". E ponto.

Num vídeo tão editado e cheio de cortes, Pugliesi pareceu ter se preocupado mais com a embalagem do que com o conteúdo e recorreu a muitos clichês de autoajuda e frases feitas. Falou em "bolha" e "lugar de conforto" para dizer que estava dominada pelo "ego".

Em um dos argumentos, novamente se exime da responsabilidade por seus atos. Credita aos "planos de Deus" o que lhe ocorreu e afirma que "precisava passar por isso". "Deus está agindo para colocar a gente de volta nesse eixo", afirma. Ou seja: estava escrito, ela não tinha opção a não ser furar a quarentena e dizer "foda-se a vida" em vídeo nas suas redes sociais.

Pugliesi ainda afirma que não tinha noção de seu tamanho nas redes sociais, afirmação curiosa, vindo de quem vivia de patrocínios e boa parte do que vestia ou comia vinha acompanhado de publicidade. A frase vai contra o plano de estancar a perda de seguidores no auge do escândalo e tirar o perfil de circulação. Como alguém com mais de quatro milhões de pessoas a acompanhando diz não ter noção de seu tamanho?

A única explicação possível é a mesma que resume muitos dos influenciadores hoje: para eles, não há seres humanos por trás dos números. Só importam os dígitos. O exemplo só é dado por meio de patrocínio. Do contrário, eles estão acima de tudo e podem furar quarentena. A inspiração para os seguidores se dá por meio de viagem de jatinho, fotos na praia com corpo sarado ou sorteio de maquiagem e não em atos do cotidiano.

Verdade seja dita: Pugliesi foi das poucas canceladas por suas atitudes. O Brasil está repleto de famosos na TV e na internet que furam quarentena, se recusam a usar máscara e promovem festas. Resta saber quando eles acordarão para o fato de que estão dando mau exemplo também. A Pugliesi resta entender que o conteúdo vem antes da embalagem. Dava para pedir desculpas em um minuto e fugir ao mar de clichês inspirado na cartilha de especialistas em marketing para redes sociais.

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