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Afastado da Globo, Aguinaldo Silva escreve série e avisa: "vou voltar"

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

27/04/2020 07h01

Poucos meses depois de a Globo dispensá-lo, encerrando uma relação profissional de 41 anos, Aguinaldo Silva está sereno. Ele encara o fim do seu contrato com a emissora como algo normal numa relação entre empresa e funcionário. Está desenvolvendo uma série, não diz para quem, mas confiante que o seu trabalho voltará às telas. "Eu quero voltar. Não por uma questão pessoal, mas porque não sei viver sem isso. Sem produzir e sem ver, produzido, o meu trabalho. Então eu vou voltar de alguma maneira", promete.

Aguinaldo conversou com o UOL na manhã da última sexta-feira (17), por videoconferência. Revelou, com humor, que considerou "deselegante" a nota divulgada pela Globo sobre a sua saída por causa de um detalhe: "Eu ganhei dois Emmy e ela disse que só tinha ganhado um".

Na entrevista, Aguinaldo comenta como está vendo a reapresentação de "Fina Estampa", fala sobre a sua preferência, hoje, por novelas mais curtas, conta o que está assistindo na TV, relata que a experiência da quarentena não é muito diferente da que vivia como autor e diz por que não pensa em escrever sobre a atual realidade do país.

Você pode assistir a entrevista no vídeo acima ou ler a transcrição dos principais trechos abaixo:

Qual foi a sua reação ao saber que Fina Estampa foi escolhida para resolver um problema emergencial da Globo, em março?
Aguinaldo Silva
: Olha, eu fiquei muito feliz, não vou dizer que não. Era um momento de urgência, do ponto de vista da empresa. Precisava ser resolvido da melhor maneira possível, levando em conta as limitações, inclusive de tempo, já que as gravações da novela que estava no ar tinham sido interrompidas. E aí, quando eu percebi que era a minha novela, confesso a você que fiquei muito feliz, porque fazia menos de um mês que eu tinha sido afastado da emissora e, de certa forma, eu voltei. Ainda que simbolicamente eu continuo no ar. Isso foi muito bom para mim, foi muito gratificante. Mas foi muito bom também por "Fina Estampa" é uma das minhas novelas que eu mais gosto.

Por quê?
Porque ela tem uma linguagem muito popular. Ela é um melodrama como toda novela, mas ela tem uma linguagem muito popular. Ela antecipava temas que depois foram explorados em outras novelas com mais propriedade.

Lembro quando "Fina Estampa" foi ao ar originalmente, você disse que aquela situação descrita na Barra da Tijuca, na verdade, era uma cidade do interior, como em quase todas as suas novelas.
Eu sempre uso este truque, eu sempre estou na minha cidadezinha. Eu reduzo muito o ambiente dos meus personagens para que eles fiquem mais próximos e para que a história corra mais livremente. Então, por exemplo, se cada personagem de "Fina Estampa" morasse em um bairro diferente do Rio de Janeiro seria mais difícil você fazer com que eles se encontrassem. Você localizando todos eles num mesmo núcleo, no mesmo ponto geográfico, faz com que as histórias se cruzem com mais facilidade.

Você elogiou os cortes que a novela está sofrendo. Você ficou com a sensação que a novela melhorou. É isso mesmo?
Exatamente. Eu sempre achei que o grande problema da novela é que ela tem que ser reiterativa. Ou seja, como ela tem 180, 200 capítulos, você tem que repetir, lembrar o telespectador que aconteceu, para que ele não perca o fio da história. Quando você reduz o número de capítulos, você consegue fazer com que a história se torne mais intensa, menos repetitiva. E isso só enriquece o gênero. Claro que a gente sabe que é difícil fazer isso, porque a novela é um produto que se sustenta a longo prazo. Sustenta e dá lucro. Se você faz a novela mais curta, ela certamente dará menos lucro ou não dará. E o objetivo é esse: dar audiência e lucro. Mas eu acho que se você reduzir o número de personagens e reduzir o número de cenas, você pode fazer uma novela de 60, 80 capítulos e ela terá a intensidade de uma série. Isso é muito bom para a novela. É muito bom para o gênero e é muito bom para quem produz a novela.

