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Entrevista de Regina Duarte causa tensão interna e canal vira #CNNLixo

A secretária de Cultura do governo, Regina Duarte, dá entrevista ao jornalista Daniel Adjuto da CNN Brasil - Reprodução/CNN
A secretária de Cultura do governo, Regina Duarte, dá entrevista ao jornalista Daniel Adjuto da CNN Brasil Imagem: Reprodução/CNN
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

08/05/2020 16h02Atualizada em 29/05/2020 19h32

Na construção de sua imagem, a CNN Brasil ainda luta contra a percepção de que é um canal "chapa branca", a favor do governo Bolsonaro. Vários são os elementos que levaram a essa percepção, a começar por elogios públicos do próprio presidente, os afagos do principal sócio, Rubens Menin, à família Bolsonaro e o bom trânsito de Douglas Tavolaro, CEO do canal, no Planalto.

O repórter Fábio Victor esmiúça esta intrincada relação entre a CNN e o governo em longa reportagem da edição de maio da revista "Piauí" e mostra que os interesses vão além do canal brasileiro de notícias.

A reportagem lembra que Bolsonaro é simpático a uma mudança na legislação que seria favorável aos interesses da AT&T, dona da CNN americana. A lei brasileira proíbe que empresas de telecomunicação e empresas de produção de conteúdo tenham mais de 30% do capital uma da outra, o que ainda é um entrave à consolidação da fusão da AT&T com a Time Warner no país. Realizado em 2016, o negócio ainda não foi aprovado em todas as instâncias no Brasil.

Escreve Fabio Victor: "Em outubro de 2017, a fusão foi aprovada pelo Cade, a autarquia responsável pela defesa da concorrência. Depois, em parte graças ao lobby da família do presidente, a operação passou pela Anatel, a agência que regula o setor de telecomunicações. Mas ainda depende de uma terceira aprovação (Ancine, agência que cuida da área de cinema e audiovisual) e, finalmente, da alteração da lei pelo Congresso. Se Bolsonaro conseguir de fato mudar a lei, será um benefício inesquecível para a AT&T e a WarnerMedia - e, por extensão, à CNN de lá e daqui".

Por tudo isso, ainda é difícil avaliar os impactos da péssima repercussão nos ambientes governistas da entrevista de Regina Duarte à CNN Brasil. Na manhã desta sexta-feira (08), no Twitter, a hashtag #CNNLixo chegou ao primeiro lugar nos assuntos mais comentados. Trata-se de uma adaptação da hashtag favorita dos bolsonaristas, #GloboLixo, dedicada a expressar ódio contra a emissora carioca.

O que incomodou os governistas foi a inclusão, sem aviso prévio à entrevistada, de um depoimento da atriz Maitê Proença com críticas ao trabalho de Regina Duarte. E também provocou reclamações, na sequência, a postura adotada pelos apresentadores Reinaldo Gottino e Daniela Lima diante dos protestos da secretária.

Regina achou que o depoimento de Maitê era antigo (não era) e disse: "Vocês estão desenterrando mortos". Daniela Lima respondeu: "O país perdeu 615 pessoas por covid-19 (...) Não estamos desenterrando mortos, estamos enterrando mortos, dentre eles alguns de seus colegas".

A confusão acabou deixando em segundo plano o vídeo de Maitê, propriamente, que é horrível. Buscando dar dramaticidade à mensagem, a atriz parece estar em cena, num monólogo que lembra melodrama de Walcyr Carrasco. Muito canastrona.

Por um lado, a hashtag #CNNLixo é positiva para atenuar a imagem governista do canal. Reforça o discurso da própria CNN Brasil de que é independente e busca promover debates pluralistas. E eleva a autoestima dos profissionais que trabalham no canal pressionados por esta imagem de que ele é "chapa branca". Aliás, a própria Regina disse, no início, que estava dando a entrevista em respeito ao fato do canal ser pluralista.

Por outro lado, a repercussão causou tensão interna. Poucos minutos após a interrupção da entrevista, o canal divulgou uma nota relatando o ocorrido e afirmando que o depoimento de Maitê foi "solicitado pela emissora no início da tarde de hoje, para debater as questões do setor cultural no Brasil". E acrescentou: "A CNN lamenta o episódio e reafirma seu compromisso de sempre ouvir todos os lados para informar melhor o país".

Segundo o canal, o vídeo de Maitê chegou à redação "em cima da hora". Isso explicaria a surpresa que causou.

Ainda que seja um procedimento jornalístico aceitável, a inclusão do depoimento de Maitê sem aviso prévio a Regina pode ser visto como uma "armadilha", uma "pegadinha". E isso pode deixar outros potenciais entrevistados com um pé atrás em relação ao canal, o que é ruim para os negócios.

Mauricio Stycer