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Claudia Raia sobre convite para teste na Globo: 'Achei que era cantada'

Leo Dias

Leo Dias é jornalista e diretor-executivo do "TV Fama", da Rede TV!. Foi correspondente internacional da rádio portuguesa RDP, passou pelas TVs Bandeirantes e RedeTV! e apresentou um programa na rádio FM O Dia, líder de audiência no Rio de Janeiro, onde entrevistava políticos, jogadores de futebol, dirigentes e muitos artistas. Assinou uma coluna de celebridades no jornal "O Dia" e também esteve nos jornais "Extra" e nas revistas "Contigo", "Chiques e Famosos", "Amiga" e "Manchete". Apesar dessa experiência, sempre se definiu como repórter, tamanha paixão pela apuração da notícia e pela vontade em produzir conteúdos exclusivos. Polêmico, controverso e dono de uma forte personalidade, Leo conquistou um público cativo por dar notas explosivas e audaciosas num mundo artístico mais conservador. Seu lema: "A fama tem um preço estou aqui para cobrar".

Colunista do UOL

01/04/2020 04h00

Claudia Raia, de 53 anos, fez história nos seus mais de 30 anos de carreira. Em entrevista à Coluna do Leo Dias, a atriz, cantora, dançarina e produtora relembra momentos marcantes de sua trajetória, como quando foi convidada para participar do programa humorístico de Jô Soares na Globo, o "Viva o Gordo", no quadro "Vamos Malhar".

"Estou eu na praia, com um biquinão asa-delta todo enfiado na bunda, aquele momento anos 80. Vem um cara e fala assim: 'Tudo bem, Claudia? Sou da Globo e queria te chamar para vir fazer um teste'. Falei: 'Prazer, Raquel Welch'. Continuei para o mar e falei: 'Ah, gente, era só o que me faltava essa pessoa me cantando aqui'. E era o Paulo Cursino, que era um dos redatores do 'Viva o Gordo'. Não levei a sério. Minha mãe foi no meu lugar, porque achei que era uma bela de uma cantada. Chegou lá, ela falou: 'Filha, é a Globo'", contou.

Claudia lembrou também que, prestes a estrear o musical "Não Fuja da Raia", perdeu o patrocínio e foi até a Rua 25 de Março, em São Paulo, pedir ajuda com material: "Eu ia pedir 25 metros de veludo, de joelhos. Dizia: 'Olha, é a primeira vez que estou produzindo, é um show'. E as pessoas iam me ajudando. E vou até hoje, tá? Porque fazer teatro é isso, é fazer a muitas mãos."

A atriz contou que vai lançar, ainda este ano, um livro de fotos de sua carreira, feito por Gringo Cardia, além de sua biografia. "Quem ia escrever a biografia era a Fernanda Young, e aí nós ficamos sem a Fernanda e entrou a Rosana Hermann, que é uma super escritora, uma mulher de comédia."

Eu queria que a minha biografia tivesse o formato de crônicas de comédia, já que a minha vida é um esquete.

Claudia também falou sobre o grupo de oração que tem promovido diariamente durante os dias de isolamento, às 18h, em seu Instagram: "Eu, Fernandinha Souza, Bruna Marquezine, Maysa, fizemos um grupo de oração. Todos os dias a gente reza por 1 minuto pelo mundo, pelo planeta, por todas as pessoas que estão doentes, por todas as pessoas que estão saudáveis e que não contraiam esse vírus."

Leia trechos da entrevista com Claudia Raia.

Tato Belline/Divulgação
Imagem: Tato Belline/Divulgação

Leo Dias - Você começou no teatro antes da televisão. "Choros Line" foi a sua primeira peça, vivendo um personagem 18 anos mais velho.

Claudia Raia - Você está me perguntando do "Chorus Line", e eu estou vivendo um momento confinada aqui em casa com os meus filhos, com o Jarbas [Homem de Mello]. Mas estou vivendo um momento muito bonito também, em que a gente está escrevendo a minha biografia. Está pronto o livro de fotobiografia, que são fotos da minha carreira durante 30 anos, livro lindo de arte.

Um livro da sua carreira, não da vida?

Da carreira, e foi o Gringo Cardia que fez. Estamos só esperando acabar esse momento [em relação ao coronavírus] para a gente lançar. Já está pronto o livro. E a biografia também é para esse ano. Quem ia escrever era a Fernanda Young, e aí nós ficamos sem a Fernanda e entrou a Rosana Hermann, que é uma super escritora, uma mulher de comédia. Eu queria que a minha biografia tivesse o formato de crônicas de comédia, já que a minha vida é um esquete. Então é muito legal porque a gente está justamente no capítulo do "Choros Line", que foi o meu primeiro trabalho em teatro, o primeiro trabalho que cantei, dancei e representei. Nunca tinha representado na vida, nunca tinha cantado na vida.

