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Mauricio Stycer


Lurdes e Regina Casé ajudam a entender melhor as qualidades de Amor de Mãe

Lurdes (Regina Casé) em cena de "Amor de Mãe" - Divulgação
Lurdes (Regina Casé) em cena de "Amor de Mãe" Imagem: Divulgação
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

16/12/2019 15h49

No futebol, quando se quer enfatizar a importância de um determinado jogador para o seu time, fala-se coisas do tipo: "O Barcelona é Messi e mais dez". Depois de três semanas de "Amor de Mãe", creio que seja possível dizer algo parecido. A novela é Lurdes e mais dez.

A personagem de Regina Casé na trama das 21h parece resumir tudo o que Manuela Dias ambiciona no folhetim. Lurdes é a cidadã/cidadão que entende o tamanho da responsabilidade de comandar uma família de origem humilde num país com características selvagens como o Brasil.

Lurdes é uma Mãe Coragem. Faz o que for preciso pelos filhos, inclusive comete crimes em nome deles. Logo no primeiro capítulo, matou o marido, por acidente, ao saber que ele comercializou um dos filhos com uma traficante de crianças.

No segundo capítulo, muitos anos depois, quando o filho Magno (Juliano Cazarré) lhe conta que, ao defender uma mulher que estava sendo sexualmente atacada, matou um homem por acidente, Lurdes não tem a menor dúvida de dizer para ele não relatar o caso à polícia.

Com enorme instinto de sobrevivência, qualidade essencial para conduzir a sua família, a mãe guerreira diz ao filho, num jorro só:

"Escuta sua mãe: tu não vai na polícia, tu não pode ir na polícia. Não tem ninguém pra dizer que isso que tu tá dizendo é verdade. A gente tem dinheiro pra pagar um advogado? Você tem que pensar na sua filha. Se tu for preso por causa desse acidente, como é que fica a Brenda? A mãe tá lá em coma, agora o pai vai ser preso? Eu não vou deixar você sair daqui."

Ao acreditar ter reencontrado o filho roubado na infância, Lurdes se vê mais uma vez diante do dilema de cometer um crime. Sandro (Humberto Carrão) está cumprindo pena num presídio e ela aceita contrabandear um celular para ele, além de levar um chip para o chefe da facção, fora da cadeia.

Está certa? Não! Lógico que não! Mas Lurdes comove pela lucidez e força do que diz (Manuela Dias), pela forma como é mostrada, sem disfarces (Jose Luiz Villamarin), e pela potência de seus gestos e expressões (Regina Casé).

Lurdes é uma personagem clássica de novela, uma personagem na medida para quem ama novela. A sua vida é um melodrama pesado. As histórias em que se enreda são determinadas por coincidências que só aceitamos porque se trata de um folhetim. As suas emoções são intensas demais. O seu fôlego para estar em tantos lugares ao mesmo tempo (em casa, no trabalho, no hospital com a amiga) só é possível numa história exibida em capítulos ao longo de meses.

Estou sendo muito injusto com os demais personagens ao falar apenas de Lurdes. Mas é que Lurdes ajuda a entender melhor o que "Amor de Mãe" traz de diferente em relação à trama anterior, por exemplo.

O texto de Manuela Dias cumpre o básico (as frases têm início, meio e fim) e é articulado, de maneira que o espectador percebe que a personagem está desenvolvendo um raciocínio. Lurdes eventualmente até se contradiz, mas tem sempre algo a dizer. O espectador até se assusta, mas consegue enxergar como a personagem chegou naquele lugar. A intenção não é chocar, mas envolver quem assiste.

Usando apenas duas câmeras, e recorrendo com mais parcimônia a planos e contraplanos, a direção de Villamarin expõe mais o ator. Exige mais dele. O espectador habituado a ver o protagonista em close, dialogando com um coadjuvante, pode se surpreender um pouco com a câmera um pouco mais afastada, que mostra os dois ao mesmo tempo e oferece um outro tipo de contemplação.

Mas esse exercício, ainda que menos comum em novela, não transforma "Amor de Mãe" em cinema ou série, como alguns têm criticado. Chega a ser preconceituoso enxergar como elitista (e dizer que parece cinema ou série) a preocupação de tentar algo que fuja um pouco do padrão preguiçoso de sempre.

A entrega de Regina Casé em "Amor de Mãe" é uma coisa impressionante. Para quem nos últimos anos construiu uma carreira como apresentadora, esta volta ao lugar do ator mostra não apenas desprendimento como uma paixão mesmo pela arte de interpretar. Há muito tempo a televisão não oferecia uma personagem tão rica vivida com tanta força quanto a Lurdes de Regina Casé.

Em tempo: Prometo voltar em breve para falar de outros aspectos e outros atores e personagens desta bela novela.

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