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"O presidente é um bufão, está no terreno do humor", diz Gregorio Duvivier

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

20/05/2020 05h01

Na dupla função de apresentador do "Greg News", na HBO, e criador e protagonista dos vídeos do Porta dos Fundos, Gregorio Duviver é hoje um relevante cronista político da realidade brasileira. E dos mais argutos, mas sem perder o humor.

Nesta entrevista ao UOL, Duvivier explica como conseguiu seguir com o seu programa em tempos de pandemia, gravando-o em casa. Fala sobre o que chama de "infodemia", o excesso de informações no ar.

É uma espécie de enxurrada de informação. E o humor eu acho que ele tem como uma das funções ajudar a digerir mesmo o que está acontecendo. Ele é uma espécie de, vamos dizer assim, enzima digestiva que faz com que a gente consiga processar essa enxurrada, essa avalanche de informação.

Duvivier comenta também sobre a dificuldade de fazer humor tendo, como diz, um presidente que "é um bufão". E observa que os jovens hoje consomem informação por meio de programas que misturam notícias com humor.

Quando já é engraçada a notícia eu acho que o trabalho do humorista é dobrado. Fazer graça em cima de algo engraçado é algo difícil. É uma competição mesmo. O presidente é um palhaço, com o perdão do termo aos palhaços. É mais um bufão, para ser técnico mesmo. O bufão, que é aquele palhaço escatológico, aquele palhaço que trabalha só com cocô, com piada de pum, de peido e tal. Então ele é o bufão. Então ele está no terreno do humor.

Veja a entrevista no vídeo acima e a transcrição dos principais trechos abaixo:

Eu te procurei para fazer entrevista inicialmente para falar do "Greg News", que eu acho que é um dos poucos programas que não desistiu de ir ao ar nesse período de quarentena. E encontrou um jeito de se manter no ar. Queria que você falasse um pouco sobre isso.
Gregorio Duvivier: Sim, a gente a princípio, quando teve a pandemia, pensou em cancelar. Tivemos uma reunião de emergência, sim. Porque, como gravar um programa sem plateia? E, como você falou, sem o padrão clássico da HBO, aquela puta câmera e aquele puta esquema de iluminação, de som, de captação de som. Como abrir mão disso? E a HBO meio que topou abrir mão, também com a sorte que eu tenho um esquema aqui em casa, que estou confinado com a minha irmã. Por acaso ou por sorte, ela é fotógrafa, ela é câmera e ela saca de áudio. Além disso, ela faz tudo. É "milleniun", essa geração que faz tudo. Então, eu tenho um estúdio em casa, praticamente. Estou confinado na casa da minha mãe. A gente mandou um teste pra HBO e eles curtiram o cenário, viram que minha irmã sacava do assunto. Falou: a gente vai conseguir, vai conseguir não parar. Eu acho que mais do que nunca, o programa era importante da gente fazer. A gente se reuniu e falou: a gente num momento em que existe uma infodemia, que é como o pessoal está chamando.

Infodemia? Muito bom.
É uma espécie de enxurrada de informação. E o humor eu acho que ele tem como uma das funções ajudar a digerir mesmo o que está acontecendo. Ele é uma espécie de, vamos dizer assim, enzima digestiva que faz com que a gente consiga processar essa enxurrada, essa avalanche de informação. Então, mais do que nunca, a gente sentiu que o humor ia ter uma função muito primordial. Desde primeiro programa, a gente sentiu um impacto muito surpreendente. As pessoas estão em casa, então tem mais gente assistindo e as pessoas estão com muita vontade de fazer alguma coisa.

Os dois, desculpe usar o termo em inglês, mas não sei se tem uma tradução perfeita para isso, os dois "call to action" que a gente fez, as "chamadas à ação", tiveram impacto muito grande. Um é uma lei, que se bobear vai ser aprovada, de proteção para a classe médica. E o outro é o aplicativo dos entregadores, que já está sendo feito voluntariamente por programadores. Então, muito feliz. Tem duas iniciativas que a gente jogou no ar, meio que não brincadeira quase, e estão sendo levadas a sério, porque eu acho que tem uma vontade popular muito grande de botar a mão na massa e tem muita gente fazendo coisas muito interessantes agora.

