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Mauricio Stycer


Silvio foi indelicado com cantora, mas não dá para dizer que houve racismo

Silvio Santos durante o quadro Quem Você Tira?, do programa de ontem - Reprodução/Twitter
Silvio Santos durante o quadro Quem Você Tira?, do programa de ontem Imagem: Reprodução/Twitter
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

09/12/2019 18h07

Com declarações e gestos machistas, misóginos e, até, com observações de cunho racista, Silvio Santos se tornou alvo de julgamentos pesados e fúria nas redes sociais. As críticas ao apresentador se avolumam já há alguns anos e, mais recentemente, têm aparecido na voz não apenas de fãs anônimos, mas também de figuras conhecidas.

Exemplos recentes não faltam. A indelicadeza com Claudia Leitte no Teleton 2018, o bullying com Maisa diante de Dudu Camargo em 2017, a piada com uma cantora obesa e o comentário ofensivo a uma negra ("Embora sendo a única negra entre as brancas, é bonita") no Teleton 2016... A lista é grande.

Já escrevi mais de uma vez a respeito. Tenho a impressão de que ele apenas reproduz comportamentos e falas que sempre fez, sem atentar para os novos tempos. A brincadeira machista e sem consequências do passado hoje ganhou nome e é inaceitável para muitos. O mesmo vale para comentários sobre aspectos físicos. Ofensas raciais são crime.

Silvio não está disposto ou não é capaz de mudar e não parece preocupado em perder parte do apoio (e da audiência) que sempre teve.

Isso é uma coisa. Outra coisa foi o que ocorreu no seu programa mais recente. Silvio está sendo acusado de racismo por ter ignorado uma votação do público, que escolheu uma cantora negra como a melhor em uma competição, e tomado a decisão de premiar uma outra participante, branca, a quem elogiou a beleza.

Ora, não há nenhuma evidência de racismo nesta cena. Quem assiste ao Programa Silvio Santos com alguma regularidade sabe que ali vigora apenas uma regra, estabelecida já há décadas pelo apresentador: "o programa é meu e eu faço o que eu quiser". Isso está subentendido em todas as atividades e brincadeiras feitas com o auditório, os participantes de quadros e os jurados.

Aliás, essa regra vale para a gestão do SBT. A emissora é do Silvio e ele faz o que bem entende com ela - desde mudar a programação ao seu bel prazer até, para lembrar de um evento célebre, recolocar na Casa dos Artistas um participante que já havia saído.

Antes da decisão que provocou toda esta confusão, Silvio anunciou os critérios que considera corretos para avaliar um calouro num concurso musical. Disse que no rádio e no disco, o ouvinte avalia apenas a voz. "Na televisão, tem outros fatores. É o tipo da mulher, é o tipo da roupa, o tipo do cabelo, a voz, a música escolhida. Então, não é a melhor cantora, é a cantora que hoje está agradando."

Silvio foi indelicado com a cantora escolhida pelo público? Foi, claro. Interrompeu um de seus números. Deu vários sinais de que não gostou dela, apesar da preferência do seu auditório. E premiou com mais dinheiro uma candidata que o público rejeitou. Levou em conta aparência? É bem possível que sim, a julgar pelo que disse antes. Deixou-se levar pela cor da pele das candidatas? Não dá para saber.

É visível a decepção da participante quando o apresentador decide dividir o prêmio que ela entendeu que seria só seu. Mas inferir que ele tomou esta decisão por preconceito racial, na minha opinião, é ir longe demais.

Atualizado em 10/12: A íntegra do quadro exibido no "Programa Silvio Santos" pode ser vista no site da emissora. Tem duração de 20 minutos. O link é este aqui.

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