E obviamente você passou por muitos testes, né?

Muitos testes. Passei primeiro como substituta, aí depois ganhei o papel imediatamente, antes de começar a ensaiar, então tive muita sorte.

Você acha que você tem sorte na vida?

Acho, principalmente em ter as pessoas certas no lugar certo, que me dessem a mão. Essa gratidão eu tenho e terei eternamente, porque às vezes você vê gente talentosa que não acontece. Então tem o fator sorte sim, e tem muito trabalho, muito suor. "Chorus Line" foi definitivamente onde eu entendi que a minha história era com o teatro musical. Dali fui convidada para fazer a "Playboy", que na época era uma coisa incrível. O Jô Soares me viu no "Chorus Line", me chamou para fazer televisão. E o espetáculo foi produzido pelo Walter Clark, que foi o homem que fez a Globo. Esse cara virou meu tutor, ele que assinava por mim porque eu era menor, ele me ajudou a fazer essas primeiras escolhas.

Antes da maioridade você já estava ao lado das pessoas certíssimas, Claudia.

Que loucura isso, gente. Ele dizia assim: 'Você vai ser uma grande estrela e a Rede Globo vai te pegar imediatamente'. E eu não queria saber disso porque não tinha vontade de fazer televisão. Eu não me encantava. Até que fui abordada. O Jô Soares foi assistir ao espetáculo em uma matinê de quinta-feira. Nunca mais me esqueço. Todo mundo falando: 'O Jô Soares está aí'. Fizemos o espetáculo, e à noite tinha mais uma sessão. A gente foi jantar no Antonios, era um restaurante que tinha no Rio, e fui com o Walter e mais três pessoas do elenco. Chegamos lá e encontramos o Jô. Ele estava encantado, impactado porque ele tinha acabado de assistir, e ele me disse duas coisas que fiquei chocada: 'Há muitos anos não vejo um brilho como o seu. Você vai ser uma das maiores estrelas desse país.'

E você com 17 anos...

Sim, 17 anos. Aí corta para a praia, estou eu com um biquinão asa-delta todo enfiado na bunda, aquele momento anos 80, vem um cara e fala assim: 'Tudo bem, Claudia? Eu sou da Globo.'

Quanto tempo depois isso?

Sei lá, duas semanas depois. 'Eu sou da Globo e queria te chamar para fazer um teste. Eu falei: 'Prazer, Raquel Welch'. Continuei para o mar e falei: 'Ah, gente, era só o que me faltava essa pessoa me cantando aqui'. E era o Paulo Cursino, que era um dos redatores do "Viva o Gordo". Eu não levei a sério. Aí ele me deu o endereço e minha mãe foi no meu lugar, porque achei que era uma bela de uma cantada. Chegou lá, ela falou: 'Filha, é a Globo mesmo. Você quer vir?'. Eu falei: 'Eu vou'. Cheguei lá e estava o Cecil Thiré, diretor do programa. O Jorge Doria, que foi meu pai em uma novela, tinha ido ver o espetáculo e falado para o Cecil Thiré: 'Eu fui ver o Chorus Line e tem a nova estrela do Brasil lá, você tem que ir, ela é uma comediante'. Ao mesmo tempo, o Jô tinha ido e estava escrevendo um quadro para mim, que era o 'Vamos Malhar', e eu não estava sabendo de nada disso. Aí ele me convidou para entrar.

Lidiane (Claudia Raia) em Verão 90 (Divulgação/ TV Globo)
Imagem: Lidiane (Claudia Raia) em Verão 90 (Divulgação/ TV Globo)

Já te convidaram com um quadro sendo escrito. Claudia Raia, que ser abençoado!

Muito. Eu agradeço muito. Tenho na minha memória o Jô, que é uma das pessoas que mais amo nessa vida, tudo que eu sei de comédia, eu aprendi com ele e com os atores dele. Bom, aí eu não estou sabendo de nada e ele me contratou, e eu falei: 'Ok'. Achei que eu era mais uma boazuda do programa de humor, porque assim: mulheres lindas, altas, gostosas, que passavam de biquíni. Eu achei que ia fazer isso. Quando cheguei, me deram uma roupa de malhação e disseram: 'Esse é o teu quadro com o Jô Soares'. E eu falei: 'Oi?'. 'É, você tem um quadro com ele, ele escreveu um quadro para você'.

"Não Fuja da Raia" foi o que mais repercutiu e que você vai ser eternamente lembrada, né? Ali surgiu um grande nome do teatro brasileiro.

