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Leo Dias


Alok: 'Só vale ser o número 1 do mundo se eu estiver ajudando ou servindo'

Leo Dias

Leo Dias é jornalista e diretor-executivo do "TV Fama", da Rede TV!. Foi correspondente internacional da rádio portuguesa RDP, passou pelas TVs Bandeirantes e RedeTV! e apresentou um programa na rádio FM O Dia, líder de audiência no Rio de Janeiro, onde entrevistava políticos, jogadores de futebol, dirigentes e muitos artistas. Assinou uma coluna de celebridades no jornal "O Dia" e também esteve nos jornais "Extra" e nas revistas "Contigo", "Chiques e Famosos", "Amiga" e "Manchete". Apesar dessa experiência, sempre se definiu como repórter, tamanha paixão pela apuração da notícia e pela vontade em produzir conteúdos exclusivos. Polêmico, controverso e dono de uma forte personalidade, Leo conquistou um público cativo por dar notas explosivas e audaciosas num mundo artístico mais conservador. Seu lema: "A fama tem um preço estou aqui para cobrar".

Colunista do UOL

31/03/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Alok descarta ideia de fazer lives em rede social: "Não é o que meu coração manda fazer"
  • DJ revela ter se questionado sobre o sentido da própria vida
  • Ele relembra a infância em comunidade hippie: "Até os 12 anos morava em Marte"

Ele se tornou um dos maiores DJs do mundo, é o número 1 do Brasil e foi eleito o 11º do mundo em 2019 no ranking anual da publicação britânica DJ Mag - a listagem mais importante do cenário da música eletrônica. Mas Alok garante que não veio à Terra para ser o top 1, e sim para ajudar ao próximo e ser solidário.

Em entrevista exclusiva ao colunista Leo Dias, Alok fala sobre sua missão de vida: "Não estou preocupado em ser o maior DJ do planeta. Só vale ser o número 1 do mundo se eu estiver ajudando ou servindo. Não gostaria de ter mais do que contribuí."

O DJ revela ter passado por fases na qual se questionou sobre o sentido da própria vida, enfrentando três períodos de depressão. Mesmo tendo alcançado o sucesso, Alok queria encontrar o sentido da vida. "Eu tinha medo da morte, ficava me perguntando muito. Quando tive aquilo que a gente fala que é sucesso, percebi que queria entender o por que eu estava aqui."

Primeiro artista brasileiro a ter seu trabalho atingido diretamente pela pandemia do coronavírus - sua turnê da China foi cancelada em fevereiro - e na contramão de muitos que vêm promovendo lives e shows nas redes sociais, Alok diz que este não é o momento para isso.

"Meu posicionamento agora está voltado para o que realmente está acontecendo", ele diz. "Quero que a minha contribuição, nesse momento, seja lembrada por como atuei diante dessa crise, e não promovendo músicas. Não é o que o meu coração manda fazer."

Confira a entrevista completa com o DJ Alok.

Leo Dias - Muita gente tem usado a internet para celebrar a vida, para fazer lives, para festejar, fazer show. Você está na contramão da classe artística brasileira: não faz live, não comemora nada, porque não há o que se comemorar...

Alok - Várias lives aparecem, oportunidades de fazer entretenimento. Não é que eu sou contra, mas é que meu posicionamento, agora, está muito voltado para o que realmente está acontecendo [em relação à pandemia do coronavírus no mundo], como solucionar e como evitar que o impacto seja tão grande, pensando não só no aspecto imediatista, mas nos próximos meses. E eu quero que a minha contribuição, nesse momento, seja lembrada por como eu atuei diante dessa crise, e não promovendo músicas. Por mais que o streaming esteja bombando, o que seria uma ótima oportunidade para poder ter meu nome nisso, não é o que condiz com a minha postura agora, não é o que o meu coração manda fazer.

Quais são os danos que você acha que isso vai causar ao país?

Tem gente que já está sofrendo de uma forma fulminante, pessoas que vivem da informalidade, que não têm reserva. Elas vivem pela semana. E aí você pergunta para a pessoa e ela vai falar: 'Prefiro arriscar pegar o coronavírus do que morrer com fome'. O que as pessoas estão sentindo hoje me preocupa bastante. Para a gente ter uma quarentena, muitas das pessoas da comunidade estão trabalhando. Quando a gente liga no delivery, quando o porteiro do prédio, quando o cara que lava a lavanderia dos hospitais? como é que você isola, né?

