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Leo Dias


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Seu Jorge: 'Trabalho para promover o Brasil no mundo inteiro'

Leo Dias

Leo Dias é jornalista e diretor-executivo do "TV Fama", da Rede TV!. Foi correspondente internacional da rádio portuguesa RDP, passou pelas TVs Bandeirantes e RedeTV! e apresentou um programa na rádio FM O Dia, líder de audiência no Rio de Janeiro, onde entrevistava políticos, jogadores de futebol, dirigentes e muitos artistas. Assinou uma coluna de celebridades no jornal "O Dia" e também esteve nos jornais "Extra" e nas revistas "Contigo", "Chiques e Famosos", "Amiga" e "Manchete". Apesar dessa experiência, sempre se definiu como repórter, tamanha paixão pela apuração da notícia e pela vontade em produzir conteúdos exclusivos. Polêmico, controverso e dono de uma forte personalidade, Leo conquistou um público cativo por dar notas explosivas e audaciosas num mundo artístico mais conservador. Seu lema: "A fama tem um preço estou aqui para cobrar".

Colunista do UOL

19/05/2020 04h00

Seu Jorge é uma das grandes expressões da música brasileira no exterior e não se cansa de afirmar que seu trabalho é divulgar seu país no mundo todo. Em uma conversa exclusiva com Leo Dias, o cantor, compositor e ator falou sobre a ascensão do sertanejo no Brasil e sobre a expansão da música popular brasileira.

"Sempre olhei para o Brasil no plural, com muita diversidade polirrítmica, na dança, na arte, no canto, no jeito de ser. Não temos como ficar de costas para o Brasil. O que procuro fazer é promover o Brasil no mundo inteiro. Estou à serviço da música popular brasileira, da arte brasileira de forma geral."

Seu Jorge revelou que para se tornar um artista popular, teve que se afastar da música instrumental: "Era bastante preconceituoso sabe? Achava que nada era melhor do que aquilo, que só aquilo prestava, e que o resto era arte menor. E estava errado com relação a isso, não tenho problema em dizer. Realmente mudei meu pensamento."

O artista falou ainda sobre a live que fará com Alexandre Pires, no dia 31 de maio, às 14h, no YouTube. "O Alexandre é um exímio instrumentista. Como ele é um grande cantor também, as pessoas perderam de ver ele tocando outros instrumentos. Quando ele falou: 'Vamos fazer uma live? Eu e você?', falei: 'Meu irmão, para amanhã!'."

Confira, abaixo, trechos da entrevista.

Seu Jorge - Divulgação - Divulgação
Seu Jorge
Imagem: Divulgação
Leo Dias - A sua história é incrível e é difícil até dizer qual ritmo você toca. Soul, R&B, samba, MPB... Como é que você se define?

Seu Jorge - O Brasil é um país de muita expressão. E tem um povo de muita expressão. A expressão brasileira é essa potência, essa vontade também de se expressar criou essa diversidade, essa pluralidade. Sempre olhei para o Brasil no plural, com muita diversidade polirrítmica, na dança, na arte, no canto, no jeito de ser. Virou um grande caldeirão na minha vida todos os contatos que tive com a música, com a arte brasileira e com as influências que vêm do mundo também. Quando escolhi a música, escolhi pela beleza.

Mas com que idade você chegou para a sua mãe e falou: "Vou viver de música"? E qual foi a reação dela?

Investi mesmo na minha vida já fora de casa, aos 20 anos de idade. Foi quando resolvi mesmo ingressar na profissão. Não na profissão em si, mas na música. Eu não pensava em profissão aos 20 anos, mas me interessava tocar porque isso me levava a grupos diferentes, a pessoas diferentes. Naquela idade era fundamental que algo me alimentasse.

E quando a sua mãe se deu conta de que o Seu Jorge era um expoente, uma referência?

A minha mãe nunca imaginou que eu pudesse vir a ser um artista e até um artista aclamado pelas pessoas. E ela recebe esse carinho também. Ela nunca imaginou isso porque o desafio dela era fazer com que a gente crescesse, se tornasse gente bacana, longe de todo e qualquer constrangimento. E, desde cedo, na minha casa, as coisas eram muito difíceis. Na minha cabeça de filho mais velho, o desgosto era impossível de levar para casa. Só restava levar o orgulho.

Você era o exemplo dos seus irmãos mais novos, né?