Eu acho que sim, porque na verdade eu fui desenterrar um negócio que já estava morto há um tempão e justamente com o Boni, que era meu amigo pessoal e uma das pessoas que eu mais respeito na vida. E ele disse: 'Claudia, você está bem louca, você vai fazer teatro musical, as pessoas não sabem o que é isso aqui, teatro de revista, as pessoas não gostam disso.'

Quem te ensinou a produzir?

Muitas pessoas, vários parceiros e pessoas que foram me ajudando. E minha equipe, que é Fernando Pagan e Magali Helena, que são meus braços direito e esquerdo desde lá. A gente foi aprendendo juntos porque ninguém sabia fazer musical e eu era a única louca que tentava fazer. E aí chamamos Jorge Fernando, Silvio de Abreu, Zé Rodrigues e Olenka Raia, minha irmã, nos juntamos e resolvemos fazer um teatro de revista disfarçado, deu uma liga incrível. A crítica saiu antes de eu estrear, me detonando.

Naquela época a crítica influenciava o público a ponto de a peça ser um fracasso?

Não, foi um sucesso estrondoso, tanto que veio TV americana dizendo "a nova 'Bombshell' do Brasil", as filas do teatro do Procópio Ferreira, em São Paulo, davam voltas na Rua Augusta. Era uma loucura.

Aquela crítica te abalou?

Abalou, eu era uma menina de 21 anos, muito jovem ainda. Falei: 'Gente, como é que a pessoa critica se ela não viu o espetáculo?'. E fui tocando meu barco, porque 20 dias antes de estrear o "Não Fuja da Raia" eu perdi o patrocínio. Ia para a 25 de março pedir 25 metros de veludo, de joelhos. E continuo fazendo isso, tá?

Você fazia isso?

Fazia, eu ia pedir pessoalmente. Dizia: 'Olha, estou produzindo, é a primeira vez, é um show'. E eu ia falando com as pessoas e as pessoas iam me ajudando.

Em nenhum momento você falou: 'Eu sou a Claudia Raia, meu amor, eu não vou para a 25 de Março pedir coisa'?

Amor, eu vou até hoje, tá? Não é que eu ia quando era jovenzinha. Vou, porque fazer teatro é isso, é fazer a muitas mãos. Nunca me subiu à cabeça porque não acredito nisso, não acredito nessa diva, nesse sucesso. Acredito no meu trabalho.

E quando tudo isso passar [quarentena], você acha que o governo vai fazer algum tipo de pacote de incentivo à cultura?

Até agora não temos nenhuma resposta. A importância da cultura, é econômica, sem dúvida. Só em São Paulo, o teatro musical movimentou R$ 1,2 bilhão em 2018 e gerou cerca de 13 mil empregos. Não é brincadeira. Isso é um estudo da FGV (Fundação Getúlio Vargas), não sou eu que estou falando. A cultura tem um papel agregador muito grande, que também se perde em um momento de isolamento. É preciso uma política de pós-quarentena para que as pessoas voltem ao teatro, ao cinema, aos shows, porque não sabemos como será o retorno. Não sei, é preciso acompanhar o aumento do número dos streamings.

Tato Belline/Divulgação
Imagem: Tato Belline/Divulgação

Além de uma recessão econômica, que inevitavelmente vai vir. E quando vier a recessão, meu amor, a cultura é a primeira a ser cortada dos seus gastos, né?

Pois é, e aí eu te pergunto: quando você está em um momento desses na sua casa, o que você faz? Você assiste a um filme, uma minissérie, você ouve uma música. A cultura está em todos os lugares, não é possível um país não ser olhado através da cultura, é a identidade de um país. Embora a gente esteja vivendo um momento muito duro, difícil, com mortes no mundo inteiro. Não sei se você acompanhou, a gente está fazendo um grupo de oração todos os dias às 18h. Eu, a Fernandinha Souza, Bruna Marquezine, Maysa, a gente reza por 1 minuto pelo mundo, pelo planeta, por todas as pessoas que estão doentes, por todas as pessoas que estão saudáveis e que não contraiam esse vírus, enfim, um momento que a gente para 1 minuto das nossas 24h e faz uma oração, juntos.

Esse período faz a gente repensar a humanidade, né, Claudia?

Sim, e repensar também o lado econômico do país, o que a gente quer pra gente. Claro que a economia, se desmoronar, desmorona o país, mas se ficar todo mundo doente, todo mundo morrer, aí não tem nem país mais. É uma loucura porque este equilíbrio tem que ser feito e é muito difícil. Acho que todos nós estamos tateando, a gente não sabe o que vai acontecer, né? Os governantes, está todo mundo perdido, é uma situação muito complicada e ninguém no mundo soube fazer tão bem, porque ninguém saber lidar com isso. É um vírus invisível que pode estar em qualquer lugar e é letal. Então digo e repito: fiquem em casa, pelo amor de Deus.

Leo Dias