Lançado em 2017, o "Greg News" está em sua quarta temporada na HBO  - HBO
Lançado em 2017, o "Greg News" está em sua quarta temporada na HBO
Imagem: HBO

Queria te fazer uma provocação sobre aquele slogan do Zorra, que "está difícil competir com a realidade". Tenho impressão que você vai além disso. Não sei se você discorda, mas para você parece fácil competir com a realidade.
Eu entendo o slogan do Zorra no sentindo de que realmente... Me irrita um pouco quando as pessoas falam: "Ah, é fácil, fazer humor no Brasil, porque a notícia já engraçada". Eu entendo o Zorra falar como competição porque realmente não é verdade que seja mais fácil, porque quando já é engraçada a notícia eu acho que o trabalho do humorista é dobrado. Fazer graça em cima de algo engraçado é algo difícil. É uma competição mesmo. O presidente é um palhaço, com o perdão do termo aos palhaços. É mais um bufão, para ser técnico mesmo. O bufão, que é aquele palhaço escatológico, aquele palhaço que trabalha só com cocô, com piada de pum, de peido e tal. Então ele é o bufão. Então ele está no terreno do humor.

Ele trabalha no registro cômico. Ele trabalha no diversionismo cômico, de modo geral. Então eu concordo nesse sentido que a gente tá no mesmo ramo. Triste perceber isso. A gente está jogando com armas parecidas. Então, nesse sentido, realmente é mais difícil. Agora, por outro lado, também, você tem uma coisa que é diferente do Porta e também do Zorra que é.. O Greg News tem uma agenda. A gente não faz a piada, só. A gente faz a piada e diz: calma aí, a gente tem um lado nessa história e tem algo a ser feito. De um modo geral, a gente tem um humor ativista, nesse sentido, de tentar falar: olha, só tem coisa a ser feita. E não são coisas chatas, tipo "vamos pra rua", "vamos quebrar tudo". Não. Tem uma coisa divertida para fazer, um aplicativo. São coisas engraçadas e criativas que as pessoas gostam de fazer, gostam de se sentir pertencendo a uma mudança de pensamento.

Queria que você falasse um pouquinho desse conceito, mesmo, do programa e como ele foi aplicado nesse exemplo dos entregadores.
Quem veio com essa ideia do programa para mim foi a Alessandra Orofino, que é a nossa diretora, que é uma ativista, na verdade. Antes de trabalhar com o conteúdo, ela é uma ativista, literalmente. Ela criou uma rede, o Nossas, que é uma rede de ativismo urbano, que tem no Brasil todo, para as pessoas pressionarem seus prefeitos, vereadores.

Ela tem mesmo essa missão, que é mudar a cabeça, os corações e mentes das pessoas. Então ela que veio para mim com a ideia de fazer um programa que ela sentiu que o humor era o novo rock, para usar um termo dela. Ela dizia que o rock tinha ficado careta. Os roqueiros estavam todos de direita. Já não mudavam a cabeça de ninguém. Os roqueiros estavam todos repetindo os velhos slogans ou tinham sido literalmente cancelados. E a música já não estava cumprindo esse papel político, que tinha cumprido nos anos 60 e 70. Nos Estados Unidos tem um dado que diz que mais da metade dos jovens se informa através do humor, seja o John Oliver, mas também muito Jon Stewart, antigamente, hoje o (Stephen) Colbert. Lá tem essa tradição. Tem uma tradição muito vasta mesmo do que eles chamam de "comedy news". Que essa junção da comédia com a notícia e que acaba sendo um humor político. E essa é uma maneira que os jovens estão consumindo a informação.

