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Leifert, deixe os participantes se virarem sozinhos, sem ajuda externa

Leifert disse estar preocupado com participantes que estão "jogando a toalha" com cinco dias de programa - Reprodução/TV Globo
Leifert disse estar preocupado com participantes que estão "jogando a toalha" com cinco dias de programa Imagem: Reprodução/TV Globo
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

28/01/2020 05h01

Num reality com poucas regras como o "BBB", a mais essencial é a que proíbe o contato dos participantes confinados com o mundo exterior. É este isolamento que determina tudo - as interações entre eles, os diferentes sentimentos (insegurança, medo, desespero) e as atitudes que tomarão.

O apresentador do programa funciona muitas vezes como um alívio neste isolamento. Faz piadas, dá pistas (muitas vezes falsas) sobre o andamento do jogo, informa sobre provas e votações, anuncia resultados, transmite recados cifrados e joga conversa fora com os participantes. Em tese, é uma figura neutra, que não tem preferências nem torce por ninguém.

Quem acompanha o "BBB" sabe que não é assim que funciona na prática. Tanto Pedro Bial (16 edições) quanto Tiago Leifert (quatro edições), cada um à sua maneira, sempre procuraram imprimir estilos pessoais na relação com os participantes. O segundo, mais que o primeiro, busca estabelecer cumplicidade com os "brothers", se colocando, às vezes, como um jogador e, às vezes, como um técnico deles.

Quando age assim, Leifert provoca um tipo de interferência que quebra o isolamento dos participantes. Ajuda ou prejudica alguns e, pior, expõe questões que eventualmente o público não estava considerando (e é o público que decide quem fica e quem sai do jogo).

Nesta segunda-feira (27), o apresentador mais uma vez fez isso. Depois de ouvir participantes do grupo Pipoca registrarem que não têm chance de vencer o programa por causa dos fã-clubes dos famosos, Leifert disse: "Tô preocupado. Andei assistindo... E, cara, tem gente jogando a toalha com cinco dias de programa! Jura por Deus?"

Provocando, ironizou: "Se quiser sair, a gente troca. Não tem problema nenhum. Se eu perguntar agora: quer entrar no Big Brother? Vai ter uma fila dando a volta nos Estúdios Globo?"

Em seguida, tentando animá-los, disse: "Hadson vem do futebol, como eu: dá pra determinar o time campeão na primeira rodada do Campeonato Brasileiro, faltando outras 37? Impossível." Fingindo choramingar, voltou a provocar os participantes desanimados: "Ah, não vai dar pra mim. Não vou conseguir, perdi..."

E encerrou dizendo: "Só estou aqui para lembrá-los que mal começou. Mal começou. Vocês viram a quantidade de reviravoltas que pode acontecer num domingo à noite!".

No final das contas, pareceu mais uma reclamação do que um incentivo. Além de mal-ajambrado, o texto de Leifert dá informações demais aos participantes e alerta os espectadores para uma fragilidade interna que muitos, no sofá, não estavam vendo.

Qual é o problema se alguém desistir? Por que Leifert deve estimular os que estão desanimados? Como observou o colunista Chico Barney, o apresentador age como um "coach motivacional", uma função que mais atrapalha do que ajuda. Deixe que eles se virem sozinhos!

Mauricio Stycer