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Ator completo, Flavio Migliaccio foi herói das crianças na década de 1970

Shazan e Xerife, vividos por Paulo José e Flavio Migliaccio na novela O Primeiro Amor e em uma série de TV - Reprodução
Shazan e Xerife, vividos por Paulo José e Flavio Migliaccio na novela O Primeiro Amor e em uma série de TV Imagem: Reprodução
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

05/05/2020 07h01

É natural que sob impacto da notícia da morte de Flávio Migliaccio (1934-2020) as primeiras lembranças tenham sido a de dois papeis mais recentes, dois personagens de origem árabe, o divertido Chalita de "Tapas & Beijos" (2011-15) e o comovente Mamede de "Órfãos da Terra" (2019).

Em ambos, Migliaccio deixou a sua marca, como de hábito. Ator de gestos medidos e enorme expressividade no olhar, uma dicção muito particular, e entrega total ao personagem, não importa o tamanho.

Mas é injusto reduzir Flávio Migliaccio apenas aos papéis recentes e à televisão. Ele foi um ator completo, de teatro e cinema também.

Nascido em São Paulo, integrou o Teatro de Arena, um dos mais importantes grupos teatrais do país nos anos 1950 e 60. Atuou em montagens lendárias de textos que se tornariam clássicos, como "A Revolução na América do Sul", de Augusto Boal, "Eles Não Usam Black-tie", de Gianfrancesco Guarnieri, e "Chapetuba Futebol Clube", de Oduvaldo Vianna Filho.

No cinema, na década de 60, Migliaccio participou de vários filmes antológicos. Ganhou um papel pequeno, mas importante, em "Todas as Mulheres do Mundo" (1966), de Domingos Oliveira, no qual contracena na abertura e no final com o protagonista, vivido por Paulo José.

Também teve um papel menor em "Terra em Transe" (1967), de Glauber Rocha, um dos filmes mais importantes da história do cinema brasileiro. Migliaccio atua numa cena clássica, um comício político filmado de forma alegórica pelo diretor.

Ele entra em cena depois dos discursos do sindicalista Jerônimo (José Marinho) e do jornalista Paulo Martins (Jardel Filho). Sua fala é marcante: "Com a licença dos doutores, o seu Jerônimo faz a política da gente, mas o seu Jerônimo não é o povo. O povo sou eu, que tenho sete filhos e não tenho onde morar."

O papel mais importante é uma joia rara, muito pouco visto. Migliaccio é o protagonista, dividindo a cena com Marília Pêra, em "O Homem que Comprou o Mundo" (1968). Foi o único filme de ficção dirigido pelo grande documentarista Eduardo Coutinho - uma alegoria bem doida sobre as tensões entre Brasil, Estados Unidos e a então União Soviética.

Na TV, ele foi um herói para quem foi criança na década de 1970. Num caso de "spin off" antes de existir esse nome, Shazan (Paulo José) e Xerife (Migliaccio), personagens do núcleo cômico da novela "O Primeiro Amor" (1972), da Globo, ganharam uma série de TV, com os seus nomes.

A bordo da fascinante camicleta (caminhão-bicicleta), "conserta tudo, até coração", rodavam pelo país procurando trabalho e vivendo aventuras improváveis. Na mesma época, Migliaccio viveu Tio Maneco numa série de filmes de aventura e num programa na TV Educativa.

Na Globo, foram mais de 30 novelas, vários programas de humor, séries, infantis, especiais... Migliaccio fez de tudo na TV. Um ator de quem os colegas só falam bem.

Mauricio Stycer