O jovem já prefere consumir informação através de um viés. É curioso. Porque o viés, volta e meia, a gente pensava como algo negativo. "Isso aí está um pouco enviesado". Mas o jovem prefere um viés assumido do que uma falsa isonomia. "Joga limpo comigo. Eu sei o que o Gregório pensa e sei porque ele está me falando disso". É a mesma coisa o contrário. "Eu sei o que Danilo (Gentili) pensa e por isso que está me dizendo isso". Eu acho que tem um pensamento em geral que é você saber o lugar de onde aquela informação está vindo. Então a gente tem esse lugar de fala assumido. Eu acho que isso faz parte de uma mudança geracional. Hoje em dia isso é uma maneira de consumir informação. E a Alessandra veio pra mim com essa ideia: "A gente precisa entrar nessa disputa".

Estamos já há quatro anos assim, sempre com esse lema, que é chamar as pessoas, fazer com que as pessoas entendam que política é sobre elas. Esse é o nosso lema. Quando fala de taxa Selic, o meu reflexo, antigamente, era : "Foda-se. Que que tem a ver? Não opero na Bolsa, não jogo, não invisto". Mas o que é que isso tem a ver com você? É o nosso objetivo no programa. Sempre explicar assim: por que isso te interessa?

O mais recente especial de Natal do Porta dos Fundos, protagonizado por Gregorio Duvivier e Fabio Porchat - Divulgação/Netflix
O mais recente especial de Natal do Porta dos Fundos, protagonizado por Gregorio Duvivier e Fabio Porchat
Imagem: Divulgação/Netflix

E o Porta dos Fundos? Vocês também continuam produzindo nessa situação de pandemia, tenho visto os vídeos. Vocês também encontraram um modo de produção para essa situação.
Total. Isso também foi uma mudança radical, porque o Porta também tem hoje em dia uma estrutura supergrande. Somos 50 pessoas trabalhando lá, só dentro do prédio. É uma empresa grande, assim com um monte de gente, de estrutura e tal. Então voltar a gravar num esquema micro é um desafio também. A gente hoje está gravando os esquetes em casa, cada um na sua casa. A gente liga por Zoom, igual a gente está aqui agora, um para o outro, num computador, numa tela. Em outra tela, em outra câmara, a gente se grava falando com ela. Então temos uma, na verdade, com o diretor, com alguém da produção, um assistente de direção, e os atores vão se falando aqui por câmaras. Depois a gente joga no Drive.

Eu estou achando um barato isso. Porque é um negócio muito artesanal mesmo. É muito legal. Você vê que dá! Que é interessante e mais: são tipos de relação que você não conseguiria ter, às vezes, na verdade, no real. Porque o ator é dono da própria edição. Eu vejo já o que eu estou fazendo. "Gente, vamos outra aqui, que eu vi que ficou um pouco estranho esse". Os atores acabam participando mais do fazer. Você escolhe um pouco, embora tenha um diretor falando, ajuda a escolher o enquadramento, a luz.

Agora, o desafio nosso, que a gente leva para a sala de roteiro, é: quais são as situações que podem ser engraçadas de serem vistas e filmadas remotamente. Este está sendo o nosso desafio.

Vocês têm notícias das investigações sobre o atentado que aconteceu ao Porta na véspera do Natal?
Foi na véspera da véspera. Foi dia 23.

23 de dezembro de 2019.
A impressão que eu tenho é que o cara foi quase esquecido. Ele está lá na Rússia, não pode voltar para o Brasil. Mas lá na Rússia não estão fazendo nada, não. É procurado pela Interpol, então não pode aparecer nem no aeroporto de lá. Então ele está meio preso lá, vamos dizer assim. Os outros até agora não encontraram. Mas a polícia diz que está no encalço deles. Assim, as vezes que a gente pergunta tal agora, não sei muito mais, não.

A gente pode esperar que no final do ano vai ter mais um especial de Natal do Porta dos Fundos?
Com certeza. Essa é a única certeza que nós temos. Eu não sei se vai haver presidente, país, democracia, eu não sei se vai haver nada. Agora o especial de porta dos fundos com certeza vai ter.