É. Para mim, como irmão mais velho, como aquele que estava atravessando a vida adulta antes de todos, era muito claro que qualquer coisa que eu apontasse,meus irmãos seguiriam. Eram todos homens, todos meninos, vivendo em um universo onde a minha mãe criava a gente praticamente sozinha. Meu pai foi muito bacana, foi muito presente, mas eles eram separados.

A presença dele não era tão contínua.

A presença dele tinha uma outra dinâmica, mas a presença do meu pai foi extremamente importante para alguns valores importantes. Mas foi a minha mãe que fez esse trabalho de acompanhamento disciplinar mesmo, de todo dia.

Ela foi rigorosa com você?

Ela foi rigorosa de acordo com o que a vida me exigia, mas a minha mãe nunca foi uma pessoa injusta conosco. Sempre repreendia com muita justiça. Estava certa de repreender. Não teve acessos, mas teve muito discernimento na hora de criar os filhos, porque ela sempre disse: "Quem não sabe criar filho, cria neto".

Tenho feito algumas análises baseadas em estudos de gravadoras, que mostram que o streaming desabou na planilha. Subiu o YouTube, subiu TV, subiu rádio, subiu games, Tik Tok, tudo isso. Você está presente em todas as redes? Você tem notado o seu público mudar?

Desde a revolução digital que se espera essa transformação, e ela tem se dado no surgimento de diversas plataformas, mudando também a forma de comunicar. Aí aumenta o volume de produção e democratiza. Acho que o público teve que se aclimatar à ideia de que vai ter volume. E aí ele pode escolher aquilo que realmente lhe interessa.

Muitos sertanejos dizem de nós, cariocas, estamos de costas para o Brasil. Você olha o Brasil sertanejo, Seu Jorge?

Poxa, não posso estar de costas para o Brasil. Não temos como ficar de costas para o Brasil. Até no meu entendimento, o que procuro fazer é promover o Brasil no mundo inteiro. Extrapolava as fronteiras, era uma coisa para a qual já olhava décadas atrás. Preciso ajudar na soberania da cultura brasileira fora daqui, inclusive. Graças a Deus me sinto muito acolhido no mundo inteiro sob o manto da música popular brasileira, que tantos outros artistas brasileiros honraram. Acho até que essa observação sobre os diversos gêneros da música brasileira dentro do Brasil é muito saudável. Nunca percebemos tantos gêneros diferentes da música popular brasileira.

E aí o mercado percebeu que, nesta pandemia, o consumidor ficou saudosista. Ele não quer saber qual é a música número 1 do Spotify.

Estamos vendo uma transição da geração. A gente vinha com o novo acontecendo o tempo todo, muita coisa surgindo. As pessoas em casa não estão percebendo o novo chegando, o novo não está podendo chegar. Eu, por exemplo, não preciso de nenhuma campanha de marketing para ter o novo disco do Martinho da Vila. Para mim, qualquer coisa que o Martinho da Vila fizer eu vou ouvir. É um cara que vou levar para o resto da vida. O Paulinho da Viola... Estou falando no meu caso. Já cheguei em um momento da minha vida em que sei que sempre vou gostar de arroz, feijão e carne moída. Sabe como é? Não tem nada que hoje vai me influenciar muito, mas o jovem precisa disso, precisa trocar, precisa estar sempre em contato com essa coisa nova. Por isso ele perde mais neste momento da pandemia, em que não pode circular e ver as coisas novas que estão acontecendo.

Seu Jorge - Divulgação - Divulgação
O cantor diz que gostaria de tocar o maior número possível de instrumentos musicais
Imagem: Divulgação

Agora me explica essa live: de onde veio Alexandre Pires e Seu Jorge juntos? Você vai cantar Só pra Contrariar?

Vou, com certeza, lógico! Vou cantar Só pra Contrariar, ele vai cantar Seu Jorge e vamos cantar coisas também legais.

O que inspirou vocês?

A possibilidade de fazer um som diferente, por exemplo. Há coisas de que as pessoas não têm ideia. O Alexandre é um exímio instrumentista. Como ele é um grande cantor também, as pessoas perderam de ver ele tocando outros instrumentos. Então, tem um lado musical nele que muito me interessa.

E quem teve a ideia da live?

Ele colocou isso, e não tive como não achar positivo. Quando ele falou: "Vamos fazer uma live a gente? Eu e você?", falei: "Meu irmão, para amanhã!". [Essa parceria] É um projeto que quero fazer há muito tempo, e o Alexandre é perfeito. Estou botando essa pilha nele. A gente está no embrionário, é cedo para falar sobre isso, mas tenho um negócio para fazer com o Alexandre e a gente vai se divertir bastante. Disso eu sei. A gente está atrás de música da beleza, a gente está a fim de fazer coisas que são belas, que sejam sensoriais, que remetam a um cheiro, a uma época.

