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"Recebo fake news de autoridades; é uma maldição", diz Cesar Tralli

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

01/06/2020 05h01

"Um repórter que está na apresentação". É assim que o jornalista César Tralli, no comando do "SP TV 1" desde 2011, se enxerga. "Eu ajudo a apurar a notícia, eu pego no telefone, falo com as fontes, ligo para secretários, falo com autoridades", conta.

A pandemia de coronavírus afetou não apenas a sua rotina como a carga de trabalho. Além de estar à frente de um dos principais telejornais da Globo, desde março Tralli está também apresentando o "Edição das 18h", na GloboNews, substituindo Leilane Neubarth, que foi colocada em quarentena.

Eu sinto que a pandemia é um divisor de águas na vida da gente em todos os sentidos, tanto pessoal quanto profissional. Hoje eu vivo recluso, sou um escravo do WhatsApp e do telefone. A minha vida toda hoje, as 24 horas do dia, é o telefone, é computador. Não é mais o olho no olho ou encontrar alguém pessoalmente para tomar um café e trocar ideia. Isso acabou. E eu sinto que tem um impacto grande também na dinâmica do jornalismo.

Cesar Tralli e Ticiane Pinheiro - Reprodução/ Instagram - Reprodução/ Instagram
Cesar Tralli, Ticiane Pinheiro e a filha do casal
Imagem: Reprodução/ Instagram
Com passagens por Gazeta Esportiva, Jovem Pan e SBT (Aqui Agora), Tralli está na Globo desde 1993. Foi correspondente em Londres e repórter investigativo antes de virar apresentador. Aos 49 anos (faz 50 em dezembro), é casado com Ticiane Pinheiro, apresentadora da Record, e pai da Manuela, nascida em julho de 2019.

Nesta entrevista ao UOL, Tralli discorre sobre a importância cada vez maior do jornalismo local, comunitário, feito a partir de demandas do espectador. Fala também sobre as mudanças na rotina profissional, causadas pela crise sanitária. Entre as dificuldades, lamenta muito a difusão descontrolada de fake news.

Essa é uma maldição dos tempos modernos. Infelizmente. E eu vejo pelos amigos, por gente da própria família, por fontes, por pessoas conhecidas. É inacreditável como as pessoas recebem alguma coisa no celular e imediatamente repassam sem checar, sem ver se aquilo procede. E aí vira um vírus pior do que essa da pandemia. A fake news vai se espalhando de uma forma que pega todo mundo. E depois você tem que sair dizendo que isso é mentira. Eu recebo fake news de autoridades.

O apresentador fala, ainda, sobre a sua vida pessoal, relata como é ser casado com uma celebridade e como tem se virado num momento em que não pode ver os pais e parentes.

Mal consigo ver a minha filhinha que está com dez meses. Às vezes eu saio de casa de manhãzinha, ela está acordando, eu dou um beijo nela. E já me peguei entrando no elevador chorando de saudade.

A entrevista pode ser vista no vídeo acima ou na transcrição dos principais trechos abaixo:

Tralli na Globo News - Reprodução / Internet - Reprodução / Internet
Desde março, Tralli está apresentando também o "Edição das 18h", na GloboNews
Imagem: Reprodução / Internet


Como é a rotina de um jornalista que precisa apresentar dois telejornais importantes no mesmo dia, com uma certa diferença de horário? Você entra as 12h na Globo, vai até as 13h30 e aí entra novamente às 18h e fica até às 20h na GloboNews.
Tem sido bem interessante, muito mais pela diferença de estilo de telejornais do que propriamente pela minha carga de trabalho. Sempre fui "workaholic" e acho que é algo da minha geração. Eu comecei no impresso, passei para o rádio, depois para a televisão e sempre tive essa característica de gostar de trabalhar bastante. Então, trabalhar dez, doze horas por dia nunca foi um problema para mim. Mesmo quando eu só fazia o "SP1", eu estava sempre circulando pela cidade à tarde para encontrar fontes, fazer reunião com pessoas que trazem informações importantes para mim. E agora, a grande mudança na minha rotina de vida tem sido, de fato, ficar dentro da emissora essas doze horas. Eu chego por volta de 7h30 e fico até umas 20h30. São quase treze horas de trabalho diário de segunda a sexta.

