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Mauricio Stycer


Ele está na dele, sem importunar ninguém. Deixem Renato Aragão em paz!

Renato Aragão também incorpora o Didi em seu perfil no Instagram - Reprodução/Instagram
Renato Aragão também incorpora o Didi em seu perfil no Instagram Imagem: Reprodução/Instagram
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

13/12/2019 05h01

Poucos artistas populares conseguiram alcançar tanto sucesso ao mesmo tempo no cinema e na televisão quanto Renato Aragão. Curiosamente, não conheço nenhuma outra figura do seu patamar que seja objeto de tanta implicância e maledicência.

No dia 17 de maio deste ano fui ao Rio para entrevistá-lo. Peguei o metrô até a Barra e na estação tomei um táxi. Ao dar o endereço, o motorista imediatamente reconheceu o local: "O Renato Aragão mora neste condomínio". Respondi: "Eu sei. Estou indo lá justamente para fazer uma entrevista com ele". Resposta do taxista: "Não o chame de Didi que ele não gosta. Tem que ser 'doutor Renato'." Disse que não acreditava nisso e iria chamar Renato de Didi. "Não faça isso", implorou o taxista.

Gilmar Lopes, do site E-farsas e do programa Fake em Nóis, desconstruiu esta história em 2012 (veja aqui), mas ela permanece sendo propagada, assim como a lenda de que o humorista exigiu a demissão de um manobrista de shopping que queria uma foto com ele, desconstruída em 2014 (veja aqui).

O dia em que aparecer o motorista demitido por chamar o humorista de "seu Didi" e não de "doutor Renato", como supostamente ele exige, vou começar a acreditar nas histórias maldosas que contam a seu respeito. Por ora, prefiro imaginar que são fofocas apenas.

Durante a entrevista, Renato se disse perplexo com os absurdos escritos a seu respeito: "A vida está cheia de maldade. É 1%. Não sei por que eles fazem isso. Não entendo isso. Eles vivem para fazer o mal. Qualquer dia eles vão pegar um troco tão grande e vão se arrepender de ter nascido. Ficar falando mal dos outros, mentindo", lamentou. Contou, a propósito, que encarregou advogados de processarem os autores de calúnias a seu respeito. "Vão pegar uma cadeia boa", espera.

Creio que a imagem de Renato Aragão começou a ganhar contornos negativos no famoso episódio da separação dos Trapalhões, em 1983; ele ficou de um lado enquanto Dedé, Mussum e Zacarias criaram uma outra produtora para fazer os próprios filmes. Neste curto período de briga (eles logo reataram), Renato ficou com a imagem de empresário implacável, que não queria dividir os lucros do negócio com os parceiros.

O fato é que Renato foi o criador do grupo e, como produtor, liderou a realização dos filmes do quarteto e negociou os contratos com a televisão. Sempre teve direito a uma fatia maior do negócio, naturalmente. Mas desconfio que esta situação ajudou a alimentar o mito de que ele seria o vilão da história.

Mesmo quem gosta de Renato Aragão, como Rafael Spaca, eventualmente ajuda a queimar mais um pouco o filme do artista. Spaca é um grande fã de Didi, já escreveu dois livros sobre o trabalho dele e, há algum tempo, decidiu fazer um documentário sobre o gênio dos Trapalhões.

Spaca gravou mais de 60 depoimentos sobre Renato e os Trapalhões (inclusive um meu), mas não conseguiu ouvir Renato Aragão nem Dedé Santana - Zacarias e Mussum, infelizmente, não estão vivos.

Não conheço os motivos que levaram Renato a se recusar a participar do filme, mas desconfio. Em uma mensagem a Spaca, a Renato Aragão Produções informou que "já existe formatação em execução de documentário próprio".

Há muito tempo que o humorista manifesta o desejo de ter o maior controle possível sobre a narrativa de sua vida e obra. Foi o que fez na biografia "Renato Aragão - Do Ceará para o coração do Brasil", de Rodrigo Fonseca. É um livro fraco, insosso, mas é a visão dele sobre a sua própria história.

É sempre bom lembrar que não há nada na lei que impeça alguém de escrever uma biografia não-autorizada de Renato ou fazer um documentário sem a sua autorização. Pode ser necessário autorização (ou recursos financeiros) para o uso de imagens que tenham dono, mas dificuldades deste tipo são rotina na carreira de qualquer documentarista.

Inconformado com a recusa de Renato em colaborar com o seu filme, Spaca tem feito enorme estardalhaço na mídia. Toda semana sai alguma matéria a respeito. Eu mesmo publiquei um texto sobre o documentário, que vai se chamar "Trapalhadas Sem Fim" (veja um teaser aqui). E, ao estar pessoalmente com Renato em maio o questionei a respeito, mas ele fugiu do assunto dizendo que não sabia do filme.

Repito: Spaca tem todo o direito de fazer um filme sobre Renato. Da mesma forma, porém, o artista não tem a menor obrigação de dar entrevista ou colaborar. O documentário vai ficar pior sem a participação de Renato? Talvez. Mas é possível fazer um bom filme sem entrevistá-lo.

Agora em janeiro, dia 13, Renato faz 85 anos. Ele está na dele, se divertindo no Instagram, sem importunar ninguém. Por favor, deixem o cara em paz!

Em tempo: Claro que chamei Renato de Didi várias vezes durante a entrevista e ele retribuiu, falando muito do seu personagem. Veja um trecho abaixo (a conversa completa está aqui):

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