Quando a Globo anunciou a não renovação do seu contrato, minha colega Cristina Padiglione escreveu que "a Globo atropelou a elegância de praxe ao anunciar sua saída num comunicado só de três linhas". Você concorda? Como você viu aquele momento?
Olha, eu tenho a impressão que era um problema contratual. Meu contrato acabava um mês depois e eu tenho impressão que se (a empresa) não me comunicasse que não estava mais interessada em renovar o contrato, automaticamente, num determinado prazo, ele seria prorrogado por mais um ano. Acho que o que aconteceu foi isso. Acho que a nota realmente foi deselegante, principalmente porque a emissora me escamoteou um Emmy. Eu ganhei dois e ela disse que eu só tinha ganhado um. A única coisa que me deixou triste foi isso.

Falou só de "Império", né?
É. "Império", quando na verdade eu ganhei dois (ganhou também por Laços de Sangue, uma co-produção da Globo com a SIC, em Portugal). Mas eu acho que a relação entre empresa e funcionário, empregado, é sempre assim. É isenta de sentimentalismo. Então, confesso que não fiquei ofendido. Durante 41 anos foi uma relação maravilhosa. Eu dei muito para a emissora e a emissora, também me deu muito, não posso negar. Ou seja, nós dois, empresa e funcionário, saímos no lucro. Foi ótimo.

Como é que está esse período de quarentena? Como você está enfrentando isso?
É muito engraçado, porque eu cheguei à conclusão que eu passei boa parte da minha vida de quarentena. Eu escrevi 14 novelas durante 30 e poucos anos. Então eu sempre vivi trancado em casa. Porque para você escrever uma novela, você precisa se concentrar totalmente. Inclusive, você deixa de ter sua vida pessoal, sua vida privada, você deixa de ter suas relações. Porque elas são menos importantes que a novela. Depois de tantos anos, eu me acostumei a viver na quarentena. Ou seja, trancado em casa, escrevendo e escrevendo. É exatamente o que estou fazendo agora. A diferença é que de vez em quando eu dava uma fugidinha pro shopping e agora não posso, o que é terrível. Mas eu já estava acostumado a ficar isolado. Então não foi um grande problema pra mim. O problema é que a gente se sente inseguro e ameaçado.

E essa quarentena, quando você faz uma novela, dura um ano praticamente.
Eu sempre digo que quando você está escrevendo uma novela, as únicas pessoas que contam para o autor são os personagens. Os personagens estão na tua casa o tempo inteiro, convivendo contigo. Você fica o tempo inteiro pensando neles, conversando com eles e aí os seus amigos vão todos embora, as suas relações fracassam por causa disso. Até que um dia você acaba a novela e descobre que as personagens foram todos embora e você está sozinho de novo, e tem que recomeçar. Essa é a vida de um novelista, é uma eterna quarentena.

Nessa manhã em que a gente está conversando, o país está em polvorosa, não apenas com a pandemia, mas com uma crise política enorme. Essa situação que a gente está vivendo, ela te inspira em termos de dramaturgia?
Não. Eu acho que a gente vive já há alguns anos, não é de agora, uma situação política que em termos de criatividade, entre aspas, ultrapassa em muito a ficção. É uma coisa impressionante. Seria difícil escrever sobre isso, porque tudo o que você criar na sua cabeça doentia de ficcionista, as pessoas viram pior na vida real. Então isso não me inspira, não. Tenho pensado em histórias que vem do passado. Acho que a gente consegue dizer mais coisas se a gente voltar um pouco para trás, no passado, e ver como é que a gente acabou chegando aqui.

Você pode falar um pouquinho de projetos, planos.. O que você está pensando, está escrevendo já alguma coisa? Tem alguma coisa encomendada? Ou você está escrevendo por conta própria?
Eu sou gatilho de aluguel. Eu escrevo minhas coisas, minhas peças de teatro, minhas coisas pessoais. Mas quando se trata de roteiros, eu sou gatilho de aluguel. Eu só consigo escrever se tenho um prazo e tem uma encomenda. Eu não escrevo para me divertir. Roteiros, eu digo. O resto sim. Quando o comunicado do meu afastamento foi divulgado, claro, eu imediatamente fui procurado por várias pessoas interessadas no meu trabalho. E eu resolvi dar um tempo. Esperei um mês que as coisas se acalmassem, e as coisas não se acalmam nunca, não em relação a mim, mas ao país. E aí eu comecei a conversar sobre essas possibilidades futuras. Eu não vou falar sobre elas porque não são oficiais. Nada está concretizado ainda e eu estou indeciso entre algumas delas sobre qual será melhor para mim.

