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Quadro da CNN que popularizou Gabriela Prioli é uma caricatura de debate

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

30/03/2020 14h44

Gabriela Prioli precisou de apenas dez participações na CNN Brasil para conquistar um grande fã-clube. Articulada, a advogada criminalista demonstrou muita clareza na exposição de seus argumentos no quadro "O Grande Debate", exibido de segunda a sexta, desde a estreia do canal há duas semanas.

Neste domingo (29), em uma mensagem em seus perfis nas redes sociais, ela anunciou que estava se desligando do canal. Dizendo-se "constrangida" com os debates, ela lamentou: "Em mais de uma oportunidade tive que me posicionar cobrando respeito ao meu espaço de fala".

E criticou: "Não posso legitimar que o achismo seja equiparado ao conhecimento científico nem contribuir para acirrar a polarização".

A CNN Brasil aceitou a sua saída do quadro e anunciou novos participantes para a atração, mas disse que espera decidir a situação da advogada no canal ainda esta semana.

Copiado da CNN americana, o quadro "O Grande Debate" exibe o confronto de dois comentaristas com opiniões radicalmente opostas sob a mediação de um apresentador supostamente neutro.

A intenção do quadro é demonstrar ao espectador que o canal contempla a diversidade de opiniões num país polarizado politicamente como o Brasil.

O resultado, porém, até o momento, tem beirado a caricatura. E um dos motivos é a dificuldade de encontrar defensores de posições extremadas que consigam argumentar com alguma lucidez.

O jornalista Otavio Frias Filho (1957-2018) disse certa vez, falando sobre debates eleitorais, que eles "se baseiam numa fantasia da razão: a de que governa melhor aquele que discute melhor".

A reflexão vale, também, para os "duelos" no "Grande Debate". O programa não valoriza o que é dito, mas sim capacidade de argumentar, de expressar melhor os seus pontos de vista numa embalagem mais clara do que os do adversário. É um duelo retórico, que muito dificilmente vai mudar a opinião de algum espectador - serve apenas para vermos que há visões radicalmente diferentes sobre qualquer assunto.

Gabriela Prioli e Caio Coppola, que participou inicialmente, nunca chegaram a produzir debates realmente interessantes. Porque nunca importou saber quem tinha os melhores argumentos - ambos estavam ali apenas para agradar quem pensava igual a eles.

Após o afastamento de Coppola , a CNN Brasil escalou Tomé Abduch, porta-voz do movimento Nas Ruas. Dada a falta de sutileza do comentarista, a impressão de que o debate era um simulacro se tornou ainda maior.

O Porta dos Fundos expressou, num vídeo de humor, como este tipo de debate pode cair no ridículo com facilidade. Veja abaixo:

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