Você percebe que a classe mais baixa encara [a pandemia] com mais naturalidade?

Acho que a classe mais baixa não tem o que fazer, já está acostumada a viver com os desafios que lhe cabem todos os dias e este é mais um. Percebo que hoje as pessoas contam muito com a participação de todo o mundo, acho que com solidariedade né? E é legal a gente também utilizar esse encontro para organizar, ou estimular essa união entre o povo brasileiro. A gente poder ajudar aqueles que estão mais necessitados. Porque o povo brasileiro tem esse hábito, tem bom coração, divide um pouquinho do que tem.

O que você está ouvindo nestes dias de pandemia?

Tenho que confessar um lado meu aqui que também é pouco sabido: sou um entusiasta total da música instrumental, amo muito a música instrumental e tive que me afastar da música instrumental durante um tempo da minha vida para poder me tornar um artista popular. Era bastante preconceituoso, achava que nada era melhor do que aquilo, que só aquilo prestava e que o resto era arte menor. E estava errado com relação a isso, não tenho problema nenhum em dizer. Mas tenho um lugar no meu coração para jazz e música instrumental. E no meu momento de intimidade eu ouço esses caras e pratico os instrumentos que gosto de tocar. Tenho uma pretensão boba, uma coisa mais de realização pessoal mesmo, que é tocar o máximo de instrumentos que puder. Então estudo flauta, saxofone, tenho um monte de instrumentos.

A sua convivência com a música é direta né? O tempo todo música na sua vida.

Ah, por que não? Paro um pouquinho para fazer esporte, dar uma corridinha e tal, mas curto também fazer outras coisas. Curto fazer tricô, curto muito tricô e crochê.

O tricô acalma?

Sim, acalma, faz você também pensar em outras coisas.

E quem te ensinou?

Uma tia minha me ensinou. Eu fazia supletivo à noite, tinha 14 para 15 anos e queria ter meu dinheirinho. Aí vendia gravata de tricô, luva, cachecol, gorro. Fazia frio, fazia um dinheirinho ali, entendeu? Outro dia lembrei: há uns dois anos atrás estava em Portugal, entrei em um armarinho, vi várias linhas, agulhas e comprei. Minha mulher, falou: "O que você estava fazendo?". Falei: "Vou fazer um tricôzinho aqui". E fiz um cachecol para ela.

Quem é Seu Jorge hoje no mundo e aonde Seu Jorge quer chegar?

Acho que o mais importante para mim hoje é fazer coisas que conectem a gente com a beleza. Tenho como exemplo o Tom Jobim. Olho para a carreira do Tom e vejo que foi uma coisa toda voltada para a música popular brasileira, para a beleza que ela contém e deixou esse legado, que fala com o público do mundo inteiro e tem de ser preservado. Então, as minhas pretensões são sempre melhorar aquilo que estou fazendo no sentido do inspirado. Porque a maior dificuldade é a inspiração, depois de um certo tempo você cai num mecânico, e não cair nisso é o meu maior compromisso. Me sinto como se fosse um lutador, um cara que vai batalhar por uma coisa, por um lugar legal do que a gente tem, do que a gente conquistou. Preservar aquilo que a gente conquistou, que é tão bonito, essa beleza da música popular brasileira. Estou a serviço da música popular brasileira, da arte brasileira de uma forma geral. Amo fazer cinema.

As pessoas acham que a MPB tem um certo preconceito com algo que é muito mais popular, que é algo que atinge as multidões.

Mas a MPB sigla... Tenho a sensação de que quando fala MBP, falando de uma sigla que acho que foi desenvolvida por meia dúzia sei lá de quem...

Grupo aí de Ipanema e Leblon.

É e que quer dizer que a música de um determinado artista não pode alcançar as camadas mais simples. Acho isso uma bobagem.

Roberto Carlos é MPB, Henrique e Juliano é MPB, Jorge e Mateus é MPB também...

É música popular brasileira, não vejo distinção de ninguém nesse quesito, não. Acho que o que muda dentro da música popular brasileira são os diferentes ritmos, os diferentes sotaques, os diferentes gêneros. Se uma [música] se torna mais popular do que outras, aí quem faz é o público.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Leo Dias