Você chega tão cedo.
O que eu mais gosto de fazer é ser um repórter que está na apresentação. Eu ajudo a apurar a notícia, eu pego no telefone, falo com as fontes, ligo para secretários, falo com autoridades. É um trabalho que tem que começar logo cedo para quando chegar a hora do almoço você estar com bastante coisa já em mãos para poder botar no ar. E a mesma coisa eu faço no jornal da GloboNews. Quando termina o "SP1", eu faço um breve almoço, como uma marmitinha que trago de casa. Aliás, estou adorando comer marmita. Está sendo maravilhoso. Comida caseira todos os dias. E depois à tarde eu já engato nas apurações para o jornal da Globo News.

Cesar Tralli no SP1 - Reprodução/TV Globo - Reprodução/TV Globo
Cesar Tralli, no SP1, interage com Maria Julia Coutinho, do Jornal Hoje
Imagem: Reprodução/TV Globo


Vamos falar do "SP1", que você apresenta desde 2011. Queria falar desse investimento que eu vejo que a Globo está fazendo, esse tipo de jornalismo, que não sei se é o termo certo, que eu chamaria de "comunitário" ou "local". Não sei se vocês usam este termo aí.
A gente usa essa terminologia, se a gente pode dizer assim, de jornalismo comunitário. Porque, de fato, no caso aqui em São Paulo, é transmitido para toda a região metropolitana. São 39 cidades, tudo que está em volta de São Paulo. E é um estilo de telejornal mesmo feito para essa população local, em que a gente mostra os grandes desafios, os problemas nas comunidades, posto de saúde sem médico, os R$ 600 da Caixa Econômica Federal com essas filas indetermináveis... O pessoal nas comunidades, nas favelas, sem água num momento em que as pessoas têm que lavar as mãos, tomar banho, se higienizar direitinho para enfrentar essa poderia. Então, ele tem essa característica, mesmo, de ser um telejornal mais voltado para os problemas do cotidiano das pessoas. E é um estilo de telejornal que é muito pautado pelos anseios das próprias pessoas. Então, as pessoas mandam muitas demandas para a gente e a gente sai fazendo pauta em cima desse termômetro da realidade da população e dessa população mais desassistida mesmo.

Vocês têm uma tem uma estimativa, mesmo que seja um chute aproximado, de quanto que é a pauta que vem dessa forma, que não é da agenda, que vocês recebem do espectador?
Dando um chute dentro de uma margem de erro de três pontos para mais, três pontos para menos, eu diria que 50%. Muita pauta mesmo vem pelas redes sociais, pelo nosso WhatsApp, as pessoas me escrevem, escrevem para a redação, para produtores. Muita coisa vem dessa demanda das ruas, das comunidades. É um telejornal que lhe dá um prazer enorme de fazer porque você sente que, de fato, está ali conectado com a população local. É muito bacana o retorno que gente tem das pessoas.

Cesar Tralli fala sobre chuva  - Reprodução/YouTube - Reprodução/YouTube
Cesar Tralli e Eliane Marques durante a cobertura de fortes chuvas que atingiram São Paulo
Imagem: Reprodução/YouTube

Você concorda que esse tipo de jornalismo é uma ferramenta das mais importantes para manter a TV aberta relevante no Brasil?
Sem dúvida. Essa é uma tendência não só aqui no Brasil, mas mundial. Quando você olha as TVs europeias, americanas, canadenses, na Ásia, há um espaço cada vez maior para o que a gente chama de jornalismo regional. Porque eu sou da época da máquina de escrever, do telégrafo, do telex, do telefone com ficha... Botava a ficha no telefone e entrava ao vivo no rádio, de orelhão. E aí vem a internet, por volta de 1992, 93, eu já estava na Globo e quase indo para a Europa, e você percebe uma revolução grande que ocorre no jornalismo a partir daí. Com a internet, tudo é muito instantâneo e a quantidade de informação que a gente recebe é absurda. O tempo todo, de todos os tipos. E o jornalismo regional vai ganhando força nesse período, especialmente de 12 anos para cá, porque, de fato, você consegue fazer um jornal bem focado mesmo nos interesses regionais.

