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Mauricio Stycer


Manuela Dias coloca na boca de Penha a frase que explica "Amor de Mãe"

Penha (Clarissa Pinheiro) diz a Magno (Juliano Cazarré) que "todo mundo tem o seu telhado de vidro" - Reprodução / TV
Penha (Clarissa Pinheiro) diz a Magno (Juliano Cazarré) que "todo mundo tem o seu telhado de vidro" Imagem: Reprodução / TV
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

28/02/2020 12h12

Exibidos 82 capítulos, "Amor de Mãe" tem cumprido rigorosamente o que autora e diretor prometeram antes da estreia. Observações em grupos de discussão ou intervenções da cúpula da Globo podem ter levado Manuela Dias e Jose Luiz Villamarim a acrescentarem elementos não previstos, mas o princípio geral da novela não mudou.

"O vilão é a vida", informou a autora antes de "Amor de Mãe" ir ao ar. "Esse é um princípio da dramaturgia da novela. Ela não tem vilão. Gosto de personagens pluridimensionais. É difícil você dizer que os personagens desta novela são totalmente bons ou totalmente maus. Não tem nenhum. Todos têm nuances, tem complexidades", observou.

"Assim, além da maternidade, da questão da estratificação social, a novela fala muito sobre isso, sobre pessoas muito boas que também cometem erros horríveis. As minhas três protagonistas cometeram erros horríveis. A gente vai descobrir ao longo da novela. E isso não faz com que elas deixem de ser boas", disse Manuela.

A trajetória de Thelma (Adriana Esteves), uma das três protagonistas, talvez seja o melhor exemplo disso. Peça a peça, a autora está montando o quebra-cabeças que levará à descoberta de que Danilo (Chay Suede), o filho a quem ela dedica a vida, na verdade é Domênico, o filho perdido de Lurdes (Regina Casé). Para preservar este segredo, Thelma será capaz até de matar.

Ora, Lurdes também já matou, como vimos no primeiro capítulo. No caso, o marido Jandir (Daniel), que vendeu o próprio filho, Domênico, para comprar cachaça. O atenuante é que não foi um crime intencional, pois ocorreu em meio a uma briga, em que ela confrontou o marido pelo ato.

Por fim, Vitória (Tais Araujo), a terceira protagonista, ainda não matou ninguém, até onde sabemos, mas escondeu do então namorado Raul (Murilo Benício) que estava grávida e deu o filho Sandro (Humberto Carrão), recém-nascido, para uma criminosa, Katia (Vera Holtz), vendê-lo a um casal de estrangeiros.

Em uma cena esta semana, exibida no capítulo de segunda-feira (24), Manuela Dias "desenhou" mais uma vez este princípio geral que move "Amor de Mãe". Deu-se num diálogo tenso entre Penha (Clarissa Pinheiro) e Magno (Juliano Cazarré).

Como sabemos, a ex-mulher do policial Wesley (Dan Ferreira) se apaixonou pelo homem que o matou, o policial corrupto Belizário (Tuca Andrada). Uma virada novelesca, mas plausível. Tornou-se criminosa. Ao levar uma bronca de Magno por tratar mal um frentista no posto de gasolina onde ele trabalha, Penha resolveu desabafar.

Primeiro, revelou que foi Leila (Arieta Corrêa), a própria mulher de Magno, que o denunciou anonimamente à polícia pelo homicídio de Genilson (Paulo Gabriel). "Não é possível. A Leila não tem nem como saber da minha briga com Genilson", disse ele. "Sabia, sim, porque fui eu que contei", respondeu Penha.

É neste momento, então, que a personagem explica mais uma vez o princípio geral que move "Amor de Mãe":

"Ah, Magno... Vê como é difícil? Não dá para julgar a vida dos outros. Eu me apaixonei pelo Belizário, você quase matou um cara, a Leila te denunciou pra polícia. Se for pensar bem, né, todo mundo tem o seu telhado de vidro."

Numa época em que novela que faz sucesso é aquela que aposta na simplicidade total, em personagens idiotas, sem coerência, que agem movidos apenas pelo objetivo de chocar o espectador, é importante destacar este esforço de Manuela Dias. Mostra que ainda é possível fazer uma novela adulta, na qual os personagens não são simples, óbvios e previsíveis.

Mauricio Stycer