Bacana..
Mas isso inclui já a apresentação de um trabalho. O que essas pessoas todas querem é: "mostre o você tem, mostre as suas joias". E aí eu realmente estou trabalhando num projeto que me agradou mais, que na verdade é um projeto antigo, porque aconteceu o seguinte. Como sou um trabalhador compulsivo, no intervalo entre uma novela e outra eu sempre fazia alguma coisa relacionada com roteiros e guardava para mim. Nem tudo o que eu fiz, eu apresentei às pessoas para quem eu trabalhava. Então, eu tenho muita coisa guardada. Eu tenho os meus tesouros.

Eu erro se falar que o que você está pensando alguma coisa mais perto de uma série?
Sim. Por enquanto, uma série. Existe também a possibilidade de uma novela curta, ou seja, com 60, 80 capítulos. Mas o que eu estou trabalhando mesmo nesse momento é uma série. Eu estou trabalhando, veja bem, por minha conta, mas com a previsão de que uma vez pronto este trabalho alguém vai ler, vai examinar, vai decidir se vale a pena produzir ou não.

Você tem assistido outras coisas? Séries? Você tem visto coisas interessantes?
Tenho visto coisas muito interessantes. Eu vi esta semana um filme que todo mundo estava recomendando, "O Milagre na Cela 7". É um filme turco. Fiquei impressionado porque é um filme político, mas toda a situação política transcorre atrás do melodrama. Então ele não é panfletário. É um filme que você se emociona, você torce pelas pessoas certas. Também tenho visto série. Revi "Sopranos", também revi "Sex and the City", achei o máximo, continua ótimo. E vejo séries novas. Anteontem comecei a ver "Ozark", a terceira temporada. Adoro também. Acho que o futuro da televisão, realmente, está nos seriados. Eles se apossaram muito da linguagem da telenovela, não há a menor dúvida. Eles têm "breaks", tem ganchos. E isso eles apreenderam vendo o que a gente faz, eu não tenho nenhuma dúvida.

Os americanos estão colocando pitadas de melodrama nas séries, uma coisa que eles não tinham o hábito. Para a gente, não surpreende. Para eles, é menos comum.
Exatamente. Os grandes atores americanos têm pavor do melodrama. Eles são muito contidos, a emoção é toda interior. Eles têm pavor do melodrama. Gente, o melodrama faz parte da vida! Nós todos somos melodramáticos. Não há por que ter vergonha disso. A novela se apossou disso e levou isso a uma excelência. A gente vê nas novelas que o Brasil produz e fazem carreira no mundo inteiro. E, claro, os roteiristas de outros países que são espertos aprendem com isso, sem dúvida nenhuma.

Você citou "Sopranos", se não me falha a memória, como a melhor série já feita.
Eu acho que sim. "Sopranos", realmente, foi a série que revolucionou o gênero. É uma saga familiar. Só que, como em toda a família, acontecem as coisas mais terríveis. A série soube manipular isso de forma que os personagens nunca perdessem a humanidade. Tony Soprano é um personagem incrível. É um ser humano completo, com todas as falhas, todas as virtudes e defeitos. Eu acho que "Sopranos" é realmente é um curso intensivo de roteiro Quando eu me sinto, assim, pobrezinho de ideias, eu vou lá, vejo "Sopranos" e digo: isso aqui é o que a gente tem que fazer.

Espero que deem certo esses projetos. Quero te ver novamente ou na televisão, na Netflix, ou em algum outro lugar. Espera te ver logo de volta.
E eu também quero voltar. Não por uma questão pessoal, mas é porque eu te confesso que não sei viver sem isso. Sem produzir e sem ver, produzido, o meu trabalho. Então eu vou voltar de alguma maneira. Obrigado!

Mauricio Stycer