A pandemia causou alguma mudança importante na cobertura? De que forma?
Eu sinto que a pandemia é um divisor de águas na vida da gente em todos os sentidos, tanto pessoal quanto profissional. Eu tomo por base eu. Sempre fui um cara que gosta de circular pelo centro de São Paulo, andar pela região da Paulista, encontrar com fontes em tudo que é bairro. Hoje eu vivo recluso, sou um escravo do WhatsApp e do telefone. A minha vida toda hoje, as 24 horas do dia, é o telefone, é computador. Não é mais o olho no olho ou encontrar alguém pessoalmente para tomar um café e trocar ideia. Isso acabou. Isso impactou demais na minha vida e eu sinto que tem um impacto grande também na dinâmica do jornalismo.

Você tem todo cuidado quando vai fazer uma cobertura no aeroporto, ou tem que ir num posto de saúde, tem que fazer uma entrada ao vivo na porta do hospital. A saúde do profissional também está em jogo. Essa é uma pandemia que pegou todos nós. Não estamos livres de nada. Então todos os cuidados na higienização de microfone, evitar aglomeração, não poder um ficar perto do outro. Depois, limpa o equipamento todo. Então, é uma mudança radical na vida da gente. Todos os repórteres de máscara na rua. Só não estou de máscara com você porque estou numa sala fechada, sozinho. Se eu estivesse do lado de fora, já teria que usar máscara.

Essa questão do microfone envolve um aspecto preocupante, para nós, jornalistas, que é não deixar o entrevistado ficar com microfone na mão porque você perde um pouco o controle. Como está sendo isso no dia a dia dos repórteres? Imagino que deve dar um pouco de aflição.
Sem dúvida. Mas, ao mesmo tempo, sinto que as pessoas percebem também essa necessidade e são solidárias. Uma dificuldade que a gente tem, claro, hoje é ter que fazer muitas entrevistas assim como a gente está fazendo, pela internet. No ao vivo é muito mais difícil. Talvez pelo fato de a pessoa estar em casa, conversando com o computador, não está frente a frente com você, seja no estúdio ou na rua, as pessoas começam a falar, desembestar na carreira, e não param mais. Você fala: 'Jesus, eu preciso interromper para fazer outra pergunta'. E você não tem ponto de corte. As pessoas perdem um pouco a noção também do 'timing' do que é entrevista quando você faz por computador.

Uma outra questão que afeta o trabalho, não é específica da pandemia, mas ganhou uma dimensão maior neste momento é o problema das fake news. Como vocês estão enfrentando isso, lidando com a difusão de informação errada, falsa que tem por aí? .Os filtros estão mais afiados? Vocês estão mais preocupados com isso?
Essa é uma maldição dos tempos modernos. Infelizmente. E eu vejo pelos amigos, por gente da própria família, por fontes, por pessoas conhecidas. É inacreditável como as pessoas recebem alguma coisa no celular e imediatamente repassam sem checar, sem ver se aquilo procede. E aí vira um vírus pior do que essa da pandemia. A fake news vai se espalhando de uma forma que pega todo mundo. E depois você tem que sair dizendo que isso é mentira.

Eu recebo fake news de autoridades. Na semana passada recebi uma, que eu questionei a fonte: "Você tem certeza que é isso que você está dizendo?". Aí a pessoa ficou assustada. Falei: "Olhando o cenário, tenho quase certeza que não se trata de algo aqui de São Paulo, e nem do Brasil". Aí o cara foi atrás e falou: "Nossa, é uma gravação que veio de um país do leste europeu". Essa coisa da fake news é muito triste em todos os aspectos. Porque as pessoas inventam as coisas, saem reproduzindo como se fossem verdades e outras pessoas recebem e repassam também como se fosse verdade. Acho que se todo mundo fizesse o trabalho de olhar e falar: "Será que isso procede?" Aí a gente já eliminaria uma boa parcela das fake news.

