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Acaso ou planejamento? Como o "BBB 20" consagrou o poder das mulheres

Rafa Kalimann, Manu Gavassi e Thelma Assis, as finalistas do BBB 20  - Reprodução / Internet
Rafa Kalimann, Manu Gavassi e Thelma Assis, as finalistas do BBB 20 Imagem: Reprodução / Internet
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

26/04/2020 00h59

"Essa temporada tem que ser de uma menina. Não tem jeito. Essa é a história da temporada", disse Tiago Leifert consolando Babu Santana após anunciar o resultado do paredão que definiu a final do "BBB 20" entre Manu, Rafa e Thelma.

A observação do apresentador pode ser lida de duas maneiras. A mais simples é que se trata de uma conclusão sobre o que foi a edição. A mais complexa é que foi resultado de algum planejamento.

Vou tentar explicar por que acho que o tema do feminismo foi pensado antes e durante o programa como uma das narrativas que poderiam ser desenvolvidas dentro do "BBB 20".

Em primeiro lugar, basta ver o perfil semelhante dos homens escolhidos. Não à toa, seis dos dez participantes (Chumbo, Petrix, Hadson, Lucas, Guilherme e Prior) fizeram comentários machistas nos primeiros dias do programa.

Entre as mulheres, havia duas médicas (Thelma e Marcela), uma advogada (Gizelly) e uma cantora (Manu) muito bem esclarecidas, além de uma influenciadora digital politicamente correta (Rafa).

Deu match, quer dizer, deu conflito, claro.

Com dez dias de programa, Petrix foi advertido pelo seu comportamento inconveniente com Bianca e Flay. E no 20º dia, Pyong foi advertido por tentar beijar Marcela contra a vontade dela e apalpar Flayslane.

As ações do "BBB" contra Petrix e Pyong foram divulgadas para o público e tiveram caráter educativo. Era a Globo dizendo que, em 2020, todo machismo seria condenado - coisa que a emissora não fez, com tanta contundência, em nenhuma outra edição (Marcos Harter só foi eliminado do BBB 17 porque a polícia se meteu na história).

Entre uma advertência e outra, Daniel e Ivy entraram no "BBB 20" após alguns dias numa jaula envidraçada em um shopping. Chegaram e contaram para as mulheres que o público estava indignado com o machismo dos rapazes.

Por que a Globo deixou os participantes da Casa de Vidro receberem tanta informação? Seria muito fácil proibir a exibição de cartazes no shopping. Ou por que Daniel e Ivy não foram proibidos, sob ameaça de expulsão, de contarem o que ouviram no shopping?

Foram eliminados, na sequência, Chumbo, Petrix, Hadson, Lucas, Bianca (que se aliou a alguns dos rapazes) e Guilherme. Após a eliminação do terceiro, Leifert disse aos participantes: "O jogo anda. Pode ser que ele continue por mais duas ou três semanas, mas tem outras coisas acontecendo que você não tá nem vendo".

"E talvez tenha outras histórias surgindo e você pode ser atropelado por essa história a qualquer momento se você ficar se prendendo numa só", disse o apresentador. Era uma sugestão/pedido que o assunto fosse mudado. Mas não foi.

Prior e Babu foram cobrados até o final de suas participações pela associação com os demais rapazes do grupo dos machistas. Com condescendência, Manu, Rafa e Ivy falaram algumas vezes, nas últimas semanas, que o ator "melhorou" em relação ao início do jogo. Parte do público, creio, também avaliou Babu por este ângulo.

Em resumo, a reinvenção do "BBB" incluiu, claro, a necessidade de reconectar o espectador com uma mensagem positiva vindo dos participantes. E essa mensagem foi a luta das mulheres, mais do que justa, por respeito e igualdade, e contra a violência e o assédio.

A final entre Manu, Rafa e Thelma consagra esta ambição do "BBB 20".

Mauricio Stycer