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Recorde de 1,5 bilhão de votos tem pouco ou nada a ver com Prior e Manu

Manu venceu Prior no paredão com maior votação da história do BBB  - Reprodução/TV Globo
Manu venceu Prior no paredão com maior votação da história do BBB Imagem: Reprodução/TV Globo
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

31/03/2020 23h59

Boninho e sua equipe, claro, têm muitos méritos. O "BBB 20" é uma das melhores edições da história. Mas isso não justifica um paredão com mais de 1,5 bilhão de votos.

A disputa entre Manu, a fada sensata, e Prior, El Mago, diz muito mais sobre esta distopia que estamos vivendo no Brasil do que sobre o reality show.

Prior versus Manu entrou para a história do "BBB" por uma confluência astral e uma mistura de interesses que vai muito além do que sonhou o holandês John de Mol, criador do formato.

O tema do machismo, presente nas primeiras três semanas do "BBB 20", foi muito bem apropriado por um tipo aguerrido de espectador, com presença maior nos últimos anos. É o que enxerga o reality show da Globo como uma arena política.

Não à toa, dos nove primeiros eliminados, oito foram homens. Um massacre.

Prior sobreviveu, em parte, porque nunca, de fato, ultrapassou alguns limites. Fez comentários grosseiros, sim, elevou a voz além do civilizado algumas vezes, mas nunca assediou nem colocou nenhuma mulher contra a parede no reality.

Some-se a isso a amizade que construiu com Babu, um tipo mais sábio e maduro que ele. E também porque o arquiteto, na visão de quem enxerga o "BBB" como um entretenimento, é um sujeito engraçado, divertido e atrapalhado.

Manu, de repente, se tornou um símbolo de algo que ultrapassa a sua dimensão de figura pública - uma jovem cantora e atriz, que admiro pela forma como exerce a autoironia.

De forma alheia a sua vontade, ela encarnou neste paredão aquela que iria vingar a sede de justiça do público que não tolera o machismo. Não são apenas fãs, mas toda uma turma com vontade de dizer "não" ao que Prior supostamente representa.

Este tipo de embate com tonalidade política já ocorreu mais de uma vez nesta edição e em outras do programa.

Mas agora há uma novidade. O isolamento forçado do brasileiro, por causa da pandemia de coronavírus, transformou o "BBB 20" no único programa de entretenimento ao vivo no ar. Na contramão das reprises de novela, dos "melhores momentos" de programas de auditório, da falta de futebol e dos filmes já exibidos dezenas de vezes, o reality da Globo representou um sopro de ar fresco na TV.

Isso trouxe outros públicos para o "BBB20". Vieram os jogadores de futebol e os fãs do esporte. Vieram militantes políticos que sempre manifestaram desdém por este tipo de entretenimento. Vieram oportunistas. Vieram os sem nada melhor para fazer à noite em casa.

Para muitos brasileiros, votar em Prior ou Manu foi equivalente a bater panela na janela, gritar contra esta quarentena forçada, contra o medo de ficar doente, contra o mau humor, contra ou a favor do presidente. Prior e Manu têm pouco ou nada a ver com isso.

O lado B do BBB

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