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Mauricio Stycer


"O Lado B do BBB": os bastidores do documentário sobre o reality da Globo

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

17/01/2020 05h01

Algumas palavras sobre "O Lado B do BBB", que eu sugeri ao UOL realizar.

Este documentário busca mostrar um aspecto, entre muitos outros possíveis, do BBB: o impacto negativo que provocou sobre a vida de inúmeros participantes. Apresentei a ideia aos entrevistados sempre dizendo que queríamos mostrar "o lado B do BBB".

Nas lembranças de ex-BBBs emergem problemas inesperados, que nunca poderiam ter imaginado que ocorreriam com eles por causa de um programa de televisão. Problemas de saúde, dificuldades profissionais, prejuízos financeiros, processos judiciais, depoimentos na polícia. São tombos variados, com diferentes graus de dor e tristeza, sofridos por pessoas que acreditaram ter ficado famosas e, pior, acharam que a fama só traria benefícios.

Um dos aspectos mais poderosos do BBB é a edição. Diariamente são exibidos ao público um resumo de 30 minutos do que foi captado ao longo de 24 horas por dezenas de câmeras. É a edição que cria a história do programa, realça qualidades e defeitos, orienta o olhar do espectador. A maioria dos participantes sabe disso, mas não avalia o impacto que a edição pode ter em suas trajetórias no programa e em suas vidas. A imagem retratada pela edição fica para sempre.

É impressionante, com todos, a diferença entre expectativa e realidade. O que imaginavam encontrar e o que aconteceu de fato. O sonho de ganhar prêmios, dinheiro e fama e a realidade de ver a vida virada de cabeça para baixo.

É chocante - e triste - ouvir que vários participantes sofreram de depressão e, às vezes, pânico após o programa. É um sinal, creio, desta enorme diferença entre expectativa e realidade. Acho que é a Leka que diz que, se pudesse dar um conselho a si mesma, diria: "Sofra menos".

O préconfinamento é citado por muitos como a antecâmara do inferno. Isolados, sem ter o que fazer, recebendo bebidas alcoólicas, eles são "preparados" para o que virá. É um teste, claro. E há casos de desistência nesta fase. Bambam, do BBB1, só foi chamado depois que alguém desistiu nesta fase.

Outro aspecto muito interessante surge no encerramento do documentário. A grande maioria diz que voltaria a participar do BBB hoje. Os problemas que sofreram, aparentemente, são menores que a vontade de tentar de novo.

Sobre os entrevistados

Fiz uma lista inicial de cerca de 20 ex-BBBs com quem eu gostaria de conversar. Não conseguimos localizar vários. Outros tantos não quiseram falar. A produtora Caroline Monteiro ampliou a lista inicial e tentou outros ex-participantes. Ao final, chegamos a sete entrevistados. Dois deles não entraram no documentário por problemas técnicos, mas falarei nos próximos dias aqui na coluna sobre as entrevistas que deram.

Vagner Lara, o Vavá, achou que estava abafando quando brigou com uma personagem de novela, a Valdirene, vivida por Tatá Werneck, durante uma ação da Globo dentro do BBB14. Não se deu conta que a sua atitude seria ridicularizada. Após sair, Vavá viu que teria que gastar dinheiro para ficar famoso. Diz que a fama prejudicou seu negócio, um bufê de festas infantil. Diz que nunca mais conseguiu namorar ninguém.

Mara Telles, cientista política, professora da UFMG, com livros publicados, foi denunciada por colegas da universidade e enfrenta um duro processo administrativo. É acusada de ter recebido da Globo enquanto trabalhava no serviço público. Mas ela estava de férias na época do BBB18. Mara achava que poderia discutir questões ligadas ao universo feminino no programa, mas teve pouco tempo para isso. Foi a primeira eliminada. Disputou eleições e obteve poucos votos.

A pior acusação que pode haver no BBB é ser chamado de "ator", de não estar sendo real. Aline Dahlen ouviu isso de Bial no BBB14 e reagiu, criticando-o publicamente. Ela diz que o programa arruinou a sua carreira de atriz. Perdeu trabalhos e oportunidades. Aline é uma das participantes que se deu conta, após sair, que a edição do programa apresentou uma visão negativa dela. Saiu como vilã e entende que isso barrou oportunidades comerciais. Surpreendeu-se ao ser chamada para fazer "programas" de cunho sexual.

Sensível, Maria Claudia chorou já no camarim do UOL, antes de começar a entrevista. Tinha 19 anos ao entrar no BBB16. Sofreu horrores lá dentro. Enxergou rejeição por não ser padrão em matéria de corpo e beleza. Vice-campeã, entrou em depressão, teve crises de pânico por dificuldades com a sua imagem corporal. Com tendência a engordar, fez cirurgia até. É um relato dramático. Está terminando um curso de interpretação. Quer ser atriz.

Leka sofria de bulimia ao entrar no BBB1. Não falou sobre isso nas entrevistas de seleção nem o problema foi detectado. A descoberta ocorreu durante o programa. Foi mostrada vomitando e evitando comer. Sofreu muito. Ficou marcada. Como ex-BBB, diz que perdeu trabalhos em TV. Atrizes famosas se recusaram a atuar com ela em novelas. Até hoje, quase 20 anos depois, ainda é lembrada por expor sua bulimia na televisão. Tornou-se empresária.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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