Quando o Porta estourou, logo começou uma discussão sobre quando que vocês iam se render, se vender para a televisão. E vocês resistiram muito. Eu acho, até, que foi o contrário. A televisão é que adotou um pouco o Porta. O "Zorra" e outros programas incorporaram um pouco o tipo de humor que o Porta dos Fundos estava propondo. Mas, no final das contas, vocês acabaram sendo adquiridos pela Viacom, uma grande empresa americana, parte de um conglomerado gigante. Isso foi uma rendição? Como você vê a influência do Porta na televisão brasileira?
Cara, é engraçado você falar isso, porque você foi um dos primeiros caras que falou do Porta quando a gente era da internet. Porque durante muito tempo as pessoas pensavam que internet era uma coisa diferente. E a gente sempre pensou que internet, You Tube, é televisão. Não vejo diferença. Tanto é que os esquetes que a gente faz no You Tube passam na TV e as coisas que a gente faz para a TV, como o Greg News, passam no You Tube. Então, tem, para mim, uma equivalência quase. Não vejo essa diferença.

Eu acho que talvez isso tenha levado algo para a televisão de frescor, de liberdade, de contato com o público também. Porque um dos baratos do Porta é que a gente tem uma resposta imediata do público de comentários, que é o que a TV hoje está incorporando também cada vez mais. Mas acho que o principal talvez tenha sido a liberdade para falar, para dar nome aos bois. Antes de fazer o Porta, na televisão, a gente não podia falar nomes de pessoas, nem de marcas quando fazia humor, nem de religião nem de política.

As marcas fazem parte da nossa vida. E, como a comédia fala da vida, tirá-las, por exemplo, é deixar de falar de uma parte fundamental. Não só de marcas, falo também de pessoas, de celebridades, e falar de religião, que era um tabu no Brasil. De certa maneira, ainda é. E de sexo também. Assim, literalmente, sem muitas meias palavras. Então, eu acho que tem uma coisa deslocada, que vai muito além do palavrão, que eu acho que serviu muito à televisão. E que eu acho que foi o Porta que abriu, de certa maneira, essa porta, junto com outros programas da internet. Acho que a internet abriu uma porteira, e a televisão falou: "Opa! Podem!" E eu acho que hoje a internet se parece muito com a televisão e a televisão se parece muito com a internet, e com o cinema também. O Scorsese estreia filme no Netflix. O You Tube está investindo em produções grandes. Vai fazer uma produção grande com o Porta.

Não sabia? Para fazer o quê?
O futuro ex-ator do Porta.

Ah, o reality...
É um reality que o You Tube está investindo uma grana de produção. O futuro mesmo é que o audiovisual seja pensado como algo independente do tamanho da tela. São experiências audiovisuais, tudo. E o Porta é isso, uma produtora de conteúdo, que vai pra HBO, e também pro You Tube, Netflix. Enfim, a gente faz conteúdo audiovisual. E o futuro é meio esse, pensar com menos barreiras, menos categorias, o audiovisual.

O próximo "Greg News" vai falar sobre a entrevista do Bolsonaro?
A gente no "Greg News" tem como moto, aliás, você fez uma vez uma crítica que é super real, eu concordo, que é um programa que às vezes ele soa frio. Mas ao mesmo tempo eu gosto disso no Greg News. Não estou, como se diz, apegado aos defeitos. O que eu mais gosto no programa é que a gente evita falar do tema mais quente no momento, até porque não tem tempo para isso. Então, em geral, a gente tenta fazer um programa sobre o que não está sendo dito.

É bom porque evita que a gente tenha opiniões apressadas e também fazer as piadas que todo mundo já fez. É muito difícil você competir com o que está no Trending Topics do Twitter. No caso da entrevista do Bolsonaro, as pessoas fizeram piadas matadoras. Competir com a indústria de memes brasileira é impossível. A gente tem realmente uma indústria de ponta que, quando você faz humor político, é muito difícil você não esbarrar. Mas fazer um programa evitando todos as piadas que que já foram feitas é muito difícil. Então, a gente tenta, no geral, falar do que não está sendo dito.

Como falar dessa balbúrdia que está acontecendo no nosso país sem cair em todas as piadas que já foram feitas tão bem... Porque o Twitter cobre maravilhosamente nesse aspecto humorístico.

Mauricio Stycer