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Decisões de Silvio mostram fragilidade e falta de independência do SBT

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

25/05/2020 00h44

Um clipe de sete minutos de falas do presidente Jair Bolsonaro na reunião ministerial, sem explicação qualquer do que seja, editado sabe-se lá por quem, foi ao ar duas vezes na noite deste domingo (24) no SBT. Da forma como foi apresentado antes e após o "Programa Silvio Santos", pareceu uma coisa totalmente sem sentido para o espectador. Foi mais uma decisão, entre outras recentes do empresário Silvio Santos, difícil de entender.

Aparentemente, o clipe foi a maneira do dono do SBT dizer que viu com bons olhos o estilo presidencial, incluindo os palavrões, na reunião ocorrida em abril, cuja divulgação foi determinada pelo STF. "Ele fala o que as pessoas querem ouvir", teria dito o dono do SBT, segundo o jornal digital Poder360.

O deputado Fabio Faria (PSD-RN), casado com Patricia Abravanel, filha de Silvio, disse que "o governo comemorou o vídeo". Segundo ele, não haveria motivos para reclamar do SBT, que exibiu uma reportagem na sexta-feira apresentando um bom resumo dos momentos mais críticos da reunião ministerial.

A exibição do clipe não conseguiu desfazer a má impressão causada pelo cancelamento da edição de sábado do "SBT Brasil". Conversei com muita gente que trabalha no SBT nos últimos dois dias e todos os relatos coincidem numa mesma direção: houve motivação política por trás da não exibição do telejornal. Sobre este assunto, gravei o vídeo acima (a transcrição está abaixo):

A proximidade de Silvio Santos com o governo Bolsonaro tem deixado o departamento de jornalismo do SBT em uma situação muito complicada.

Neste sábado, Silvio Santos cancelou a exibição do SBT Brasil, um fato inédito nos 15 anos do telejornal. Há muitas versões sobre o que levou o dono da emissora a tomar uma medida tão drástica, mas todos os relatos que eu ouvi indicam que houve motivação política no episódio.

Na sexta-feira, o SBT Brasil fez uma reportagem mostrando um resumo do vídeo da reunião ministerial do governo Bolsonaro, divulgado após autorização do STF. A reportagem mostra vários trechos em que o presidente fala, em meio a palavrões, da sua intenção em interferir em órgãos de segurança e exibe também as falas mais polêmicas e grosseiras de alguns ministros.

No sábado, seria exibida uma reportagem com a repercussão desta reunião, mas ela foi tirada da pauta do telejornal. No final da tarde, Silvio determinou o cancelamento do SBT Brasil e a exibição de uma reprise do Triturando.

Aposto que o SBT vai dizer que o cancelamento foi um teste para o Triturando. Para ver se o programa de fofocas iria bem de audiência neste horário noturno. Mas não faz sentido. Dava para testar o Triturando à noite e ainda assim exibir o telejornal. Não se cancela um telejornal pra colocar uma reprise de programa de fofocas no lugar. É muito grave.

O dono do SBT entende que as falas do presidente, com palavrões e tudo, transmitem uma imagem positiva para a população. Por sua autenticidade. Quer mostrar as falas na íntegra, sem edição feita por jornalistas.

As interferências de Silvio Santos no jornalismo não são de hoje. Ele sempre foi alinhado com o governo. Qualquer governo. Os governos da ditadura, os governos que vieram depois, com a redemocratização. E sempre orientou o seu jornalismo a ser a favor do governo. E com exceção do período em que Boris Casoy apresentou o TJ Brasil, nunca deixou que os seus jornalistas opinassem.

O problema é que a proximidade de Silvio e do SBT com o governo Bolsonaro está chamando mais a atenção do que em outros momentos. Silvio parece estar de braços mais abertos do que o normal para o presidente e todo o círculo presidencial.

Isso não é bom para o canal. Mostra fragilidade e falta de independência.

Mauricio Stycer