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Jornalismo bem feito abriu o caso e levou à condenação de Harvey Weinstein

Harvey Weinstein ao chegar no tribunal de Manhattan - TIMOTHY A. CLARY / AFP - 22/01/2020
Harvey Weinstein ao chegar no tribunal de Manhattan Imagem: TIMOTHY A. CLARY / AFP - 22/01/2020
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

11/03/2020 17h28

O caso Harvey Weinstein é um marco na luta das mulheres contra o assédio no ambiente de trabalho. O ex-produtor, que por anos foi uma das figuras mais poderosas da indústria de cinema americano, foi condenado nesta quarta-feira a 23 anos de prisão por dois casos de estupro e assédio sexual.

A derrocada de Weinstein premia a coragem de dezenas de mulheres que resolveram se expor e detalhar as práticas do produtor. Atrizes, produtoras e funcionárias, algumas de forma anônima, outras com a cara lavada, deram depoimentos mostrando o lado sombrio e agressivo de Weinstein.

O jornalismo deu uma contribuição importante neste caso. Weinstein viu a sua vida mudar após duas séries de reportagens, do jornal "The New York Times e da revista "The New Yorker", apresentarem elementos consistentes sobre a sua conduta.

É muito difícil comprovar assédio sexual. Os jornalistas que publicaram as primeiras matérias com denúncias sobre Weinstein, em 2017, descrevem em dois livros como conseguiram fazer isso.

As duas obras mostram como uma investigação jornalística feita com rigor e cuidado, ao longo de meses (!), pode ser importante na revelação de um drama deste tamanho, que culminou com a condenação do produtor.

Jodi Kantor e Megan Twohey, autoras de "Ela Disse" (ed. Companhia das Letras), publicaram a primeira grande reportagem sobre o caso em 5 de outubro de 2017. No livro, elas relatam a dificuldade em confirmar as acusações (as mulheres, naturalmente, têm medo do impacto que a exposição pode causar em suas vidas) e descrevem como solucionaram o caso.

Com dificuldade para obter provas dos abusos de Weinstein, elas se dedicam a demonstrar que a empresa do produtor fez mais de uma dezena de acordos de indenização com funcionárias ou atrizes assegurando confidencialidade dos casos. As ocultações revelavam as denúncias, ensinam.

Já Ronan Farrow, autor de "Operação Abafa" (ed. Todavia), publicou a sua primeira matéria sobre o caso cinco dias depois, em 10 de outubro de 2017. No livro ele relata como os seus chefes na emissora em que trabalhava na época, a NBC, tentaram abafar a reportagem após serem pressionados por Weinstein. Filho da atriz Mia Farrow, Ronan conta que levou, então, o seu trabalho para um outro veículo, a revista "New Yorker", e conseguiu publicar a história.

O repórter não esconde que o fato de ser filho da famosa atriz o ajudou a conquistar a confiança de algumas mulheres que resolveram falar. O livro de Ronan também mostra a importância do apoio das chefias no trabalho jornalístico - uma, tentou engavetar a apuração; a outra, o estimulou a descobrir mais fatos.

Tanto Jodi Kantor e Megan Twohey quanto Ronan Farrow levaram meses apurando o caso Weinstein com paciência, rigor e coragem, checando e confrontando informações, avaliando a veracidade das acusações e coletando provas. Trabalho muito sério, que prova a importância do investimento em jornalismo e reportagem.

Mauricio Stycer