Muita gente levanta bandeira sem nunca ter acreditado, porque acha que é importante levantar uma bandeira, porque agrada e melhora a imagem. Mas você sempre foi assim, se preocupou com o outro...

Estou tendo que sintetizar o que está acontecendo e tem me incomodado muito, mais uma vez, a polarização no Brasil de querer falar ou de saúde pública ou de economia. Primeiro ponto: esse vírus precisa ser contido. Quando você fala que mata só idosos, para mim, é o cúmulo do absurdo, porque quando você entra em um colapso da saúde pública, se o seu filho tiver uma crise de asma aguda ele vai morrer, não vai ter leito para ele. Se o seu pai tiver um infarto, ele vai morrer porque não tem. É muito mais profundo do que você falar somente de uma gripe.

É fato que vamos ter uma recessão econômica e que muita gente vai perder seus planos de saúde privados, o que faz com que o sistema público de saúde infle cada vez mais...

Acho que, nesse momento, o que posso sensibilizar as pessoas é que se a gente, como sociedade, puder contribuir e fazer a nossa parte? Não só a ação de isolamento, mas quem puder e tiver uma reservinha, não demitir funcionários agora e negociar, poder contribuir com algumas comunidades que são mais afetadas. Eu vivo em uma linha tênue porque estou querendo focar a minha energia no Brasil todo, mas o meu projeto da África agora está em um colapso porque o dólar está R$ 5, ou seja, uma criança que a gente tratava a R$ 50, agora já passa a ser R$ 85, R$ 90.

Explica melhor o seu projeto.

A gente tem um projeto na África, o Fraternidade Sem Fronteiras, que atua no Brasil também. São 15 mil crianças hoje, e cada criança tem um custo de R$ 50. Tem os padrinhos, e tem alguns assuntos pontuais que eu faço e outras pessoas fazem, que é levantar hospital, escola, enfim. Mas se o dólar aumenta e você tem a mesma quantidade [de custo], mas menos dinheiro, a conta não fecha.

Você passou por algumas fases em que fez sérios questionamentos sobre a própria vida e o sentido dela. Teve três períodos de depressão profunda, que você queria saber o que vinha depois da morte, correto?

Exatamente.

E em outro momento você já tinha sucesso, fama, dinheiro, mulher e não via sentido para a vida. Você só encontrou sentido para tudo aquilo que você estava tendo quando passou a ajudar o outro?

Acho que você sintetizou muito bem. Só queria pontuar uma coisa: eu tinha medo da morte, não sabia o que aconteceria depois da morte, então ficava me perguntando muito. Quando tive aquilo que a gente fala que é sucesso, percebi que queria entender o por que eu estava aqui. Tipo: 'Qual é o sentido, então, se eu já consegui aquilo que é o sucesso e não estou me sentindo... esse não pode ser o sentido da minha vida, porque isso não é o que vim fazer aqui'.

E aí foi quando entendi que, na verdade, talvez o meu propósito seja só transformar isso em algo que possa ajudar outras pessoas. E, sendo não tão clichê, talvez eu tenha vindo aqui para servir.

Divulgação
Imagem: Divulgação

Você não veio ao mundo para ser o maior DJ do planeta?

Não. Não estou nem preocupado em ser o maior DJ do planeta. Quando você traz um ranking, sou o top 10 DJ do mundo. Isso ajuda porque traz visibilidade, você tem mais proposta de eventos, então acho importante, obviamente, mas não é esse o meu objetivo. Talvez esse objetivo de ser o top 1 seja para o meu ego, mas se eu não estiver alinhado com o que vim fazer, não adianta nada. Só vale ser o número 1 do mundo se eu estiver ajudando ou servindo. Sempre coloquei uma coisa minha cabeça: não gostaria de ter mais do que contribuí. Se eu tenho um apartamento, um carro? eu gostaria de equiparar meu patrimônio com as minhas doações. Para mim, o que não é normal é a pessoa ter muito mais do que precisa, do que ela vai usufruir, é só uma questão de olhar com outra ótica.

Agora o fato de você ser filho de quem você é [Alok é filho dos DJs Ekanta e Swarup, idealizadores do festival Universo Paralello] facilitou muita coisa na sua vida, né? Ninguém na sua casa viu a sua profissão como um hobby.