Uma parte desse problema é menor na Globo, porque tem menos espaço para isso, mas que afeta a GloboNews e outros canais de que fazem longas entrevistas, muito debate., são os entrevistados com perfil de negacionistas, que defendem coisas que a ciência já disse que é indefensável. É um problema também, não?
Eu vejo duas questões importantes. Uma é a fake news pura e simples. Que é de fato você deturpar uma informação ou construir, inventar uma história, seja para difamar alguém, seja para você vender a sua verdade. E a outra são as pessoas que, de fato, se colocam como antagonistas de tudo o que a ciência prega. Eu sou muito democrático. As pessoas têm o direito de pensar e de agir como elas bem quiserem. E cabe a nós, que fazemos jornalismo sério, com critérios, qualidade, a gente poder separar as coisas e levar para as pessoas aquilo que num momento como esse da pandemia, a ciência está direcionando como o caminho correto, não só para o Brasil, mas para o mundo. Para a sobrevivência da espécie. É algo que eu tento ver como o bom senso prevalecendo, junto com a ciência, no tratamento dessas questões tão delicadas nesse momento.

Renato Peters - Reprodução / Internet - Reprodução / Internet
Durante interação com Tralli, o repórter Renato Peters foi atacado por uma mulher, que arrancou o microfone
Imagem: Reprodução / Internet


Outro tema também um pouco delicado que é a hostilidade aos jornalistas, como ocorreu há pouco tempo com Renato Peters e a Sabina Simonato ao vivo. Isso preocupa vocês? A Globo está tomando cuidados especiais com os repórteres em situações de externa?
Preocupa e não só pela questão profissional. Eu vejo isso com muita tristeza pela questão pessoal. Esse momento de agressividade, descontrole, radicalismo, extremismo que o país está vivendo é muito triste para todos nós como seres humanos, cidadãos. Eu sou um cara super da paz. Fui criado numa família simples e a gente sempre procurou tratar o próximo com o maior respeito possível. Na minha casa era sempre "bom dia", "por favor", "obrigado". A gente hoje vive num mundo em que as pessoas te jogam pedras sem saber porque estão jogando pedras. Virou um clima de guerra de torcida que nem no tempo dos hooligans a gente via tanta agressividade e tanta violência gratuita. Vejo com tristeza como ser humano, como cidadão e como jornalista.

E, é claro, a gente toma uma série de cuidados. Os repórteres quando vão para as ruas tentam ficar em locais onde você não se exponha tanto, para não entrar ao ao vivo no meio de uma multidão. Você não dá margem para um maluco desses vir correndo, pegar o microfone e gritar, começar a xingar. São uma série de cuidados que os repórteres estão tendo para se resguardar e para conseguir fazer o trabalho bem feito. Você citou o caso do Renato Peters. Ele estava ao vivo comigo, mostrando o drama de uma família que não estava conseguindo o atendimento médico necessário. Uma situação superdelicada de uma cirurgia que tinha que ser feita. E o hospital estava tratando com desdém essa família. Era um assunto que interessa a toda a população e aí vem a mulher, toma o microfone e começa a gritar. Enfim, pessoas que você não imagina que sejam capazes de fazer isso, consigam respeitar o trabalho do repórter e aparecem do nada para ofender e até para desmerecer o profissional do jornalismo ali na rua.

Nesse caso específico, o Renato teve uma atitude muito legal, achei, porque ele não reagiu. Depois do susto, ele não tentou pegar o microfone de volta. Isso foi o instinto dele ou vocês têm um manual para uma situação como essa? Têm regras e orientação para esse tipo de situação?
Penso que foi o instinto dele. Ele ficou tão atônito na hora. Renato é um cara que trabalha no esporte. Como não tem mais esporte nos últimos tempos, a equipe do esporte foi agregada ao jornalismo. Então tem vários repórteres excelentes do esporte fazendo reportagem de rua para nós. E o Renato não está acostumado com esse tipo de situação. Então ele ficou ali paralisado, atônito, aí devolveu para mim. E eu pedi desculpas pelo constrangimento da situação e toquei o jornal com o máximo de elegância possível. Eu não acredito que tenha um manual, vamos dizer assim, para a reportagem de rua.

Existe todo um cuidado do profissional de ter bom senso. Se alguém vier xingar, você não deve reagir. Porque as pessoas já vêm xingando com o celular ligado, já com o objetivo de te constranger e depois publicar em rede social. Você tem que ter muito sangue frio para saber se colocar ali naquela situação e não entrar no jogo da provocação. Essa é a questão. Porque essas pessoas vêm para provocar, tripudiar e, muitas vezes, para agredir fisicamente, como aconteceu com aquele cinegrafista de Minas na semana passada. Muito triste. Não tem nada que justifique isso. Você pode ter uma opinião diferente da minha. Eu tenho diferente da sua. Mas você tomar isso como algo pessoal e ir para a rua com o objetivo de atrapalhar o trabalho de um repórter sério, que está ali tratando de assuntos que interessam à vida das pessoas, da sociedade como um todo, para mim é muito lamentável.

