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Desabafo em Amor de Mãe: "A gente não é gente, não; a gente é sobrevivente"

Lurdes (Regina Casé) e Camila (Jessica Ellen) em cena emocionante de Amor de Mãe - Reprodução
Lurdes (Regina Casé) e Camila (Jessica Ellen) em cena emocionante de Amor de Mãe Imagem: Reprodução
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

14/01/2020 00h22

Uma longa cena, de quase cinco minutos, deixou muita gente com lágrimas nos olhos no capítulo desta segunda-feira (13) de "Amor de Mãe". Foi um diálogo entre Camila (Jessica Ellen) e Lurdes (Regina Casé), no hospital.

A professora estava cansada, assustada e preocupada. Vítima de uma bala no braço durante um tiroteio que alcançou a escola onde dá aula, a jovem descobriu no hospital que está grávida. "Tu vai aguentar! Tu é forte", disse Lurdes, tentando animá-la. Camila, então, fez um longo desabafo:

"O problema é esse. Eu vou sempre ter que ser forte? Sempre? Eu tenho que ser forte porque a gente é pobre e eu quero estudar. Eu tenho que ser forte porque eu sou mulher e pra mulher tudo é mais difícil. Tem que aguentar sempre um babaca olhando pro meu peito ao invés de prestar atenção no que eu tenho a dizer. Eu tenho que ser forte porque eu sou preta e a gente vive num país racista. Eu tenho que ser forte porque eu sou professora, porque eu tentei ajudar meus alunos e levei um tiro. Eu tô cansada, mãe! Eu tô cansada de ser forte, mãe. Eu não vou poder ser fraca nenhum dia?"

Lurdes respondeu também com um longo discurso:

"Olha pra mim. Tu vai ter que ser forte. Tu não pode fraquejar. Ainda não dá pra ser fraca. Nesse mundo que a gente vive, não dá. Eu não guento isso: tudo você tem que ser a melhor, passar em primeiro lugar. Isso me dá raiva. Por que tem quer ser assim? Mas é assim. A gente tem que continuar assim, aproveitando cada chance da vida. Por que tem que estar o tempo todo assim? Porque a gente não é gente, não; a gente é sobrevivente. Ainda mais pra nós, pra mulher, é muito mais difícil. Ainda mais tu, da tua cor. Como eu queria que ninguém te julgasse pela cor da tua pele. Mas ainda não dá. A gente tem que continuar empurrando o mundo, mesmo ele sendo muito pesado... Empurrando para ele mudar. Tu virou uma professora. Tá educando um monte de menino. Pra mudar o mundo. E se a gente for bem forte, a filha desse aí que tá na sua barriga vai poder fraquejar. Por enquanto não dá, não, filha".

O texto de Manuela Dias cumpre a função que o diretor de Teledramaturgia da Globo, Silvio de Abreu, espera de uma novela: emocionar. Mas não faz isso gratuitamente, com truques baratos e absurdos. Tanto o discurso de Camila quanto o de Lurdes são poderosos, falam da realidade de milhões de pessoas e fazem pensar. Não é pouca coisa.

Veja um trecho abaixo:

Mauricio Stycer