Até os 12 anos morava em Marte (risos). Eu morei na Holanda, e aí era outra realidade. A gente morava numa invasão que era um hospital, uma comunidade hippie. De lá eu fui para Alto Paraíso [Goiás]. Eu era hippie, acompanhava meus pais e aí com 12 anos cheguei em Brasília e comecei a ser questionado, o pessoal apontando dedo. E aí levava o pessoal para casa e viam foto de Buddha, e falavam 'satanás'. Comecei a ficar transtornado, a questionar os valores que tinha aprendido, se eram os corretos. Só que hoje acho que foi um grande privilégio, porque eu pude escolher desde muito cedo e sabia que era aquilo.

Mas você questionou a Deus pelos seus pais?

Não a Deus.

Você acredita em Deus, Alok?

Super, mas naquele momento eu era ateu.

O que te fez acreditar em Deus?

Eu colocava a culpa das coisas ruins em Deus. Tipo: 'Se Deus existe, por que então tem miséria na África? Se Deus existe, por que então?', entendeu? Foi quando entendi que, na verdade, o sofrimento existe exatamente na ausência de Deus. Uma das grandes revelações para mim foi na África. Eu já estava alinhado, mas naquele momento questionei de novo. Tinha uma senhorinha que estava amarrando o estômago por três dias para não sentir fome. Eu comecei a conversar com ela e ela falou: 'Estou orando a Deus para não sei o que'. E ela era cega dos dois olhos. Aí eu falei: 'Deus? Como assim?'. E ela: 'Estou orando a Deus porque é ele quem me dá forças'. Aí vi que eu era o miserável ali. Ela, com nada, orando e tendo muito mais fé do que eu, que tinha tudo. Fiquei em choque. Comecei a cair em choro, em prantos e, lógico, continuei o projeto. Aí eu pedi para o pessoal do Fraternidade Sem Fronteiras levar ela no médico para ver o que ela tinha nos olhos.

Ela não era cega definitiva?

Ela era cega há muitos anos já. Quando a gente passou a levar comida para ela todos os dias, eu perguntei para ela: 'E aí, tudo bem?', e ela falou: 'Eu estou muito grata pelo alimento fisiológico da comida, mas estou mais grata porque agora tem alguém me trazendo comida todos os dias, que alimenta a minha alma, a presença humana, a presença de alguém aqui perto'. Depois de um ano eu voltei lá e o que na verdade ela tinha era uma catarata. Daí fez a cirurgia e curou, conseguiu enxergar. E aí, como é que eu não acredito em Deus?

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Na última vez que a gente se encontrou, você pediu para sua assessora e para sua assistente saírem, e você chegou para mim e falou: 'O que está acontecendo contigo? Em que posso te ajudar?'. Aquilo me tocou de um jeito. Você falou, por diversas vezes: 'Leo, tive vontade de te ligar, mas não tive coragem'. Foi véspera do Rock in Rio, lembra?

Foi.

Você ia tocar no Rock in Rio no dia seguinte. Alok, você não tem ideia de como aquilo foi importante para mim. Quero dizer que ali eu vi como você é um ser bom, porque você só queria saber se eu estava bem, quais eram os meus gatilhos, em que você podia me ajudar, me auxiliar e, no final, você se mostrou: 'Olha, estou aqui, me liga, esse aqui é o meu telefone'. Não queria chorar, desculpa...

Leo, chora. Acho que o choro é um momento de deixar as coisas irem e faz bem para a gente. E assim, Leo, você é um cara que faz um trabalho fantástico, é ácido, coloca pontos em que você dá sua cara a tapa e você paga o preço por isso. Mas fora o jornalista magnífico que você é, eu queria saber como estava o ser humano por trás, porque para mim era que estava importando mesmo ali. [Falando para o público] Às vezes vale a pena a gente tentar refletir um pouco o que leva a algumas ações do Leo que possam parecer erradas para você, mas tente entender o que move aquilo. Às vezes é importante perguntar como que o Leo ser humano está, e muitas das ações dele são exatamente porque existe um vazio. Então, acho importante, independente de ser o Leo, as pessoas ao seu redor, perguntar como elas estão e tentar entender o que as leva a fazerem certas ações. Por mais que você possa discordar, é como se o Leo estivesse sempre querendo mover o mundo, mas esquece de cuidar do próprio.

Leo Dias