Não é exatamente a sua área, mas eu vou fazer essa pergunta. Como você vê a politização da cobertura da pandemia e as críticas frequentes e, na minha visão, exageradas do presidente Bolsonaro à Globo?
É um direito dele fazer as críticas que ele quer. Eu vejo com muita tranquilidade todo o trabalho sério, empenhado, isento, que o departamento de jornalismo faz. Tudo com muito critério, uma linha editorial muito transparente. É impressionante porque você vê esse pessoal da extrema direita criticando a Globo. E você vê o outro extremo também criticando a Globo. Então, quando ficam os dois lados da torcida criticando, imagino que o juiz está fazendo um trabalho sério. Eu quero crer que a gente está fazendo o trabalho que a gente sempre fez. Não mudou nada. É o mesmo tipo de cobertura, indo atrás das questões que interessam à sociedade, os meandros do poder, os bastidores, os assuntos que impactam na vida da gente.

Eu não consigo enxergar o motivo para essa agressividade, para esse destempero, para essa situação que, para mim, foge do que é o mínimo da educação. Eu volto a repetir. A gente tem que avançar como civilização: mais educação, mais tolerância, mais respeito ao próximo, mais direito ao contraditório. Eu não penso como você, mas eu vou te ouvir. Não o oposto. É a minha verdade que tem que imperar. Ou aquilo que não me agrada eu vou passar por cima igual um trator, um rolo compressor. Não pode ser assim.

Você já falou um pouco sobre a importância das redes sociais para o trabalho de vocês no "SP1" e, de um modo geral, no jornalismo. E o "SP1", realmente, explora muito bem isso. Mas tem uma contrapartida, que são os memes e as piadas, que também estão o tempo todo nas redes sociais. Como você lida com isso?
Ah, tranquilo. A gente tem que fazer um filtro antes de botar no ar, no telão interativo. Porque é claro que tem gente que às vezes se aproveita e diz: "Deixa eu ver se consigo jogar uma casca de banana ali para eles pisarem." É precisar ficar de olho. Mas eu acho que é normal. Tem um lado interessante do brasileiro que essa coisa de que pode acontecer a maior a desgraça agora que daqui a três minutos já tem meme. Essa coisa da sagacidade, do humor do brasileiro, de conseguir transformar desgraça em humor, tem um lado bom. Eu acho que a gente tem que saber olhar também este outro aspecto. Tem que levar na esportiva.

Tralli vira meme - Reprodução/TV Globo - Reprodução/TV Globo
Tralli virou meme depois de chamar o repórter Romeu Neto de Romeu Tuma durante o SP1
Imagem: Reprodução/TV Globo
Agora, falando de você e dos seus colegas, vocês têm medo de virar meme? Isso, afeta o trabalho? O medo que algum acidente ao vivo vai virar uma piada? Você se contém mais por causa disso?
Medo, não. No meu caso, por exemplo, estou consciente dos riscos de isso acontecer. O que eu procuro sempre, ao vivo, é medir muito as palavras, pensar muito bem antes de falar, tratar os assuntos com bom senso. Se eu percebo que é um assunto muito espinhoso, sobre o qual não caberia uma análise, um comentário, eu tento tratar da forma mais abreviada possível, já passar para outro assunto. Exatamente para evitar isso, essas saias justas que acabam te colocando mais na vitrine do que você já está.

Uma pergunta que esbarra entre o profissional e o pessoal. Você é casado com uma figura pública, a apresentadora da Record Ticiane Pinheiro. Como você lida com a exposição que isso acarreta?
Num primeiro momento, quando a gente começou a se relacionar, foi muito difícil, porque ela tinha uma dificuldade de entender as minhas limitações como jornalista. Mas ao longo do tempo, a Tici, que é uma mulher muito inteligente, bem-humorada, eu falo que ela é uma espécie de Nair Bello com Hebe Camargo dos tempos modernos. E a Tici é um pouco assim. Por ela ser muito inteligente, ela conseguiu entender os limites.

