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Mauricio Stycer


Globo foge da polêmica e não fala do "Messias de arma na mão" da Mangueira

A comissão de frente da Mangueira desfila na Sapucaí - Júlio César Guimarães/UOL
A comissão de frente da Mangueira desfila na Sapucaí Imagem: Júlio César Guimarães/UOL
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

24/02/2020 02h29

Terceira escola a entrar neste domingo na Sapucaí, a Mangueira defendeu o título conquistado em 2019 com uma mensagem forte, repleta de conexões com os dias atuais. O samba-enredo "A Verdade vos Fará Livre" narrou a trajetória de Cristo fazendo uma crítica que, na visão de muitos, dirigia-se ao presidente Jair Bolsonaro, à mistura de religião com política e a quem manifesta intolerância religiosa.

O mote da escola foi um Cristo "da gente", com "rosto negro, sangue índio, corpo de mulher", que passa por agruras e se pergunta se a sua mensagem é compreendida. Versos falam de "opressão" e "profetas da intolerância". No trecho mais forte, a Mangueira cantou: "Favela, pega a visão/ Não tem futuro sem partilha/Nem Messias de arma na mão".

A transmissão da Globo, comandada por Alex Escobar e Fátima Bernardes, foi bem contida na interpretação deste desfile da escola. Em momento algum mencionaram os versos mais polêmicos, nem mesmo para dizer que, segundo os autores, não é uma referência a Bolsonaro.

A presença de Humberto Carrão, um ator da Globo, no papel do Cristo revoltado com o comércio da fé, também não estimulou a equipe da emissora no Carnaval a algum comentário mais ousado. O trio se limitou a descrever o sentido histórico da mensagem.

Após o desfile, entrevistado por Fátima no estúdio da emissora, Carrão até tentou trazer o assunto a baila, fazendo uma ironia sobre o que representou na avenida: "Muita gente usando da fé como projeto de poder, coisa que a gente vê pouco hoje em dia." Mas a apresentadora não deu conversa e partiu para outra entrevista.

É verdade que Escobar, Fatima e Milton Cunha fizeram menções ao teor feminista do desfile - um dos Cristos foi representado por uma mulher, a rainha da bateria Evelyn Bastos, e o samba dizia que "Minha mãe é Maria das Dores Brasil". Também enxergaram, porque era impossível não ver, as conexões com a realidade propostas pela comissão de frente.

A equipe também falou da atualidade da ala "Bandido Bom é Bandido Morto", que retratou as principais vítimas da violência no Brasil, jovens pobres e negros, assim como o carro "O Calvário", que trouxe como destaque um jovem crucificado de cabelo platinado.

Diante de uma transmissão tímida, aquém da força do que foi visto pelo público, os versos da Mangueira parecem proféticos: "Mas será que todo povo entendeu o meu recado? / Porque de novo cravejaram o meu corpo / Os profetas da intolerância /Sem saber que a esperança /Brilha mais que a escuridão".

Mangueira alfineta Bolsonaro em desfile

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