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"BBB não é realidade, é programa de roteiro e edição", diz Rômulo Neves

O diplomata Rômulo Neves durante a sua participação no "BBB17" - Reprodução/Tv Globo
O diplomata Rômulo Neves durante a sua participação no "BBB17" Imagem: Reprodução/Tv Globo
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

28/01/2020 18h24

O diplomata Rômulo Neves foi um dos tipos mais originais a participar de um "BBB". Presente na 17ª edição, ficou marcado pelo "antijogo", por tentar baixar a tensão entre os participantes e evitar os conflitos promovendo um jogo que apelidaram de "Golpinho".

Hoje servindo no Paquistão, o diplomata postou nesta terça-feira (28) em sua conta no Instagram uma imagem divertida da época do confinamento. Junto com a foto, Rômulo fez uma reflexão sobre o reality show da Globo, explicando por que não assiste o programa, apesar de os participantes terem histórias de vida interessantes. "É que não se trata de um programa de realidade, mas sim um programa de roteiro e edição", disse.

Sua reflexão provocou algumas respostas. Uma seguidora considerou que Rômulo estava "cuspindo no prato que comeu". O diplomata respondeu a ela: "Não é porque aceitei participar que tenho de me calar sobre as coisas que realmente considero ruins".

Reproduzo abaixo o texto original de Rômulo, o comentário de sua seguidora e a réplica dele. Vale a leitura:

Rômulo Neves
"Hoje vi uma matéria apresentando os participantes do BBB deste ano. Sempre acho as pessoas interessantes, com histórias de vida variadas, mas não a ponto de eu assistir ao programa. Não que lhes falte interesse, mas é que não se trata de um programa de realidade, mas sim um programa de roteiro e edição. Explico: ninguém dentro da casa recebe roteiro ou dica - as pessoas são reais -, mas o que se vê nas telas é o roteiro editado que a produção do programa imagina ser o mais interessante".

"A verdade é que a vida comum não é muito interessante para a TV: não gostamos de drama, conflito ou insegurança. Pelo contrário, queremos evoluir, queremos paz. Mas isso não serve para o BBB. Por isso nunca havia assistido e dificilmente vou assistir, nem mesmo o que participei. Veja, não julgo nem condeno quem assiste - a maioria das pessoas que está lendo esse texto chegou até mim em razão do programa (e por isso aceitei o convite para participar - para aumentar o alcance do que escrevo). Apenas indicaria outra atividade se me pedissem alguma sugestão. Ficção por ficção, há roteiristas melhores no cinema. Mas compreendo quem se interessa pelo programa - se encarar como uma novela, melhor, para evitar ser enganado e achar que o que se vê é a realidade."

"Mesmo com tudo isso, não me arrependo de ter participado. Ainda hoje sofro críticas de gente 'bem-educada' que condena eu ter saído de uma espécie de pedestal para participar de um programa popular. Certamente seguirei enfrentando essas críticas ao longo da minha vida, mas certamente é uma experiência (não dentro da Casa, mas fora), que me ensinou muito, sobre muitos aspectos do Brasil, de nossa gente, de como ainda somos iludidos. Além disso, não posso negar meu lado divertido. Houve bons momentos, como essa prova vestido de ratinho aí. Além de incontáveis amigos que fiz durante todo o processo. Quando se está vivo e alerta, enxergamos lições em todas as experiências. Abração a quem me segue mesmo depois de três anos. Abração a quem ainda me segue APESAR do BBB."

Uma seguidora de Rômulo, chamada Luma, observou:
"Gosto muito de você, mas discordo parcialmente. A edição conta a história de maneira mais lúdica, realmente. Mas os verdadeiros amantes de BBB, aqueles que votam e escolhem os campeões, tem PPV (pay per view), e por lá, todos sabemos da realidade nua e crua. Por isso nunca vou entender os ex-participastes que criticam tanto a edição do programa. O PPV taí. E não é mais caro como na sua época. Está acessível. Você entrou no programa. Também não consigo entender todo esse discurso com julgador com relação a ele. Você entrou. Decidiu e foi. Não cospe no prato que comeu. Foi pelo BBB que te conheci e foi um prazer."

Rômulo, então, acrescentou:
"Luma, a questão é a seguinte: sim, todos os participantes aceitaram, mas duvido que eles (eu falo por mim) sabiam exatamente como funciona a máquina. Não é porque aceitei participar que tenho de me calar sobre as coisas que realmente considero ruins. Não entendo, realmente, esse argumento. Basta pensar um pouco: se vocêcasa, não pode reclamar se seu cônjuge não for o que disse que era (e olha que são meses de namoro)? Faz sentido isso? Você teria coragem de dizer isso para uma amiga que se separou e desabafa com você dizendo 'meu marido não era o que eu achava que ele era...' Você teria coragem de dizer: 'amiga, você casou porque quis, agora não cuspa no prato que comeu?' Pense nisso."

"Não faz o mínimo sentido exigir que os participantes digam que o BBB é lindo e maravilhoso. Pelo contrário, pode até ser interessante para o público - que acaba gostando do jeito 'lúdico' - mas é muito cruel com as pessoas reais que estão ali, vendo suas pessoas (e não um personagem de teatro) serem deformadas pela edição. O Mauricio Stycer publicou um excelente material com ex-BBBs relatando seus problemas depois que participaram do programa (veja o vídeo abaixo). Recomendo assistir para você, que me parece uma pessoa sensata, não reproduzir essa crueldade."

"Eu não enfrento nenhum desses problemas. No meu caso, o que é importante segue intacto mesmo depois do programa. Eu, como escrevi no texto, não me arrependo de ter participado. Isso não significa que não haja custo, muito menos que o fato de participar tire meu direito de avaliar a experiência. Eu não devo nada para a emissora, nem ela deve a mim. Eu não preciso fazer média com o programa. Tampouco me coloco acima dele. Como escrevi, sei que por conta da visibilidade que ele me deu, minhas ideias podem atingir mais pessoas, como agora com você, mas - repito - isso não tem nada a ver com minha capacidade de avaliar a minha experiência. Aliás, como todos fazemos sempre com tudo que vivemos. Espero que releia o texto com esse pano de fundo: eu (você e todos nós) tenho e sempre terei o direito de avaliar minhas próprias experiências e o que ocorre ao meu redor. Beijos mil."

O lado B do BBB (documentário)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Mauricio Stycer