Então a gente tem uma relação muito legal. Ela tem o seu universo artístico. E eu tenho o meu universo jornalístico, que não tem nada a ver com o dela. Então, eu respeito muito ela, as coisas que ela faz, e ela respeita o meu trabalho, as minhas limitações. Eu acho que isso está indo muito legal, porque a gente não fala muito de trabalho em casa. E, quando a gente fala, ela sabe exatamente aquilo que eu posso falar, até onde eu posso ir, a maneira como eu posso me expor. Ela faz muita coisa nas redes sociais e eu tento cada dia mais ser discreto. 31:17

Como que é? Fala um pouco da sua rotina.
Mudou muito. Porque antigamente, além de ir para a rua, eu conseguia, vez ou outra, fazer uma ginástica e agora acabou.

Não está fazendo nada?
Agora, eu caminho muito aqui dentro da Globo. Subo escada, desço escada. Tento de alguma maneira me exercitar internamente para não ficar 100% parado.

Cesar Tralli pega sol - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Cesar Tralli na sede da Globo, em São Paulo
Imagem: Reprodução/Instagram
Eu vi que você, semana passada, postou uma foto no jardim aí na Globo.
Eu estava de olho no programa do coronavírus e eles falavam muito sobre vitamina D, a necessidade sintetizar a vitamina para aumentar a imunidade. De terno e gravata aqui dentro? Só seu for para o jardim tomar um solzinho.

Treze horas você fica aí dentro.
Cinco a dez minutos por dia eu vou no jardim tomar um sol. Mas é isso. Não vejo com glamour a profissão. Não vejo com heroísmo este momento. Vejo com muita naturalidade e preocupação, porque é um momento inédito na minha vida que eu também não estou podendo ver meu pai, minha mãe, meu irmão, as pessoas que eu amo. Falo por telefone. Mal consigo ver a minha filhinha que está com dez meses. Às vezes eu saio de casa de manhãzinha, ela está acordando, eu dou um beijo nela. E já me peguei entrando no elevador chorando de saudade. Penso no meu pai e na minha mãe e também fico mal. É um momento. A gente vai ter que manter a cabeça boa para passar por isso.

Eu vejo a pandemia como uma maratona, uma prova de 42 quilômetros. Se você não tiver equilíbrio nessa prova, você não chega até o fim. Não adianta você querer correr tudo nos primeiros cinco quilômetros. A minha vida hoje é as próximas 24 horas. Amanhã é amanhã. Depois de amanhã... Não existe mais feriado, não existe mais ir para a montanha tomar um ar puro. Hoje, eu me sinto feliz assim quando, à noite, eu passo no supermercado, compro alguma coisa e vou para casa. Essas pequenas mudanças de rotina já fazem a diferença na minha vida.

Ao mesmo tempo, cumprindo uma missão que é muito bacana.
O papel do jornalismo, para mim, hoje está muito colocado como fundamental para a sociedade. Jornalismo bem feito, sério, tem cada vez mais o seu valor e é isso que eu acredito muito. E acredito também que a gente possa sair melhor dessa situação como seres humanos. Essa é minha constante busca. Dar valor às pequenas coisas no seu dia-a-dia. Eu passo as 48 horas do meu fim de semana dentro de casa, se não estou de plantão. Eu dou muito valor para as pequenas coisas do dia-a-dia, de você poder fazer a sua comida, fazer a sua cama, trocar uma ideia com a sua filha. Eu sou um cara muito otimista. Acredito muito no ser humano. E eu quero poder acreditar que a gente vai sair melhor disso. Mais solidários, mais amorosos, talvez. Estou torcendo. Tudo que puder ser contra essa vibe radical, extremista, para mim está valendo.

Adorei esse final. Ótimo.
Tenho um amigo que é dono de restaurante. Ele fala que o pós-pandemia já está forçando a gente a baixar o tom, descer alguns degraus e viver numa nova simplicidade de vida. Ele usou um termo comigo que eu amei. Eu acho que vale para a nossa vida. Ele disse assim: a gastronomia, daqui para frente, vai ser menos afetação e mais afeto. Você trabalhar poucos ingredientes, coisa simples, barata e fazer aquela comidinha saborosa. Eu acho que isso vale para tudo na nossa vida. É uma metáfora que vale qualquer coisa.

Mauricio Stycer